×

O ponteiro dos segundos

O ponteiro dos segundos

por Alexis Rodrigues de Almeida

O ponteiro dos segundos

Hoje acordei me sentindo diferente. Tudo parecia se arrastar. Olhei para o relógio. Eram 9:02. Se não corresse, iria me atrasar para o trabalho.

Tomei uma ducha rápida. O chuveiro estava estranho. Demorou a sair água e quando finalmente começou a funcionar, os pingos estavam muito esparsos. 

Tentei fazer o café, mas a cafeteira não quis ligar. Aliás, depois de muito tempo ela até ligou, mas não dispensou o café.

Olhei para o relógio. Estava parado. Com receio de me atrasar, decidi sair logo e comer qualquer coisa no caminho para o trabalho.

O dia definitivamente não começou bem. O elevador também não queria funcionar. Apertei o botão e esperei uma eternidade. Desisti e resolvi descer pelas escadas. "Doze andares. Ufa!".

O porteiro parecia um espantalho, de tão parado que estava. Devia estar de mau humor pois nem sequer me olhou.

Ao sair na rua, parei de repente. Minha mente não queria processar o que os olhos captavam. Aquilo que em princípio parecia ser apenas um grande congestionamento, logo mostrou-se mais grave. Algo inexplicável. 

Tudo estava parado, como se o mundo fosse uma grande fotografia. Toquei na tela do celular, mas ele não respondeu. O relógio no poste em frente também estava parado. 

O jeito era ir a pé mesmo. Apesar de ser ainda cedo, não seria fácil caminhar sob aquele sol que parecia beliscar cada pedaço de pele desprotegido. 

Quando finalmente cheguei em frente ao edifício onde trabalhava, olhei o relógio mais uma vez. Não, ele não estava parado. Havia passado um minuto desde que me acordei. Lembro bem. Eram 9:02 e agora o relógio marcava 9:03.

Isso era impossível, pensei. Em apenas um minuto eu tomei banho, me troquei, desci doze andares de escada e cheguei a pé em meu trabalho, que ficava três ou quatro quilômetros distante. Normalmente eu gastaria pelo menos uma hora pra fazer tudo isso.

Cheguei antes da hora. Isso era bom. Tinha tempo para entrar na cafeteria em frente e aliviar o buraco no meu estômago. Além, é  claro, de poder revê-la, mesmo que por um rápido momento. 

Ao entrar, me deparei com mais uma cena bizarra. O lugar estava cheio, mas as pessoas pareciam congeladas.

Sentei-me no primeiro assento livre que encontrei e fiquei observando enquanto aguardava o atendimento.

Ninguém parecia me enxergar. Pensei estar invisível. Ao observar atentamente a moça do balcão que normalmente era muito agitada e rápida no atendimento, percebi que ela estava se movendo lentamente. Parecia um vídeo em super slow motion onde cada quadro durava um segundo.

Fiquei olhando para o mostrador do relógio. Passaram-se uns quinze segundos quando finalmente ela olhou em minha direção. A impressão que tive era que já havia passado pelo menos quinze minutos. Os lábios dela começaram a se mover como se quisessem dizer alguma coisa, mas não saía som algum.

A angústia estava tomando conta de mim. Olhei novamente para a moça. Agora tinha certeza que ela me vira e estava com um sorriso congelado no rosto.

A angústia se transformou em desespero. 

A moça agora estava acenando para mim. Ou pelo menos é o que parecia, como se eu estivesse olhando para uma fotografia em que alguém faz um gesto de aceno.

Havia passado uns trinta segundos desde que entrei na lanchonete. O mostrador de segundos do relógio agora tinha assumido uma grande importância. 

Fiz um teste. Fui até o balcão e voltei à mesa. Andei normalmente, sem pressa. Ao retornar, o contador de segundos ainda estava mostrando o mesmo número. 

Tentei fazer uma correlação entre meu tempo e o do resto do mundo. Aparentemente, cada segundo do relógio parecia durar cerca de um minuto para mim.

Comecei a imaginar as consequências dessa situação. 

Fiquei ansioso ao calcular que oito horas de sono da cidade seriam para mim equivalentes a vinte dias. Uma eternidade. 

Levantei a mão e gritei, chamando a moça, que se chamava Carol, mas foi inútil. Nem ela, nem mais ninguém parecia me escutar. 

Estava até pensando em chamá-la pra sair.  Ela era muito animada e sempre me recebia com um sorriso que me prendia ali por mais tempo do que podia ficar.

Os cabelos cacheados estavam presos, parcialmente escondidos sob um boné azul com o logotipo da loja.

Agora ela estava olhando para outro lado,  onde se encontrava um homem barbudo que parecia apontar para algum lugar na prateleira.

Ontem mesmo ela deixou escapar que aceitaria um convite para um cinema. Eu nem tenho ideia de que tipo de filme ela gosta. 

Mas o verdadeiro problema era outro.

O tempo do filme poderia durar cerca de cinco dias. Durante esse tempo eu precisaria dormir várias vezes e me alimentar pelo menos outras quinze vezes. 

Eu era o ponteiro dos segundos, ela, o ponteiro dos minutos. 

Entreguei-me por um bom tempo à difícil tarefa de achar uma solução para aquele problema. 

Na fotografia viva de Carol, ela agora estava ao meu lado.  Lançou seu sorriso em minha direção. 

Tentei pronunciar algumas palavras, apenas movimentando os lábios tão lentamente quanto me foi possível. 

Pretendia dizer um "bom dia" pra ela. Teria que esperar alguns minutos até ver se ela compreenderia. 

Também precisaria me manter o mais estático possível. Imaginei que qualquer gesto meu, em minha velocidade,  poderia causar um efeito muito estranho para quem estivesse me observando, como se fosse um streaming numa Internet lenta. Dando aqueles saltinhos desagradáveis.

Ah! Finalmente ela começou a me responder.

Sim! Juntou os lábios para formar uma consoante oclusiva.  Certamente era um B seguido de um O.

Aquilo foi incrível. Enxerguei um fio de esperança. Mas o fio logo arrebentou.

Esperei cerca de um minuto até confirmar que ela respondeu meu cumprimento. 

Meu Deus! Um minuto inteiro para um simples "bom dia".

Depois de uma conversa de cinco minutos já teria passado a hora do meu almoço. 

Senti o estômago se contorcendo.  Não tinha comido nada desde que acordei. 

Carol agora estava de costas pra mim. Caminhava de volta ao balcão. Aproveitei e fui ao banheiro. Cinco segundos, confirmei no relógio ao retornar à mesa.

Precisava comer algo.  Fui até à área reservada da lanchonete,  peguei uma fatia de bolo e um café.

Dez segundos se passaram e eu já havia comido tudo. Vi a fotografia de Carol olhando pra mim com cara de espanto. 

Era impossível continuar. 

Tirei o relógio do pulso e o coloquei sobre a mesa.

Em seguida saí da cafeteria em busca de respostas. Imaginei que ficaria algum tempo sem voltar. Para Carol, seria apenas um ou dois dias, mas pra mim, era o fim. Pelo menos daquilo que eu entendia ser uma vida normal.

Alexis Rodrigues de Almeida

Alexis Rodrigues de Almeida é escritor apaixonado por grandes clássicos da literatura. Autor de alguns contos publicados em coletâneas, explora temas como relações familiares, dilemas éticos, sempre buscando contar uma boa história, que traga reflexão para os leitores de uma forma prazerosa. Participou de diversas coletâneas de contos, e atualmente dedica-se a escrever sua primeira narrativa longa.