por Rafael Cancellier
Nega maluca. Foi minha sobremesa preferida durante toda a infância. Mas minha mãe só assava nos aniversários. Eu não gostava muito de fazer aniversário, mas gostava de nega maluca. Casca crocante, quase um chocolate fino, e massa macia de Nescau.
Devo ser a única pessoa que não gosta de aniversário. É a única data em que estamos liberados para comer doces e ainda ganhamos presentes dos outros! Como não gostar? Só que no meu caso, eu ganhava roupas. Era o que Dona Márcia pedia às mães de meus amiguinhos. E eles, não sei se por sacanagem, me davam meias. Oras, eu já tinha meias! Não precisava de novas!
Já meus amiguinhos, ganhavam bonecos e jogos de tabuleiro. Eu mesmo dava brinquedos para eles em suas festinhas! E eles me davam meia. Cada pacote que eu abria era um naco de esperança que ia embora. Será que a nega maluca valia toda essa frustração?
Num aniversário, me rebelei e disse que não queria festinha. "Chega de meia e bolo de graça pra essa galera". Mas não teve jeito: enquanto eu morasse ali, teria festinha e teria roupa de presente. Pelo menos ainda tinha nega maluca.
Até hoje, para mim aniversário significa bolo de chocolate e meia. Agora que sou adulto, tenho ainda mais medo de ganhar roupas. Roupas de adulto, como luvas ou bonés. "Vi esse boné e, considerando sua calvície, achei que ficaria ótimo!". Prefiro comemorar sozinho e ficar com toda a nega maluca.
Engenheiro, servidor público e curitibano radicado em Brasília. Nada disso me define. O olhar aguçado e irônico? Pode ser. Acredito no poder da literatura para mudar a realidade. E no da Ficção Científica para imaginar futuros possíveis não distópicos. Participo do Curso Online de Formação de Escritores.