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O texto estava melhor. Só não era mais dela.

O texto estava melhor. Só não era mais dela.

por Lu Aranha

O texto estava melhor. Só não era mais dela.

O texto estava melhor.

As frases tinham emagrecido, os advérbios haviam desaparecido e nenhuma explicação permanecia tempo demais onde não fora chamada. Havia ritmo, tensão e imagens sensoriais distribuídas com eficiência. Os parágrafos terminavam no momento certo, quase sempre com uma palavra forte. Tudo estava onde deveria estar.

Ainda assim, depois de duas páginas, tive a impressão de que a autora havia saído do texto sem avisar.

Restara a história. Ela, não.

Continuei lendo em busca de alguma coisa que não sabia nomear. Talvez uma frase mais longa, dessas que perdem o fôlego no caminho porque o pensamento ainda não decidiu onde terminar. Talvez uma explicação desnecessária, mas tão característica que permitisse reconhecer quem a havia escrito. Talvez uma imagem excessiva. Uma escolha estranha. Um pequeno desvio.

Não encontrei.

Quando conversamos, ela mesma confirmou o incômodo. Havia recorrido à inteligência artificial para melhorar a estética do texto. Pediu frases mais curtas e dramáticas, maior tensão, mais dinamismo, menos explicações e um reforço da atmosfera.

A ferramenta entregou exatamente o que lhe pediram.

Esse talvez seja um dos problemas mais difíceis do nosso tempo: as máquinas estão aprendendo a obedecer melhor do que nós sabemos pedir.

— O texto ficou melhor — ela disse. — Mas parece escrito para as redes sociais. Está curto e superficial.

Fiquei pensando naquela frase durante algum tempo. Não porque fosse a primeira vez que alguém me dizia algo parecido, mas porque ela revelava uma contradição que tenho encontrado cada vez mais no trabalho com escritores. A pessoa pede ajuda para aperfeiçoar o texto e, quando recebe uma versão tecnicamente mais eficiente, percebe que perdeu algo no processo.

Nem sempre sabe explicar o quê.

Chama de voz. De estilo. De identidade. Às vezes diz apenas: "Não parece meu."

Talvez seja mesmo difícil explicar porque a voz de um escritor não está apenas nas qualidades de sua escrita. Ela também se esconde nas hesitações, nas insistências, naquilo que ele observa quando ninguém mais observaria. Está na frase que se prolonga porque aquele pensamento precisa de mais espaço. Na palavra incomum escolhida não por ser a mais bonita, mas porque alguma lembrança a tornou inevitável. Está até nos defeitos recorrentes, antes que sejam compreendidos e transformados em escolhas.

Nem todo defeito é estilo, claro. Uma repetição pode ser apenas uma repetição. Uma frase confusa pode estar somente mal construída. Escrever exige aprender a cortar, reorganizar, aprofundar e reescrever. Exige aceitar que inspiração nenhuma dispensa trabalho.

Mas há uma diferença entre ensinar alguém a dominar seus recursos e substituir seus recursos por uma voz pronta.

Na Inkubadora, recebo autores que querem escrever melhor. Alguns chegam pedindo revisão quando o livro ainda precisa descobrir qual história deseja contar. Outros procuram uma fórmula para começar, terminar ou publicar. Muitos desejam retirar do texto tudo o que possa parecer inadequado: as repetições, os excessos, as frases longas, as palavras simples, as cenas silenciosas, os personagens que não se explicam.

A vontade de acertar é tamanha que, às vezes, desejam apagar qualquer vestígio de tentativa.

Só que escrever é justamente deixar vestígios.

Um texto inteiramente protegido do erro também pode estar protegido da descoberta. Se cada frase nascer sabendo exatamente para onde vai, talvez nenhuma delas encontre um lugar que o autor ainda não conhecia.

A inteligência artificial não inventou essa ansiedade. Muito antes dela, escritores já procuravam manuais, fórmulas, listas e regras que garantissem um bom resultado. Também já tentavam imitar os livros que admiravam ou o estilo que parecia agradar ao mercado. A diferença é que agora existe uma ferramenta capaz de realizar essa transformação em segundos — e de devolver ao autor um texto tão convincente que ele pode demorar a perceber o próprio desaparecimento.

Não acredito que a solução seja fingir que a ferramenta não existe. Ela pode ajudar a identificar repetições, testar possibilidades, organizar ideias, formular perguntas e tornar visíveis certos problemas. Pode funcionar como apoio, desde que o escritor continue tomando as decisões.

O perigo começa quando ele pergunta apenas: "Como deixar este texto melhor?" e aceita que outra inteligência determine o que "melhor" significa.

Mais curto?

Mais claro?

Mais comercial?

Mais emocionante?

Mais parecido com os textos que já circulam e recebem curtidas?

Toda melhoria carrega um critério. E todo critério modifica o texto em alguma direção.

Por isso, uma das perguntas mais importantes diante de qualquer sugestão — venha ela de uma máquina, de um leitor ou de um profissional — talvez seja: melhor para quê?

Uma frase pode ficar mais clara e perder o mistério. Pode ganhar velocidade e eliminar a hesitação que revelava o medo da personagem. Pode se tornar mais elegante e apagar a brutalidade necessária à cena. Pode produzir impacto imediato e deixar de ecoar depois.

Não basta saber se a alteração funciona. É preciso saber a serviço de qual história ela funciona.

Voltei ao exercício daquela autora e reli a versão anterior. Ali estavam os problemas que ela já reconhecia: explicações demais, um ritmo irregular, momentos em que a emoção era anunciada antes de poder ser sentida. Havia trabalho a fazer.

Mas ela estava ali.

Estava no modo como demorava o olhar sobre certos detalhes, na preferência por imagens sensoriais, na necessidade de compreender o que suas personagens sentiam antes de fazê-las agir. Aquilo ainda precisava de medida, não de eliminação. Sua tendência a explicar poderia ser trabalhada para que se transformasse em precisão emocional. Sua demora poderia se tornar ritmo. Seus excessos poderiam aprender a escolher onde permanecer.

Uma voz não nasce pronta. Primeiro, ela aparece misturada a tudo o que o escritor ainda não sabe fazer. Talvez por isso seja tão fácil apagá-la durante a correção.

Devolvi o texto com perguntas, observações e alguns caminhos possíveis. Sugeri que ela não descartasse o auxílio recebido, mas que também não tratasse aquela versão como definitiva. Precisava ler cada mudança e decidir: isto resolve um problema ou apenas deixa o texto parecido com o que hoje se entende por um texto eficiente?

Entre tantas frases bem acabadas, uma da versão original voltou.

Era um pouco longa. Tinha palavras que talvez pudessem ser cortadas e uma imagem que se demorava mais do que o necessário. Não era a melhor frase do texto.

Mas era a única que ninguém mais escreveria daquele jeito.

E, naquele momento, isso pareceu mais importante.

Lu Aranha

Luísa Aranha é escritora independente, professora, jornalista e blogueira. Publicou mais de 30 títulos, entre dramas, comédias românticas, eróticos, antologias e romances contemporâneos, todos em formato impresso e digital. Semifinalista do Prêmio Sesc de Literatura em 2017, é especializada em literatura de entretenimento e autopublicação, sendo uma das autoras mais lidas na Amazon, onde publica desde 2016. Seu último romance, Filhas da Terra, foi lançado em 2023 pela Editora Metamorfose.