por Thiago Lacet
Oito facadas: esse foi o resultado daquele romance. Denilson, como bom católico, sabia que não devia cobiçar a mulher do próximo. Porém, como tantos católicos, não se importou com os mandamentos divinos e não só cobiçou como se relacionou com a mulher do próximo. O adultério como motivo das facadas ele mesmo contou, só não soube dizer como o marido ficou sabendo da traição — e aqui peço desculpas porque também não gosto de fofoca mal contada.
Foi assim que Denilson foi admitido no hospital: oito facadas, sendo quatro no abdome, três no tórax e uma no pescoço. Depois de uma longa cirurgia e muitas bolsas de sangue, foi internado no CTI, onde o conheci. Chegou grave, quase morto, mas sobreviveu! Mais uma vez vemos que, no Brasil, não se mata traidor a facadas com facilidade.
Cerca de duas semanas depois da cirurgia, já em melhora, Denilson acordou. Abriu os olhos e tentou nos falar algo, mas o tubo que o ajudava a respirar não deixava. Começava ali uma batalha quase espiritual: entender Denilson pela leitura labial. Quanto mais ele mexia a boca, menos eu entendia, e mais afoito ele ficava — parecia realmente ter algo importante a falar.
— Fala devagar, abre mais a boca! — nada ajudava! Resolvi fazer perguntas diretas: "Tá doendo? Tem falta de ar? Tá com sede?". Denilson negava tudo, ficava mais nervoso e voltava a tentar falar. Chamei a enfermeira e a fisioterapeuta de plantão, uma equipe de peso, dez diplomas entre graduações e pós-graduações, mais um grande fracasso.
Denilson queria falar, se esforçava, cada sílaba era milimetricamente coordenada, gesticulava, mas aparentemente anos de "Imagem & Ação" não foram suficientes para essa tarefa. Tentamos de novo com novas perguntas: "Quer saber quando vai sair? Quer chamar sua família? Nos próximos dias pode ser que tenha alta..."; nada o conformava. Até que Denilson faz uma mímica simples, imitando alguém que pede a conta a um garçom ou, mais provavelmente, que escreve algo. Pegamos papel e caneta e, felizmente, Denilson não era médico, o que tornou fácil entender o que ele escreveu: "Avisem a ela que amo ela, que tudo valeu a pena!"
Além de contrariar o nono mandamento, agora estava claro que ele amava aquela mulher acima de todas as coisas; aumentando a sua lista de pecados. Um bom católico, afinal!
Thiago Lacet é médico intensivista e trabalha na Unidade de Terapia Intensiva do Hospital João XXIII (Belo Horizonte), um dos maiores hospitais de trauma da América Latina. É aluno do Curso de Formação de Escritores e escreve crônicas a partir de casos vivenciados no dia a dia do hospital.