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O lugar de Maria

O lugar de Maria

por Elisa Lempek

O lugar de Maria

Enquanto Maria prepara o jantar, seu companheiro observa a brincadeira das crianças que pulam sobre o sofá, se enrolam na manta de crochê feita pela avó e espalham as almofadas coloridas pelos cantos da sala, onde ecoam gargalhadas.

Na sala de jantar, a mesa está posta. Pratos, talheres, copos e guardanapos escolhidos para a ocasião ocupam seus lugares diante de três cadeiras. No centro, um descanso de panela feito de bambu e madeira aguarda o prato principal. O cheiro da carne assada percorre a casa e desperta a fome dos pequenos, que, em coro, perguntam quanto tempo ainda falta para comer.

Orgulhosa de seus dotes culinários, a avó surge da cozinha carregando uma travessa de vidro com as mãos protegidas por um par de luvas térmicas estampadas com corações, presente que ganhou dos netos. Um sorriso satisfeito ilumina seu rosto ao anunciar que o jantar será servido. No mesmo instante, as crianças abandonam a sala e correm para a mesa. O avô senta entre elas e assume a tarefa de servir os pratos. Maria coloca a assadeira no centro, distribui beijos na testa dos netos e troca um sorriso afetuoso com o marido. Em seguida, retorna à cozinha. 

Enquanto a família se reúne em torno da refeição, ela troca as luvas térmicas pela bucha de lavar louça, mergulha as mãos na água morna e começa a cuidar das panelas que ficaram para trás.

— Vó, você não vem? — pergunta a neta entre uma garfada e outra, deixando escapar um pouco de farofa sobre a mesa.

— A vovó já vai.  Aproveitem o jantar — responde, sem desviar os olhos da água corrente.

Enquanto a espuma escorre entre seus dedos, uma lembrança emerge. Quando menina, Maria também esperava que a avó ocupasse a cadeira vazia ao seu lado nos almoços de família. Mas ela permanecia na cozinha, cercada por panelas, travessas e louças que pareciam nunca ter fim. A avó nunca sentava e raramente participava da diversão. 

— Vó, vem logo!

O chamado apressado do neto desperta a atenção de Maria. Ela fecha a torneira, tira o avental e retira da geladeira a travessa de sobremesa. Em seguida, separa quatro taças e quatro colheres para levar à mesa.

 

Elisa Lempek

Elisa Lempek é gaúcha, nascida em 1983, mãe de dois, psicóloga e escritora. Na clínica, atua com psicoterapia online para adultos e casais, oferecendo um espaço de escuta sensível e acolhimento às singularidades de cada trajetória. Seu trabalho dedica atenção especial às vivências relacionadas às neurodivergências, aos vínculos e aos processos de perda e transformação. Na escrita, compartilha textos que revelam seu olhar para as sutilezas das relações familiares e as entrelinhas do cotidiano.