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O Resgate

O Resgate

por Raquel Klein

O Resgate

O RESGATE - Raquel Klein

O farfalhar das folhas denunciava a presença de Taibú. O sol era escaldante nesse dia, a vegetação já não era tão verde como de costume e para ele, encontrar algo para comer era a cada dia mais difícil. Apesar disso, continuou em passos lentos sua aventura por aquela mata. Subiu, desceu árvores, fuçou terras e buracos, mas pouco encontrou para se alimentar. Passado mais um dia, lá estava Taibú removendo o solo, tentando achar algum bichinho peçonhento, quando, de repente, ouviu um barulho e viu que algo se movia muito rápido em sua direção. Com o coração batendo como um tambor, se meteu no primeiro buraco que encontrou. De lá ficou espiando. De supetão, um gato do mato passou como vulto. Ofegante, continuou espreitando em seu esconderijo. Após um tempo, saiu de mansinho, caminhando ao lado de um tronco caído. E mais uma vez tomou um enorme susto: desta vez era uma raposa que surgiu do nada e pulou por cima daquele tronco, seguindo em disparada. Taibú caiu sobre suas costas, de pernas para cima. Com a boca entreaberta, ficou ali completamente catatônico. Mas era só uma raposa! Mesmo assim ficou imóvel por um bom tempo. Só quando voltou a si viu que não estava em perigo. No entanto, um cheiro forte e sufocante chamou sua atenção. Taibú levantou seu focinho, fungou forte, tentando achar a origem daquele cheiro. Foi então que começou a acelerar seus passos. O ar era quente naquele anoitecer. As horas se passaram, e naquele breu noturno viu uma labareda dançando entre as árvores e arbustos num esplendor único. Seus olhos redondos e pretos seguiam-na deslumbrados com toda aquela beleza avassaladora que se aproximava como se quisesse tocá-lo. Foi o estalar da madeira queimando que lhe despertou. Taibú sacudiu a cabeça, tentando se desvencilhar daquela magia. Encurralado, não sabia para onde ir. Olhou para uma das árvores ao seu redor e a escalou. Lá do alto sentiu um vento leve e quente vindo do este e dali pôde ver o nascer do sol apontando no horizonte, onde, finalmente, poderia estar seguro. Ao voltar seu olhar para o entorno, viu - não muito longe dali - o gato-do-mato que ficara preso numa cerca. Ele tentava se libertar, mas quando olhou para a labareda, ficou hipnotizado com sua beleza. Pouco a pouco ela foi se aproximando, tocando-lhe a face e tomando lhe todo o corpo para si. O dia amanheceu com céu alaranjado, envolto de uma névoa cinza. No horizonte surgiu uma caminhonete atravessando lentamente a estrada, levantando a poeira que espalhava pelo ar. Da janela, os tripulantes iam observando com binóculos o estado daquele lugar, quando avistaram, na beirada da estrada, uma raposa caída. Ela uivava um choro dolorido, suas patas estavam em carne viva, e sua pelugem era suja das cinzas que sobrara daquela mata. Horas antes ela correu muito para escapar das chamas que avançavam a mata adentro. Mas o fogo, ágil como guepardo a 100 km por hora, chegou a alcançá-la. Para sua vantagem, a estrada estava próxima. Era só mais um pouquinho. Ela respirou fundo, tomou o restinho de força que lhe sobrou e disparou rumo à salvação. Deu seu último salto do outro lado daquela estrada larga e lá ficou caída. Enquanto era resgatada, um outro socorrista caminhou adiante, olhou em volta e gritou: – Aqui tem um outro animal! Mas esse não teve a sorte da raposa. E parece ser um gato-do-mato que, infelizmente, ficou preso na cerca. – Deixa eu ver... Minha nossa! Ele tava perto de se salvar... Vamos continuar buscando, aqui tem muitos animais que poderão ser salvos. Foi quando dois socorristas adentraram aquele cemitério florestal e entre os restos de árvores queimadas avistaram algumas palmeiras, embora algumas folhas estivessem queimadas, elas estavam praticamente intactas. Somente, no topo é que algum animal poderia se refugiar. Rapidamente um dos socorristas chamou seu líder por rádio. – Aqui tem algumas palmeiras resistentes ao fogo e ouço algo lá de cima. Precisamos de ajuda aqui. Tragam escada, água e bolsa de primeiros socorros. Enquanto um dos socorristas ficou com a raposa, os outros pegaram o que precisavam e correram para lá. Posicionaram a escada e subiram na palmeira. Só quando o resgate chegou é que Taibú se permitiu fechar os olhos. – Vamos... Ele está esgotado, precisamos reagir rápido, senão o perdemos. Rapidamente, o levaram para a caminhonete, colocaram a máscara de ar em seu focinho e aguardaram, mas ele não respondia. – Vamos, menino, você consegue! Não desista agora! O socorrista continuava conversando e massageando seu pequeno tórax. Até que Taibú, finalmente, reagiu abrindo lentamente os pequenos olhos negros para seu salvador.

Raquel Klein
Raquel Klein
Guarulhos/SP

Raquel Klein

Escritora, revisora em formação, Raquel Klein possui um percurso multifacetado que fundamenta a sua prática criativa. Estudou Filologia Romana na Universidade de Munique (2015-2019), aprofundando o seu entendimento sobre a estrutura da linguagem e as narrativas clássicas. Posteriormente, certificou-se em práticas holísticas, como Reiki (2020) e Constelação Sistémica e Familiar (2021-2022), vivências que trouxeram uma perspetiva singular sobre as dinâmicas humanas e as relações complexas para a sua escrita.

No panorama literário, publicou dois contos (O Resgate e As duas faces de um Homem) ambas em coletâneas pela Editora Metamorfose. Atualmente, dedica-se ao desenvolvimento de três novos projetos literários que serão lançados em breve.
 

A sua missão é dar voz a histórias que merecem ser contadas, explorando os diferentes matizes da experiência humana através da literatura, da arte e da busca constante pelo autoconhecimento.