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O sono da razão em Umberto Eco: como a confusão entre ficção e realidade alimenta o negacionismo

O sono da razão em Umberto Eco: como a confusão entre ficção e realidade alimenta o negacionismo

por Antonio Lima Jr.

A falta de percepção das fronteiras entre realidade e ficção pode estar relacionada ao negacionismo e pensamento negacionista. Em um capítulo do livro "Seis passeios pelos bosques da ficção", Umberto Eco fala sobre a confusão entre realidade e ficção. Entenda o perigo e as consequências desse tipo de pensamento.

Confundir ficção e vida, leitor e história pode ter resultados sombrios. Umberto Eco diz que entre ficção e vida, entre leitor e história, existem complexas relações. Ele discute a questão no texto do livro. Em breve síntese, há circunstâncias em que as pessoas podem ler ficção como se fosse a própria vida (e vice-versa). Os resultados do equívoco daí decorrente nem sempre são agradáveis ou inocentes, como seria de esperar da leitura de textos de ficção – podem mesmo ser assustadores.

Os sinais que distinguem o texto de ficção nem sempre são visíveis ou identificados pelos leitores. Os textos de ficção em geral contêm sinais que indicam a sua artificialidade: trata-se do paratexto, "mensagens externas que rodeiam o texto", como é o caso da palavra "romance" na capa do livro, ou de uma fórmula introdutória do tipo "era uma vez" etc. Porém, nem sempre os leitores identificam esses sinais ficcionais, ou eles podem não ser muito evidentes ou suficientes. Eco cita o episódio de pânico ligado a um programa radiofônico em que Orson Welles narrava uma invasão de marcianos. Muitos projetaram o conteúdo do programa no mundo real.

Logo, nem sempre a narrativa artificial é identificável por todos e "não existe um sinal incontestável de ficcionalidade". É possível que alguém passe tanto tempo no mundo de um romance que venha a misturar elementos ficcionais à realidade. E há quem passe a acreditar até mesmo na existência real de determinadas personagens – é o caso das visitas e romarias a endereços em que certas personagens supostamente teriam vivido.

Outro aspecto abordado por Eco é a percepção individual e a reconstrução do passado. O relacionamento perceptual com o mundo se dá em razão de "aceitarmos como verdadeira uma história que nossos ancestrais nos transmitiram". As memórias individual e coletiva se combinam. Como num jogo, a ficção permite o uso de nossas faculdades, possibilitando perceber o mundo e reconstituir o passado.

No livro se fala sobre as narrativas caluniosas e difamatórias, e teorias da conspiração. O problema ocorre quando são construídas narrativas com fins caluniosos e difamatórios, ou para promover conspirações. Umberto Eco relata o caso de panfletos anticlericais do século XIX, que posteriormente foram adaptados, plagiados e transformados, sucessivamente.

Era o começo de uma trama constituída de adaptações e reescritas ao longo de décadas, resultando em textos convincentes o bastante para serem levados a sério por muita gente, embora fossem pura ficção. Em dado momento, um texto derivado desse enredo foi tomado como fundamento e caiu nas mãos de Hitler, o que influenciaria ideias, crenças e uma política de perseguição implacável contra determinados grupos, durante a Segunda Guerra Mundial.

Nem todos ignoram a falsidade das narrativas, mas há quem queira viver ficções obscuras. Decerto houve quem percebesse que tais escritos eram ficcionais. Porém, Umberto Eco comenta: "provas não bastam para aqueles que querem viver num romance de horror". Diante disso, percebe-se a importância de "entender os mecanismos pelos quais a ficção é capaz de moldar a vida", dada a possibilidade de intrusão da ficção na realidade vivida.

Considerando os aspectos abordados anteriormente, é mais fácil entender de que modo a não distinção dos limites entre ficção e realidade está relacionada ao negacionismo e às teorias da conspiração. É oportuno registrar a semelhança entre o relato de Umberto Eco e acontecimentos atuais, que remetem a essas teorias e negacionismos de diversos tipos.

Muitas pessoas não distinguem ficção e realidade: não importam as evidências e continuarão a nutrir os absurdos em que acreditam. Por outro lado, os artífices de textos com intenções sombrias não descansam e investem naqueles que se informam exclusivamente em bolhas, comunidades isoladas, constituindo ambientes em que apenas se reforçam as próprias crenças, rechaçando-se todas as evidências contrárias às ideologias do grupo. Tal dedução não se origina do texto de Umberto Eco, mas da comparação entre esse e a realidade atual que conhecemos no Brasil e no mundo.

Relembrando o que Umberto Eco diz, "provas não bastam para aqueles que querem viver num romance de horror". Assim, não é difícil entender como muitos passam a acreditar e a viver em universos ficcionais sombrios, por vezes bem urdidos, tornando-se incapazes de diferenciar ficção e realidade. Entretanto, na atualidade, muitos textos são produzidos sem que os autores se deem ao trabalho de refinamento e mesmo assim encontram eco junto ao público desatento.

Trata-se do que Umberto Eco chamou de o "sono da razão que gera monstros". E não estamos livres de reviver tragédias do passado alimentadas por mentes confusas que habitam pesadelos. Daí a importância de entender os mecanismos que explicam a confusão entre realidade e ficção e a possível relação dessa com o negacionismo e os malefícios derivados dele.

 

Mais sobre a negação da ciência e o pensamento negacionista: resenha do livro "Contra a realidade: a negação da ciência, suas causas e consequências" em https://www.plataformadeescritores.com.br/_hotsites/antonio-lima-jr/textos/contra-a-realidade-a-negacao-da-ciencia-suas-causas-e-consequencias-6038/

Referência ECO, U. Seis passeios pelos bosques da ficção, capítulo 6. Companhia das Letras, 1994.

Fonte da figura: Canva, Free Images.

Antonio Lima Jr.

Antônio Lima Jr. escreve contos, crônicas, resenhas e outros textos, com ênfase na vida e nas relações pessoais com o dinheiro.

Sua escrita é fundada na ideia de que "A vida se completa quando há propósito, e o dinheiro pode ser ponte ou abismo entre os dois."

Fez o curso de Formação de Escritores da Editora Metamorfose e a oficina de escrita criativa de Marcelo Spalding, cursou a oficina literária Santa Sede e a Masterclass de Rubem Penz e, no Recife, frequentou as oficinas literárias de Paulo Caldas e de Raimundo Carrero. Tem formação de Coordenador de Laboratório de Leitura pela Casa Arca, com o professor Dante Gallian — método que propõe a humanização por meio da experiência estético-reflexiva da literatura clássica.

Participou de diversas coletâneas e antologias, a exemplo das publicadas pela Santa Sede Editorial, pela Editora Metamorfose e pela Oficina Literária Paulo Caldas, e ainda do Selo Off Flip, incluindo os seguintes destaques: um conto na Antologia Terra (2023), um conto e uma crônica na Antologia Nordestes (2023) e uma crônica no Prêmio Off Flip 2024. Prepara o primeiro livro solo.

Advogado e doutor em Saúde Pública, foi professor de ensino superior por cerca de 25 anos e auditor federal de finanças e controle por 20, hoje aposentado. É educador financeiro (DSOP) e cursa formação em Terapia Financeira Integrativa, pelo IPPLA.