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O Sino de Sogni

O Sino de Sogni

por Alexis Rodrigues de Almeida

O Sino de Sogni

Empolgado com todo o mistério envolvendo o post em sua rede social, Marcelo chegou a Sogni no sábado à tarde orientado apenas pelo mapa que fazia parte do anúncio.

Duas colunas de pedra, cada uma com pelo menos quatro metros de altura e quase um metro de largura, marcavam a entrada do vilarejo.

Após alguns segundos de hesitação, decidiu entrar na cidade.

Ao passar pelas colunas, avistou um grupo de crianças que vinham cantando e dançando. Elas o saudaram com um sorriso acolhedor. Uma delas indicou a direção do hotel que ficava ali mesmo na rua principal, onde ocorriam as festividades. A rua iniciava no portal e acabava uma centena de metros à frente, onde se encontrava uma igreja com uma torre de campanário central.

A fachada do hotel seguia a arquitetura do restante da cidade. Eram todas construções que lembravam uma pequena vila de interior. 

Trazia apenas uma mala de bordo suficiente para armazenar seus pertences bem como a fantasia, que era obrigatória para o evento. 

A recepção do hotel era singela e muito bem cuidada. A moça atrás do balcão estava vestida de princesa.

— Boa tarde, senhor Marcelo, é um prazer recebê-lo em nossa querida Sogni — saudou-o, mostrando um largo sorriso.

O rapazinho, quase um adolescente, encarregado de levar a mala até o quarto, mostrou-se mais reservado e visivelmente nervoso, buscando aprovação no olhar da recepcionista para cada um dos seus gestos. O lugar estava muito movimentado. Nos poucos instantes em que ficaram a sós, o garoto falou baixinho, olhando para os lados e quase sussurrando:

— O senhor não deveria estar aqui. Vá embora enquanto pode.

Sem esperar resposta, virou-se e saiu correndo dentro de sua fantasia de Peter Pan, deixando a mala na porta do apartamento e um ar de dúvidas na cabeça do hóspede.

Será que aquilo tudo fazia parte da festa? Ficou rindo sozinho enquanto admirava o movimento pela janela do quarto. A agitação tomava conta de toda a rua. Aquela noite seria inesquecível, sem dúvida. 

Olhou para o celular e notou a falta de sinal. Ao anoitecer, viu a lua cheia iluminando toda a cidade. O céu estava limpo e uma corrente de ar quente entrava pela janela. Marcelo saiu do hotel e se misturou às pessoas no meio da rua, passeando entre as muitas barracas de comida posicionadas nas calçadas e na pracinha. Artistas de rua faziam apresentações das mais diversas numa atmosfera mágica.

Andou de uma barraca para outra, experimentando diferentes comidas e bebidas de sabores únicos. Por um momento sentiu-se embriagado, embora não tivesse ingerido nenhuma bebida alcoólica. Esfregou os olhos e a visão voltou ao normal. Continuou andando entre as pessoas, admirando os artistas, a música e a alegria crescente. Novamente a cabeça girou. Pessoas o sustentaram e o deitaram no chão.

Quando abriu os olhos, tudo havia mudado. A rua estava deserta. Ao tentar se levantar, ouviu uma voz atrás de si. Ou seria embaixo? 

— Ei, vê se não apoia o cotovelo em mim. Dói muito, sabia?

Marcelo pôs-se em pé num sobressalto. Horrorizado, constatou que a voz vinha do banco da praça onde estivera deitado.

— Como assim! — exclamou, arregalando os olhos.

— Ora, como assim. GUARDAS! — gritou o banco de praça numa voz gasguita.

Dois dobermans se aproximaram, vindos das sombras, que agora dominavam toda a rua. O céu estava coberto por nuvens escuras e a única iluminação vinha de um poste acima do banco.

— O que está acontecendo aqui? — Perguntou um dos cães.

Marcelo olhou ainda mais horrorizado para o canzarrão falante à sua frente.

— Esse estranho me atacou com seu cotovelo ossudo — acusou o banco de praça.

— Mas... mas... — gaguejou Marcelo, sem conseguir construir um argumento plausível.

— Vamos levá-lo à delegacia para interrogatório — emendou o segundo cão em meio a um rosnado de ameaça, — ele vai falar tudo. Eles sempre acabam falando tudo. Venha conosco, estranho.

Vendo-se sem alternativa e ansiando por explicações, Marcelo acompanhou um dos cães, enquanto o outro seguia atrás dele, rosnando e mostrando as presas afiadas.

Ao chegar à delegacia, Marcelo suspirou aliviado. O delegado era humano.

— Ah, graças a Deus! É muito bom encontrar o senhor aqui.

— Eu estou sempre aqui, o novato na cidade é o senhor. E eu já estou sabendo de tudo. O senhor veio só arranjar confusão em nossa graciosa vila. Uma noite na cadeia vai fazê-lo se acalmar e refletir sobre seus atos.

— Mas eu não fiz nada!

— Não foi isso que o Banco de Praça nos disse.

Marcelo olhou para os lados. Eles eram os únicos presentes ali. Os cães estavam calados desde sua chegada à delegacia. Como o delegado poderia saber da ocorrência na praça?

— Senhor, deixe-me explicar tudo — suplicou Marcelo.

— O senhor vai poder explicar tudo pela manhã, se tiver oportunidade, — falou o delegado soltando uma gargalhada desproporcional à situação.

Os cães também riam estrepitosamente, alternando gargalhadas e uivos. Marcelo foi posto numa cela no fundo da delegacia.

— O senhor ficará aí pensando no que fez. Logo o juiz chegará e decidirá o seu destino. Não devia ter vindo perturbar nossa pacata cidade. Agora vai aprender a lição.

Marcelo se acomodou no chão da cela. Teve receio de deitar-se na estreita cama grudada na parede. Ficou ali cerca de meia hora. Pegou mais uma vez o celular, que continuava sem sinal. Eram duas horas da madrugada. De repente ouviu vozes que vinham da sala do delegado.

— Ilustríssimo juiz, eu imploro, o senhor deve puni-lo. Ele é um arruaceiro. Atacou nosso querido Banco de Praça sem mais nem menos.

— É sempre a mesma coisa. O senhor me tira da cama para eu vir aqui julgar um estranho qualquer.

— Senhor juiz, seja positivo. Nossa bela cidade ganhará um novo morador. Ele poderia iluminar a pracinha. Ela anda tão escura ultimamente...

— Está bem, está bem, senhor delegado. Pare de choramingar. Mas não vou fazer sua vontade em tudo. De forma alguma. Anote aí minha sentença: como juiz da grandiosa cidade de Sogni, blá, blá, blá, declaro o forasteiro culpado do crime de importunação. Ao amanhecer, deverá ser transformado em sino de igreja. A igreja precisa de um sino, não acha, delegado?

— Claro, meritíssimo. O senhor sempre toma decisões muito sábias.

Os dois soltaram gargalhadas.

De sua cela, Marcelo acompanhava aquele diálogo impensável. Pelo lado racional, era um completo absurdo jurídico. Um julgamento sem a presença do réu, sem testemunhas, sem defesa. Mas tudo aquilo perdia o sentido ao se tratar da sentença proferida: ser transformado num sino de igreja. Onde veio se meter? 

Encontrava-se em meio a esses pensamentos quando ouviu alguém chamando seu nome.

— Senhor Marcelo, psiu, aqui em cima — o rapaz do hotel mostrou o rosto pela pequena janela gradeada na parede externa da cela. — Não se preocupe, vou tirá-lo daí.

Alguns minutos depois o garoto entrou apressado na delegacia.

— Venha rápido. Eu disse para o delegado que havia uma emergência no hotel. Mas ele não vai demorar a voltar.

O menino abriu a cela com uma chave que tirou do bolso.

— Muito obrigado, meu amigo.

— Temos pouco tempo. Precisa sair daqui o mais rápido possível. 

— Você precisa vir comigo, garoto. Esse lugar é muito perigoso.

— Não posso. Toda a minha família está aqui.

— Eles poderiam vir com a gente.

— Impossível — falou o garoto enquanto olhava em volta, mirando alguns postes e árvores.

Marcelo compreendeu imediatamente. Depois de abraçar o garoto, saiu correndo em direção ao seu carro.

Havia dado somente alguns passos quando sentiu os pés pesados como se estivessem se fundindo ao asfalto. Sua pele parecia esticar e se tornar metálica. Parecia captar todas as vibrações ao redor. Num piscar de olhos um intenso clarão iluminou toda a cidade. Olhando para trás ainda viu o menino acenando. Depois tudo se apagou.

Quando acordou, já era dia e ele se sentia pesado. Tentou se movimentar, mas sentiu como se estivesse suspenso, preso pelo topo da cabeça.

Atônito, viu o menino lá embaixo, no que parecia ser o pátio da igreja. 

O garoto sorriu meio sem graça e acenou para ele. Depois baixou a cabeça, deu as costas e saiu em direção ao hotel.

Marcelo sentiu um golpe seco no peito. O sino de Sogni badalava pela primeira vez. Era o seu grito ecoando pela cidade.        

Alexis Rodrigues de Almeida

Alexis Rodrigues de Almeida é escritor apaixonado por grandes clássicos da literatura. Autor de alguns contos publicados em coletâneas, explora temas como relações familiares, dilemas éticos, sempre buscando contar uma boa história, que traga reflexão para os leitores de uma forma prazerosa. Participou de diversas coletâneas de contos, e atualmente dedica-se a escrever sua primeira narrativa longa.