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O peso leve do metal

O peso leve do metal

por Renata Bäuerle

O peso leve do metal

Já tinham se passado alguns meses desde o dia em que o mundo dela parou. A vida, aos poucos, voltava a ter uma certa normalidade, quando a ideia apareceu.

Foi em uma das tantas vezes que as amigas vieram para ocupar o silêncio e não deixá-la sozinha com a saudade. Havia risos e conversas à volta, mas seus pensamentos não estavam ali. Deslizava o dedo pela tela do celular, procurando algo que não sabia o que era, até que parou.

Enquanto tentava distrair sua mente, passou por um anúncio que já tinha visto muitas vezes, mas só naquele dia pareceu lhe dizer algo. Parecia tão delicado. A ideia era tão básica e ao mesmo tempo genial. Era simples, singelo até. Mas, com as devidas adequações, poderia ser brilhante e se encheria de significado.

A execução, porém, estava muito longe de suas habilidades ou conhecimentos. O primeiro passo era saber se o que tinha imaginado era possível. — Google? — Ela nem saberia como perguntar. Pensou na prima que trabalha justamente com aquilo. Hesitou, pois sempre tem receio de que suas ideias pareçam bobas, mas enviou uma mensagem.

A resposta veio rápida e já acompanhada de soluções para coisas nas quais ela ainda nem tinha pensado. Já estava resolvido o problema de sua alergia a metais e acompanhava uma oferta para cuidar da execução. A prima faria o desenho e mandaria para aprovação. Também já tinha os contatos para a fabricação e depois de pronto enviaria pelo correio.

Tudo resolvido! Só restava esperar. Mas o que esperava era muito mais que um simples objeto. Era como se fosse receber de volta um pedacinho do que tinha perdido. A ansiedade crescia a cada dia, como a de uma criança que espera pela noite de Natal. Imaginava como as pessoas reagiriam, como seria vê-lo pronto e qual seria a sensação ao tocá-lo pela primeira vez.

Por quase três meses era como se o toque do telefone fizesse o coração parar por uma fração de segundo. Mas foi em um dia em que chegou distraída do trabalho e já ia passando só com um rápido "boa noite" pela portaria, que o porteiro a chamou:

— Oi! Chegou encomenda para a senhora.

Uma caixinha. Leve e pequena.

Ela nunca foi de brilhos ou adereços, mas aquele metal frio, parece aquecê-la. Agora, pode carregar seu menino o tempo todo, juntinho do peito. Tem sempre com ela comprovação de que ele existe, que passou por aqui e de que é imenso. E toda vez que a dor tenta impedi-la de seguir, seus dedos procuram aquele ponto exato e ela lembra que, mesmo sem estar aqui, ele está sempre com ela.

Renata Bäuerle

Quando a realidade não é como a gente gostaria, além de ajudar a elaborar os sentimentos, escrever permite consertar as imperfeições, atingir o que não se conseguiu e viver o que não nos foi permitido.

@re_escrevinhando

Renata Burmeister Bäuerle é analista de sistemas há mais de 20 anos e atua na empresa pública de tecnologia de Porto Alegre, a Procempa. É mestre em Informática na Educação pelo IFRS e formada em Sistemas de Informação pela UniRitter. Em sua trajetória profissional, dedica-se à liderança de equipes de desenvolvimento de projetos que impactam o cotidiano das pessoas.

Na escrita encontra uma forma de elaborar e compartilhar experiências. Escreve sobre temas que a atravessam — especialmente aqueles ligados às realidades que vive e presencia.

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