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O mundo já é Tlön?

O mundo já é Tlön?

por Marina Macambyra

Devo à conjunção de um espelho e de uma enciclopédia o descobrimento de Uqbar. O espelho inquietava o fundo de um corredor numa quinta da Rua Gaona, em Ramos Mejía; a enciclopédia falazmente se chama The Anglo American Cyclopaedia (New York, 1917) e é uma reimpressão literal, mas também tardia, da Encyclopaedia Britannica de 1902.

Assim começa um dos meus contos prediletos de Jorge Luis Borges, Tlon, Uqbar, Orbis Tertius, que li pela primeira vez em 1985 e achei fascinante. Reli anos mais tarde e achei mais inquietante que o espelho do fundo do corredor da tal quinta. Por falar nisso, vocês já levantaram no meio da noite e olharam no espelho da sua casa esperando encontrar o reflexo de algo que não estava no local? Talvez, mas este texto não é sobre isso.

No conto de Borges, um exemplar de uma enciclopédia pertencente a Bioy Casares contém um verbete sobre Uqbar, um país que não existe. Posteriormente, o narrador — o próprio Borges — descobre uma enciclopédia completa sobre Tlön, um planeta imaginário onde se localiza Uqbar, obra de uma sociedade secreta que se dedica a inventar um mundo. Borges, com sua fantástica imaginação e erudição, resume o conteúdo da enciclopédia, contando detalhes preciosos da história, geografia, filosofia, linguagem e geometria do planeta. Em algum momento, a obra será revista e dará origem a outra mais completa, redigida num dos idiomas de Tlön. O projeto tem o nome de Orbis Tertius.

A partir de um determinado momento, o mundo fictício começa a invadir o mundo real e objetos de Tlön são descobertos e se alastram pela realidade. Com a descoberta dos 40 volumes da Primeira Enciclopédia de Tlön, "a realidade cedeu em mais um ponto". O planeta imaginário é mais interessante para a humanidade do que o mundo real. E assim termina o conto:

O contato e o hábito de Tlön desintegraram este mundo. Encantada por seu rigor, a humanidade esquece e torna a esquecer que é um rigor de enxadristas, não de anjos. Penetrou nas escolas o (conjetural) 'idioma primitivo' de Tlön; já o ensino de sua história harmoniosa (e cheia de episódios comovedores) obliterou o que presidiu minha infância; já nas memórias um passado fictício ocupa o lugar de outro, do qual nada sabemos com certeza – nem, ao menos, que é falso. Foram reformadas a numismática, a farmacologia e a arqueologia. Acho que a biologia e a matemática aguardam também seu avatar ... Uma dispersa dinastia de solitários mudou a face do mundo. Sua tarefa prossegue. Se nossas previsões não errarem, daqui a cem anos alguém descobrirá os cem volumes da Segunda Enciclopédia de Tlön.
Então desaparecerão do planeta o inglês e o francês e o simples espanhol. O mundo será Tlön.

No ano em que li o conto pela primeira vez, pessoas ingênuas assistiam às telenovelas e agrediam atores que interpretavam os vilões. Na época da segunda leitura, já havia realidade virtual, mídias sociais e pessoas acreditando em fotos publicadas fora de seu contexto original. Hoje temos grupos de WhatsApp espalhando que vacinas causam autismo, grupos políticos sinistros ganhando eleições com base na divulgação de mentiras alucinógenas, mulheres acreditando que vão se casar com Brad Pitt, inteligência artificial generativa ao alcance de todos, criando realidades paralelas.

Antigamente, a gente dizia "vi um vídeo muito interessante". Agora, a frase mudou para "vi um vídeo muito interessante, mas não sei se é IA". A ressalva é feita, obviamente, por pessoas sem problemas mentais muito sérios e com níveis aceitáveis de acesso a informações confiáveis, enquanto as pessoas que antes confundiam atores com personagens justificam suas crenças com o argumento "vi na internet" ou "li no zap".

Opa, esperem aí. Não são apenas pessoas ignorantes, ingênuas ou meio piradas. Gente do mundo acadêmico, mestrandos ou doutorandos,  chega nas bibliotecas com uma referência inventada pela IA e não há argumento que as convença de que aquele autor não existe ou que o texto jamais foi publicado (ou escrito).

Já está cada vez mais difícil acreditar no que vemos, e vai piorar. Em breve, creio, não teremos mais imagens que poderemos chamar de autênticas, feitas por pessoas operando câmeras. Os vídeos de gatinhos criados pela IA vão parecer mais realistas, bonitos e interessantes do que os "nossos".

Não sei de onde Borges tirou a inspiração para esse conto, publicado pela primeira vez em 1940. Provavelmente de alguma corrente filosófica que minha ignorância preguiçosa desconhece ou, quem sabe, o velho erudito cego tenha simplesmente antecipado o futuro.

Talvez o mundo já seja Tlön sem que a gente tenha notado. Aguardemos o surgimento da Wikipédia Tlönica para ver o que acontece.

Marina Macambyra

Marina Macambyra, escritora iniciante, nasceu em 1961. Mora em São Paulo (SP), desde 1979. É bibliotecária formada pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, onde trabalha desde 1981. Teve um conto publicado na revista Originais Reprovados, laboratório dos alunos de Editoração da ECA/USP,  e dois em coletâneas da Metamorfose, A vida aqui não é facil (2021) e Navalha, veneno, mistério: contos policiais, de suspense e investigação (2023).

Publica, ocasionalmente, na plataforma Medium e também escreve textos acadêmicos e técnicos ligados à sua área de trabalho na Biblioteconomia. Suas histórias têm sempre elementos dos gêneros fantástico e horror, em perspectiva feminista. Aluna do curso Formação de Escritores, iniciado em 2025.

Conheça também meu blog Imagem Falada