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O mistério das cinquenta figurinhas

O mistério das cinquenta figurinhas

por Elisa Lempek

O mistério das cinquenta figurinhas

Semana de abertura da Copa do Mundo, segunda-feira. Chego à escola para buscar Pedro e sou recebida com uma frase de lamentação:

— Mãe, eu não sei como, mas eu saí de casa com cento e trinta figurinhas da Copa e quando eu contei na sala de aula, só tinha oitenta. Cinquenta figurinhas sumiram!

Percebi que seus olhos procuravam nos meus alguma explicação. Coloquei a mão no ombro dele enquanto caminhávamos em direção à saída e perguntei:

— Será que tu não perdeu no caminho até a sala de aula?

— Impossível! Como eu perderia apenas cinquenta? — exclamou, balançando a cabeça.

— Pode ter caído no banco do carro?

— Não, mãe. — respondeu com a voz baixa e o olhar entristecido.

— Vamos chegar em casa e dar uma revisada por lá. Quem sabe elas ficaram esquecidas em algum lugar, depois de selecionadas por algum motivo? 

— Só se eu deixei no bolso de outro moletom, já que troquei de uniforme antes de sair — lembrou, com a voz animada pela esperança.

— Pode ser! Vamos conferir quando chegarmos. 

Chegamos em casa e iniciamos a missão de resolver o mistério das cinquenta figurinhas desaparecidas.

Pedro largou a mochila na cadeira em frente à escrivaninha e conferiu se elas poderiam ter ficado por ali. Nenhum vestígio. Revirou as almofadas do sofá, procurou embaixo da estante da televisão. Nada.

Eu fui para a área de serviço verificar nos bolsos de alguma calça à espera da lavagem. Juntos, revistamos os outros casacos e o moletom que ele havia trocado antes de sair. Não encontramos nenhuma pista.

Resignado, ele pegou o álbum e deitou no tapete da sala, seu lugar preferido para abrir os pacotinhos, descobrir as figurinhas novas para colar, separar as repetidas para bater bafo e folhear as páginas para conferir como a coleção estava ficando. O álbum estava quase completo.

Decidimos esperar o pai chegar para verificar se realmente não haviam caído no carro. Enquanto isso, fui preparar algo para comermos e ele foi tomar banho.

Quando o pai chegou, Pedro repetiu a mesma frase que havia dito pra mim ao sair da escola:

— Pai, eu saí de casa com cento e trinta figurinhas no bolso. E quando eu fui contar, só tinha oitenta. Eu não sei como, mas perdi cinquenta figurinhas!

Meu marido, com a voz calma, respondeu:

— Pedro, ontem nós trocamos cinquenta figurinhas no shopping, lembra? Tu não saiu de casa com cento e trinta. As cinquenta figurinhas não estão desaparecidas. Estão coladas no teu álbum.

— Verdade! — exclamou Pedro, lembrando da troca e rindo de si mesmo.

Nós três sorrimos e trocamos um olhar cúmplice, leve e afetuoso.

Com o mistério resolvido, nosso menino relaxou e logo mudou o foco:

— O que tem para comer?

Texto revisado por Catarina de Fátima Machado

Elisa Lempek

Elisa Lempek é gaúcha, nascida em 1983, mãe de dois, psicóloga e escritora. Na clínica, atua com psicoterapia online para adultos e casais, oferecendo um espaço de escuta sensível e acolhimento às singularidades de cada trajetória. Seu trabalho dedica atenção especial às vivências relacionadas às neurodivergências, aos vínculos e aos processos de perda e transformação. Na escrita, compartilha textos que revelam seu olhar para as sutilezas das relações familiares e as entrelinhas do cotidiano.