×

O relógio da cozinha

O relógio da cozinha

por Ana Cristina Sampaio Alves

O relógio da cozinha

O apartamento estava desabitado há um ano. Abrimos a porta imaginando o trabalho que teríamos a seguir. Minha irmã não havia feito muitos progressos na tarefa de se desfazer das coisas de papai. Era daquelas que sempre via uma utilidade em cacarecos. Tinha a quem puxar. Minha missão era dar cabo da empreitada a qualquer custo.

Comecei pelo escritório. Minha irmã me guiava pelo material com o qual já havia tomado contato, mas não sabia que destino dar.

-- Esses são os projetos da Novasampaulo --, disse, me apontando uma pilha de documentos com inúmeras cópias. Papai orgulhava-se de ter sido premiado, na década de 70, por esse projeto de uma nova capital para o estado de São Paulo. Sem interesses políticos ou econômicos que o viabilizassem, foi uma de suas grandes frustrações na vida.

-- Vamos pôr no saco grande de lixo --, sugeri decidida. Minha irmã tentou argumentar:

-- Mas será que a Universidade não se interessa em arquivar, ou a Federação que deu o prêmio?

-- Se em 50 anos ninguém se interessou... – repliquei, enchendo três sacos gigantes de lixo. O mesmo aconteceu com a papelada de um plano para construir a linha de transmissão da Usina Hidrelétrica do Guri, na Venezuela, até Boa Vista, capital de Roraima. Papai havia passado os últimos 15 anos de vida em brigas intermináveis na Justiça pela controversa autoria do projeto, que acabou sendo executado sem a sua participação na década de 90.

Os documentos seguintes eram sobre a construção de um túnel submerso ligando Santos a Guarujá, no litoral paulista. Algo como o Eurotúnel, que liga a França à Inglaterra em 50 km pelo Canal da Mancha. E pensar que o túnel de papai teria apenas 400 metros. Que desperdício, pensei.

Nos deparamos então com o projeto da "casa autógena" que ele havia construído em nossa chácara. Por vários anos, passamos os finais de semana tomando sol e avistando estrelas cadentes na laje. A casa deveria ser alimentada pela energia eólica de um catavento, o biogás dos dejetos das galinhas e a energia fotovoltaica das placas solares no teto. Na prática, até ser instalada a iluminação pública, a única luz que tínhamos era mesmo a das velas.

-- Lembra que o catavento nunca girou? – disse minha irmã folheando o documento.

Os sacos pretos foram se amontoando sob o olhar baixo da minha irmã. Agora era a coleção de artigos de jornais cuidadosamente recortados e colados em papeis A4, como um clipping de notícias que continha invenções, descobertas, prêmios científicos. Depois, umas 50 cadernetas de telefones, exames médicos variados, mapas, desenhos, anotações. Tudo devidamente ensacado e carregado para a lixeira do edifício, que começava a transbordar.

Terminado o escritório, o resto foi fácil. Os móveis, as TVs e os computadores foram levados por uma instituição de caridade, os pequenos utensílios entregues à antiga diarista, as poucas roupas já haviam sido doadas. Ao final do dia, o apartamento estava finalmente vazio. Cansada, mas com o sentimento de dever cumprido, fechei a porta carregando o único objeto que considerei verdadeiramente útil na casa de papai: o relógio que há doze anos está na minha cozinha.

Ana Cristina Sampaio Alves

Ana Cristina Sampaio Alves escreve desde a infância. Ainda criança, já se considerava uma novelista, mesmo que as histórias fossem um misto de contos de fadas com personagens reais. Escolheu o jornalismo como profissão, o qual a permitiu transitar por todo tipo de texto, desde os mais técnicos até os mais criativos, em diversos segmentos de mídias. Continua explorando a escrita e agora se aventura na literária, tendo publicado alguns contos e dezenas de crônicas. Esse é o gênero em que melhor transita. 

Embora não tenha ainda publicado narrativas longas, já participou da edição de coletâneas de contos. Segue buscando aprimorar o texto que emociona e traz reflexão. Participa do Curso Online de Formação de Escritores.