por André B. Ferreira
revisado por Marina Mainardi
A tarde daquele dia ameno estava terminando, e o casal continuava sentado sobre a toalha quadriculada posta no chão. Eles observavam o garotinho de dois anos brincar com seu carrinho de plástico.
Era dia de semana e aquele parque não era exatamente o melhor da cidade. Mesmo assim, passavam pessoas caminhando ou passeando com seus cachorros. Estes farejavam cada centímetro da grama que precisava ser aparada, sentindo os odores misturados do campo e da cidade grande.
O garoto levantou e começou a puxar o carrinho ao redor da toalha. A mulher observava as unhas enquanto o homem lia um jornal, ambos distantes do que ocorria ao redor. Sem saber que, perto dali, algo furtivo e esguio se movia abaixo de uma moita.
A cobra cruzeira projetava a língua bifurcada para fora da boca, sentindo as partículas de cheiro dispersas no ar. De repente, um odor estranho chamou-lhe a atenção. Um garotinho ignorava a sua presença. O ofídio seguiu seu caminho e saiu de baixo do arbusto em direção ao piquenique.
O homem folheava o jornal e mulher usava um espelhinho para retocar o batom vermelho vivo. O menino continuava brincando ao seu redor.
A cobra sentiu um cheiro novo, distinto de tudo que conhecia. Pouco a pouco, ela, traçando um caminho sinuoso na direção do piquenique, seguindo aquele odor. Depois de alguns instantes, o menino completou a volta ao redor do casal. A cobra estava cada vez mais perto.
A mulher seguiu mirando-se no espelho, mas o homem baixou o jornal e olhou para o menino, que balbuciava alguma coisa incompreensível. Dando de ombros, ia voltar à leitura quando percebeu algo cinzento na grama próxima ao garoto. Ele baixou de vez o jornal e ficou observando a cobra, enquanto a mulher retocava o contorno dos olhos com um delineador.
O garotinho perdeu o equilíbrio, dando um passo para trás em direção ao ofídio. Os olhos do homem o acompanharam atentos. Ele estava consciente do que poderia acontecer em breve. Teve dificuldade em reprimir um sorriso.
O menino largou o carrinho no chão e se sentou na grama. A cobra parou, sentindo aquele odor estranho. O garoto se virou para o lado, percebendo o animal peçonhento que rastejava por perto. O homem observava em silêncio, sentindo-se intimamente excitado.
O menininho pareceu curioso com o animal que vinha devagar em sua direção e se virou para a cobra, preparando-se para engatinhar até ela. Um arrepio correu pela espinha do homem, que pigarreou duas vezes até a mulher prestar atenção. Ela o olhou com uma interrogação no rosto, e ele, com um meio sorriso e olhos mortiços, fez um breve gesto na direção da criança.
Ela não tardou em perceber que a cobra cruzeira e o menino iriam logo se encontrar. Olhou de volta para o homem e deixou o ar escapar em um riso reprimido. Ambos voltaram seus olhares ao garoto enquanto ele finalmente esticou o bracinho para tocar no animal.
A cobra sentia aquele odor forte, e o calor que vinha com ele. Era um calor que se aproximava por cima. A mão do menino alcançou a serpente em segundos e a envolveu em seus dedos magros. A mulher sentiu vontade de rir e olhou para o parceiro, que não perdia um segundo daquele espetáculo.
O pequeno puxou a cobra para si. O animal, surpreendido pelo toque inesperado, armou um bote e afundou as presas na carne tenra do pulso do garoto. Então aquele gosto estranho invadiu sua boca. O menino, tomado pelo susto, largou o animal. O homem e a mulher explodiram em risos. Ele chegou a bater palmas, ela enxugava a lágrima que escorreu pelo canto do olho esquerdo. O menino os encarou surpreso. Depois olhou para a cruzeira caída no chão.
A cobra sentiu aquele gosto invadir-lhe não só a boca, mas o corpo inteiro. Um ardor insuportável tomou todo o seu ser e ela se contorceu em espasmos violentos. O garoto a fitava enquanto os adultos se levantavam da toalha. Eles se aproximaram da cobra e se abaixaram, vendo-a morrer. O garotinho olhou para a ferida deixada em seu pulso. A mulher tomou-lhe mão e pensou em lamber o ferimento, mas se conteve.
O menino olhou para o animal agonizante novamente. Com uma dor insuportável, a cobra cruzeira sentia seus músculos se liquefazendo.
— Muito bem — disse o homem, levantando-se e limpando restos de grama das calças.
— O que vamos fazer agora, Belzebu? — indagou a mulher.
— Vamos para casa. O mestre precisa descansar, Leviatã.
Ela assentiu com a cabeça e tomou o menino pela mão, enquanto o homem juntava os objetos sobre a toalha. Em instantes, deixaram o parque.
A cobra ficou ali aguardando a morte que se aproximava, tomada pela dor e por aquele gosto insuportável em sua boca, seu corpo, seu âmago. O gosto do sangue do anticristo.
André B. Ferreira é escritor, revisor em formação, servidor público, licenciado em Letras, especialista em Estudos da Linguagem, terminando o Curso de Formação de Escritores, da Metamorfose. Entende que boas histórias são capazes de transformar as pessoas e o mundo ao seu redor. Escreve Fantasia Urbana para jovens leitores, misturando realismo e imaginação em jornadas sobre coragem, pertencimento e transformação. Também escreve contos que vão do humor ao terror.
Teve contos publicados em antologias do concurso Histórias de Trabalho, da Secretaria de Cultura de Porto Alegre/RS nos anos 2007 e 2012 e, em 2019, no livro Sementes, resultado do Primeiro Concurso Nacional de Contos do TRE/PR.
Atualmente, trabalha em uma nova história de fantasia urbana para publicação.