por Raquel Machado Pivetta
Ela estava na fila do caixa quando se virou discretamente. Olhou para o relógio. A fila não andava. Mexeu no celular. "Não deve ser ele", pensou. Mas aquele som era inconfundível. Reconheceu a voz dele em uma conversa sobre o glorioso gol de pênalti do Botafogo.
Ela olhou novamente para o relógio e suspirou. Enfim, chegou sua vez.
— A senhora vai querer sacola?
— Não, obrigada.
Passou o cartão na maquininha. Digitou a senha.
— Senha inválida.
Digitou novamente. Tirou o casaco e o enfiou na bolsa.
— CPF na nota?
— Não precisa.
Saiu sem olhar para trás. A carteira escorregou de suas mãos. Abaixou-se para apanhá-la e, ao se recompor, sentiu alguém tocar em seu ombro. Era ele. Mais velho, com barba por fazer e um jeito diferente: cabelos à altura dos ombros, jogados para trás das orelhas. Brincos. Mas o mesmo cheiro.
Ele a olhou fixamente:
— Oi, Laura, quanto tempo!
— Oi, quase não te reconheci — disse ela, esboçando um sorriso.
Por um momento, entreolharam-se. Ela observou as próprias mãos. Voltou-se para a rua. A chuva insistia.
— Está a pé? — perguntou ele.
— Não, quer dizer, sim.
— Posso te levar? Ainda está no mesmo endereço? Voltou pra ficar?
— Estou? mas é chuva grossa, passa rápido.
— É, tudo passa?
— Olha lá, já está diminuindo — interrompeu.
Ele observou as gotículas que se prendiam umas às outras no vidro, resistindo à queda. De repente, tornou a encará-la:
— Não quer mesmo que eu te leve?
Ela ficou em silêncio, o olhar pousado nos ombros largos dele.
— Você continua demorando para dizer não.
"O tempo corre a meu favor", pensou ela.
Ele respirou fundo e permaneceu em silêncio por um instante, esperando. Mas as palavras dela não vieram.
— Como você tem passado?
— Eu não podia estar melhor.
Ele segurou sua mão. Beijou-a na testa. Ela fechou os olhos e não soltou a mão dele.
— Fique bem.
— Eu já disse que estou ótima.
— E essa lágrima?
— Não é nada.
— Aquele brinco? você ainda usa?
— Caiu a pedra.
— Você gostava tanto dele.
— Cheguei a mandar consertar, mas não ficou como era. Então me desfiz dele.
— Quem sabe seja hora de te dar outro.
Ela olhou para fora.
Abriu a bolsa, pegou o guarda-chuva. Acomodou os pães contra o peito e atravessou a porta.
Ele ainda chamou seu nome.
Laura não disse mais nada. Seguiu sob o guarda-chuva, sem se virar.
Apaixonada pela língua portuguesa, Raquel Pivetta se especializou em Revisão de Textos e fundou o site Viva Gramática, onde compartilha crônicas que lançam um olhar sensível e bem-humorado sobre as situações e contradições do cotidiano. Analista de Sistemas por formação, encontrou na escrita um espaço para explorar, com humor e ironia, diferentes temas da vida. Em 2025, publicou seu primeiro livro: Crônicas agudas, café sem açúcar e outras ironias, uma coletânea de textos descontraídos, autênticos e mordazes, que passeiam por temas universais, como as relações familiares, o mundo do trabalho, a língua portuguesa e os dilemas da vida contemporânea.