por Rita Paldes Faria
Todo dia era tudo sempre igual. Coletar néctar e pólen, construir favos de cera, produzir mel e defender a colmeia. Tudo isso é repassado de geração para geração sem nenhuma alteração ou risco de não acontecer, ou de haver qualquer falha. Numa colmeia existem três tipos de abelhas: a rainha, responsável pela reprodução; os zangões, machos cujo papel é fecundar a rainha; e as operárias, fêmeas que realizam a maioria das tarefas. Doroteia, uma abelha-operária bisbilhoteira, questionava essas ordens invisíveis. Por que sou obrigada a limpar as células da colmeia e do ninho? Por que tenho que construir os favos de cera onde serão armazenados o mel e o pólen? Por que coletar o néctar e as resinas das plantas? Por que tenho que defender a colmeia contra intrusos e predadores? Suas indagações e porquês seguiam na mesma ordem da exaustão, onde suas questões individuais não mudavam em nada a razão do todo. Resolveu analisar suas amigas laborais. Precisas e na mesma ordem de funções: limpeza, nutrição, construção, forração e guardiãs. Será que elas pensam iguais a mim ou têm medo de falar ou insubordinar a abelha rainha? E quem era essa rainha? Por que esse poder se nunca poderemos alcançá-la ou sequer vê-la? Quem distribuiu essas funções? Somente ser fecundada pelos zangões e colocar milhares de ovos parece ser minimamente cansativo, não é? Dizem que ela é obrigada a manter a ordem social e que, através da vibração de feromônios, inibe o desenvolvimento de novas rainhas e controla o comportamento das operárias. Além disso, é alimentada com a geleia real e mantém a colônia organizada, assegurando a continuidade e o crescimento do enxame.
Doroteia, mediante todos esses questionamentos, resolveu mudar o ritmo do curso habitual. Pensava e matutava diariamente sobre como executar seu plano. Se iria primeiro cortar esse tal de feromônio; ou exterminaria os ovos germinados; ou poderia interromper o voo nupcial da rainha, ou executaria cruelmente os zangões no momento do acasalamento, impedindo a coleta do esperma necessário para fertilizar os ovos; ou envenenaria a geleia real... Mas para que tudo isso acontecesse, precisaria de uma grande equipe ou de centenas de milhares de colegas operárias. Convocou uma reunião geral e resumiu suas expectativas e propostas de mudanças num discurso de persuasão:
- Minhas camaradas, precisamos unir forças para acabar com essa hegemonia e nos rebelarmos contra esse trabalho alienado e sem significado, resultando na perda da nossa essência e no sentimento de impotência e desumanização!
- Como assim? Uma delas respondeu prontamente. Você está maluca, Doroteia? Nunca poderemos romper esse ciclo. E o sustento das pessoas?
- Você acredita que simplesmente rompendo a cadeia suas angústias e aflições diminuirão? Qual seria sua continuidade na Terra? E a destruição do sustento? Retrucou outra.
Uma enxurrada de zunidos, aplausos misturados a vaias, interrompeu qualquer forma de diálogo. Doroteia interveio com firmeza nos argumentos e justificativas lógicas e fundamentadas:
- Andei estudando sobre uma teoria em que o trabalhador se torna estranho ao seu trabalho, ao produto que cria a si mesmo, devido à propriedade privada e à organização capitalista do trabalho. O trabalhador perde o controle sobre o seu próprio esforço, não reconhece o fruto do seu labor como seu e sente-se estranho no processo de produção, sendo forçado a realizar tarefas repetitivas e sem significado, perdendo sua essência humana. Vocês não se sentem impotentes e desumanizados nesse trabalho alienado?
Algumas e poucas abelhas sentiram-se tão profundamente tocadas com essas reflexões que abaixaram as cabeças num misto de respeito e vergonha de si mesmas. Nunca haviam sequer imaginado a possibilidade e a capacidade para as mudanças. Mas o consenso não era geral. A esmagadora maioria se revoltou, alegando que mudar o ciclo vital da produção das abelhas e do mel até a extração era um trabalho de esforço do grupo, realizado por milhares da espécie em uma colmeia. A interrupção de caráter individualista e minoritário afetaria toda a colônia, com diminuição da polinização, descontrole na reprodução de plantas, acarretando menor produção de frutas, sementes e vegetais. Sem falar no impacto do ecossistema, na segurança alimentar, já que as abelhas não são importantes apenas à produção do mel, mas também dos subprodutos como pólen, própolis e cera.
A situação se agravou. A discussão calorosa e o burburinho geraram uma vibração desordenada nos receptores químicos e mecânicos das antenas das abelhas, desviando-as da navegação e compreensão do ambiente, chocando-se umas com as outras. Os zangões escudeiros, como forma de proteger a rainha, armaram-se de flechas com pontas de ferrão e, num ímpeto de combate à degradação da existência, à alienação da qual a jovem Doroteia desconectou-se do significado e da capacidade de sustentação de suas vidas, alvejaram-na impiedosamente. As perfurações foram certeiras. Num último suspiro antes de sucumbir, Doroteia experimentou uma sensação de destino eminente, como uma espécie de metamorfose literal: na próxima encarnação, quero nascer um SER HUMANO.
Natural do Rio de Janeiro, gaúcha de coração, gremista e artesã. Atua na escrita literária com foco em prosa curta, crônica e textos de caráter poético-reflexivo.
Participou do Curso de Formação de Escritores da Editora Metamorfose, entre julho e novembro de 2021, onde fez parte da Coletânea de Volta Aos Anos 60. Em 2022, integrou o Aperitivo Santa Sede, com Rubem Penz.
De julho a novembro de 2025, participou do Grupo Avançado de Leitura e Escrita Criativa on-line, da Editora Metamorfose, sob orientação de Ana Mello.
Conquistou o 3º lugar no Concurso Érico Veríssimo, promovido pela Academia Literária Feminina do RS, na categoria crônica. Foi semifinalista do Prêmio Literário Primavera Eterna, na categoria Fábula e Parábola, pela Editora Typus.
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