por Alexis Rodrigues de Almeida
Nottinghamshire, dezembro de 1299
Era uma noite fria no final do Outono. O senhor Stanley e sua família faziam sua última refeição do dia e, talvez, de suas vidas. O ano fora muito difícil e já não lhes restava nada nos depósitos. Sua esposa matara a última galinha que lhes restava e com ela fizera uma sopa, sem saber o que lhes aguardava no dia seguinte.
Todos à mesa, embora não trocassem uma única palavra, tinham a mesma certeza de que daquele jeito não iriam durar muito tempo.
Alfred, o filho mais velho, olhou de relance para a mãe. Ela inclinou discretamente a cabeça pra frente. Era o sinal que ele esperava.
— Pai — disse Alfred com a voz baixa e tímida —, queria pedir sua permissão para sair em busca de ajuda amanhã.
Stanley, com seus quase cinquenta anos, já tinha vivido muitos tempos difíceis, mas nunca como esse que eles atravessavam. Olhando para seu filho mais velho viu um rapaz forte, com seus vinte anos, de cabelos curtos, escuros e lisos, cobrindo uma cabeça baixa em sinal de respeito. Não teve forças para ralhar, como teria feito em outro momento menos dramático.
Com muito esforço, falou em um tom mais ameno que de costume, mas sem esconder a gravidade de cada palavra.
— Pedir ajuda a quem, meu filho? Você sabe muito bem a situação da nossa vila. Nossos vizinhos estão tão esfomeados quanto nós.
Stanley se referia à crise agravada pelo decreto real que não permitia a caça nas matas da região.
— Não estava me referindo a nossos vizinhos... — hesitou Alfred, erguendo apenas os olhos em direção ao pai, sem ousar levantar a cabeça.
Stanley, percebendo o que se passava, pousou lentamente a colher no prato. Levou o guardanapo xadrez à boca e o colocou em seguida ao lado do prato. Isso normalmente era sinal de que o jantar estava terminado. Olhou para a esposa e para o filho, que imediatamente abaixaram o olhar, prevendo onde aquela conversa iria chegar.
— Em quem exatamente você estava pensando, Alfred? — ouviu-se uma voz arrastada e mais áspera do que a fala anterior.
A mãe ordenou que os dois filhos mais novos fossem para o quarto.
— Stanley, não podemos continuar assim. Mesmo que escapemos do dia de amanhã, como poderemos continuar vivendo desse jeito? O que vamos dizer aos nossos filhos quando eles tiverem fome? O que vamos dizer àqueles malditos coletores de impostos? Você vai permitir que eles levem nossos filhos em troca de nossas dívidas? Alfred conhece uns homens bons. Eles têm ajudado muitas pessoas em aldeias vizinhas.
— Digam-me que não estão falando daquele malfeitor. O tal de Robin Hood — explodiu Stanley esmurrando a mesa. — Não quero ouvir mais nada sobre esse absurdo.
* * *
O sol ainda não tinha nascido quando Alfred deslizou da cama e escapuliu pela porta dos fundos, antes que seu pai sentisse sua falta. Saiu em disparada em direção à floresta. Não iria pela estrada, frequentemente patrulhada pelos homens do Rei.
Passava um pouco do meio dia quando ouviu vozes vindas de uma clareira à frente. Esgueirou-se por entre as árvores até bem perto. Até poder divisar alguns vultos por entre os galhos da mata fechada. Estava observando assim quando foi surpreendido por uma mão agarrando seu ombro com a força de um urso.
— O que você está fazendo aqui, seu ladrãozinho? — trovejou uma voz atrás de si.
Olhando em direção à voz, Alfred viu um homem alto e forte como um mamute.
— Não sou ladrão, senhor, venho à procura de ajuda. Eu juro.
— Hummm! Essa é a história que todos os ladrões contam ao serem capturados.
Agarrando Alfred fortemente pelo colarinho, o brutamontes o conduziu até o meio do acampamento.
O homem tinha cerca de dois metros de altura e um corpo que lembrava um tronco de árvore. As mãos tinham a força da garra de um urso.
— Veja só, chefe. Veja quem eu encontrei nos espionando. Ele diz que não é um ladrão. Então só pode ser um espião do rei.
— Não, senhor. Por favor, não sou nem uma coisa nem outra. Eu já falei. Só vim aqui pedir ajuda.
— Solte-o, João Pequeno — falou, com voz de autoridade, um homem com uma aljava presa às costas e um chapéu engraçado, onde encontrava-se espetada uma pena alaranjada. — Diga-nos filho, quem é você e por que procura ajuda.
— Meu nome é Alfred, senhor, e sou de uma aldeia há alguns quilômetros daqui. Nossa vila está em dificuldades. Não temos mais nada para comer.
— E por que você acha que podemos ajudar?
— Eu vim procurar Robin Hood e seus amigos. Ouvi dizer que ele pode nos ajudar.
Fez-se um silêncio em volta. O gigante João Pequeno foi o primeiro a soltar uma gargalhada, sendo imediatamente seguido pelos outros.
— Veja só, chefe, estamos ficando famosos.
O rapaz olhou assustado, sem entender o que estava acontecendo.
— Meu jovem, se você e sua família estão sendo oprimidos pelo Rei, assim como toda nossa região, será um prazer ajudar.
O rapaz se ajoelhou.
— O senhor é o Robin Hood?
— À suas ordens. Por favor, levante-se. Você não deve se curvar para ninguém, meu filho.
Olhando para um homem gordo e baixo ao seu lado, que vestia uma batina marrom e trazia um bastão de madeira na mão direita, ordenou:
— Frei Tuck, leve o rapaz à cozinha e dê comida a ele. O rapaz parece um pouco fraco.
— Obrigado, senhor. Deus abençoe vocês.
Enquanto acompanhava Frei Tuck, Alfred viu um grupo de crianças que brincavam alegremente sob as sombras da floresta. Observou também um grupo de homens e mulheres que treinavam tiro ao alvo com arcos e flechas. Ao lado, outro grupo treinava combate corpo a corpo.
À entrada da cozinha, o aroma de comida quente se misturava ao cheiro de terra molhada e mato verde. Um grupo de idosos e algumas meninas cuidavam do preparo dos alimentos. Alguns descascavam batatas, outros mexiam um caldo em um grande caldeirão sobre pedras em torno do fogo feito no chão. O crepitar da fogueira era um convite para escapar do frio e da umidade da mata.
* * *
No centro do acampamento, Robin chamou um jovem que trazia uma espada na cintura e um arco na mão. O jovem, com cerca de vinte anos, trazia uma faixa amarrada à cabeça, na altura da testa, prendendo os cabelos lisos, que iam até o ombro.
Chamou também uma mulher de ar valente, com cabelos ruivos, que também estava armada com espada e lança, além de um arco preso às costas, junto com uma aljava repleta de flechas.
— Dale e João Pequeno, reúnam alguns homens para escoltarmos o jovem Alfred até sua casa. Scarlet, você fica no comando enquanto estivermos fora — determinou Robin Hood.
* * *
No início daquela tarde, um contingente de soldados do Rei chegou à aldeia de Alfred.
— Senhor Stanley, o senhor tem diminuído bastante suas contribuições nos últimos anos. Isso não pode continuar assim. O senhor sabe... o nosso rei precisa de todos os tributos que lhe são devidos. O senhor tem ideia de como é difícil manter um reino tão grande quanto o nosso? — disse o coletor em tom de sarcasmo, enquanto olhava para os soldados e seus sorrisos amarelos.
O coletor era um homem franzino, mas trazia uma pesada armadura, que lhe dava alguma imponência e altivez, suportadas pelos soldados fortemente armados que sempre o acompanhavam.
— Senhor, por favor, tenha um pouco de paciência! Nós estamos passando por algumas dificuldades, mas logo estaremos em condições de retomar os pagamentos. Não queremos o que não é nosso.
Stanley deu um passo à frente.
— Afaste-se velho imundo — disse o chefe da escolta, adiantando seu cavalo e metendo sua bota no peito do homem. O golpe lançou Stanley ao chão.
— Meu caro Stanley — continuou o coletor —, eu compreendo sua situação. E para demonstrar minha boa vontade, vou deixar que o senhor pague suas dívidas depois... mas, por enquanto, levarei um dos seus filhos como garantia.
Os guardas riram estrondosamente. Stanley levantou-se meio trôpego e foi mais uma vez em direção ao coletor.
O soldado novamente se colocou à frente, dessa vez, empunhando a espada.
— Não vou permitir que vocês separem minha família — disse Stanley arrancando o seu punhal da cintura e partindo para cima do soldado, que desferiu-lhe um único golpe de espada, abrindo um corte profundo em seu peito.
Os moradores, que acompanhavam a cena ao redor, iniciaram um forte murmúrio e tentaram se aproximar do pobre homem caído ao chão.
Os homens do rei, com espadas à mão, fizeram um círculo em torno do coletor, tirando-o do centro da confusão.
Em seguida, o coletor e os soldados deixaram a aldeia, levando consigo o irmão mais novo de Alfred. Stanley ficou estendido no chão. Em volta dele, a esposa e o filho, juntamente com os outros aldeões, tentavam socorrê-lo.
* * *
Cerca de meia hora após os soldados do Rei saírem, Robin Hood e seu bando chegaram à aldeia, acompanhando o jovem Alfred. Ao tomar conhecimento dos acontecimentos recentes, Robin decidiu sair em perseguição à tropa do Rei.
— Homens, não podemos permitir que isso continue acontecendo em nossa região. Alfred, venha conosco e veja com os próprios olhos o que faremos àqueles bandidos.
Era fim da tarde quando Robin e seu bando, acompanhados pelo jovem Alfred, avistaram os soldados. Toda a estratégia foi definida rapidamente. Dividiram os homens em dois grupos, infiltraram-se na floresta e atacaram os soldados por ambos os lados.
Apesar de estarem em menor quantidade, numa proporção de um para dois, a batalha não demorou muito.
Escolheram atacar numa pequena clareira. O grupo de homens do rei havia parado para dar água aos cavalos quando foi surpreendido. Os silvos das flechas riscaram o ar, encontrando rapidamente seus alvos.
Os soldados restantes ofereceram uma brava resistência, mas em visível desvantagem numérica, foram abatidos numa sangrenta batalha corpo a corpo.
O grupo se viu resumido ao coletor e a dois soldados gravemente feridos que ainda insistiam em continuar em pé na tentativa de proteger o enviado real.
Os soldados foram facilmente dominados e o coletor foi capturado. Todas as mercadorias e dinheiro recolhidos dos aldeões da região foram retomados. O irmão de Alfred foi libertado totalmente ileso.
Em seguida, liberaram o coletor, deixando-o a pé e somente com as roupas de baixo, sob gritos e risos de todo o bando, que o chamavam de pobre passarinho depenado.
Ao retornar à aldeia, Alfred recebeu com muita dor e revolta a notícia da morte do seu pai.
Naquele momento, prometeu a si mesmo que não deixaria os responsáveis impunes.
A cerimônia fúnebre ocorreu naquela mesma noite.
Alfred reuniu a família. Na ausência do pai, ele agora era o responsável pela mãe e pelos irmãos. Falou do seu encontro com Robin Hood e seu bando. Como foi bem recebido por todos. Da fartura que havia entre eles. Falou também da bravura dos homens ao libertarem o irmão mais novo. Destacou a sabedoria de Robin Hood na condução do bando e sua justiça na distribuição dos recursos entre todos.
Todos sabiam que o rei não ficaria de braços cruzados diante daqueles fatos.
O bando pernoitou na aldeia, trazendo uma sensação de segurança para todos.
Logo de manhã, após uma rápida conferência entre a cúpula do bando, Robin Hood anunciou:
— Alfred, queremos que você e sua família venham conosco para nosso acampamento. Aqui vocês não terão paz. Logo o Rei enviará outra tropa ainda maior. Ninguém nessa vila estará seguro. Por favor, converse com o chefe da vila e o convença a vir conosco.
Naquela mesma manhã, Alfred, juntamente com a família e mais alguns aldeões partiram com o bando de Robin Hood em busca de uma nova vida.
Eles eram, agora, os novos amigos de Robin Hood.
Alfred sabia que só assim alcançaria sua vingança.
Alexis Rodrigues de Almeida é escritor apaixonado por grandes clássicos da literatura. Autor de alguns contos publicados em coletâneas, explora temas como relações familiares, dilemas éticos, sempre buscando contar uma boa história, que traga reflexão para os leitores de uma forma prazerosa. Participou de diversas coletâneas de contos, e atualmente dedica-se a escrever sua primeira narrativa longa.