por Marcia Brack
OS TRÊS MACACOS
Marcia Brack
Hô doutor, mas que baita som o senhor tá curtindo! Guardei esta vaguinha exclusivamente pro senhor! Que isso doutor nem precisava! Tá bem cuidado doutor!
Esse aí é um Zé mané. Tô sabendo que é menos culto que eu. Imagina que o cara nem sabe quem foi o Getúlio Vargas. Olha, se duvidar não sabe nem quem é nosso presidente atual. Tem aversão á Caetano, Gil e Chico, só escuta Funk do bonde. Mas adora ser chamado de doutor. Fica mais inflado que pavão macho se assanhando pra fêmea.
Tem gente aí que pensa que ser flanelinha é pra qualquer um. É nada, a gente tem que ter muita psicologia, tem que conhecer nos olhos o fraco de cada cliente.
Haaaa minha deusa, tava guardando esta vaguinha só pra majestade! Vou aproveitar e deixar a carruagem reluzente como seus olhos minha deusa! Pô valeu minha rainha nem precisava!
Como eu tava dizendo, tem que captar o fraco da vaidade dos clientes. Fiz a faculdade da vida cidadão, aprendi muito com os bacanas e enquanto os colega se cobrem com jornais velhos, eu os leio. E olha só, minha clientela é das alta sociedade, tudo gente da grana.
Essa aí é a maior perua vem toda semana ali naquele café. Fica alguns minutos e sempre sai acompanhada de um gurizão. Para onde vão? Sei lá meu irmão! Um profissional tem que ser discreto. Saca aqueles três macacos? Aprendi esta lição em uma de minhas andanças por este brasilsão afora.
Tava vendendo água de coco lá em Arraial do Judas...O quê? Nunca ouviu falar? Fica pertinho do Arraial d'ajuda! Bah meu, lá na Bahia! Então como tava contando, chegou um cara e me pediu as cascas dos cocos, ele fazia esculturas com elas, foi aí que vi os três macacos. Um tapava os olhos, outro os ouvidos e o terceiro a boca. Saquei na hora e me dei bem bancando os macaquinhos. Seguinte meu, hoje, não vejo, não ouço e também não falo nada. Mas cá entre nós, já peguei a dona dando o maior amasso no gurizão dentro do carro.
Aí meu rei, é sempre uma honra cuidar da máquina. Fica tranqüilo patrão, não vou sair de perto. Valeu meu rei, garantiu o leitinho das crianças.
Este aí é o corno. Tê liga, magrão. É o marido da perua. Vez em quando ele pinta na área pra ver se dá uma incerta na dita cuja. Hoje quase que ele pega, faz cinco minutos que a dona saiu com o garotão. Pena não ter chego antes.
Esta rua anda muito parada, faz tempo que não rola um barraco por aqui. O último já faz mais de semana. Vou te dizer, barraco de rico é muito mais divertido que de pobre. É muito engraçado assistir os bacanas engravatados de ternos engomados perdendo a compostura e descendo do salto. Ficam mais parecidos com gente de verdade. Nessas horas fico só na platéia, melhor não tomar partido.
Uma vez, vi um grandão dar um tapão na cara de um azulzinho, quando eles recém haviam entrado na área, ninguém respeitava os coitado, apanhavam como condenado, chegava a dar dó. Hoje não, hoje eles são autoridade, quando pinta um, vou logo sentando no cordão da calçada e aproveito a folga.
Hô...hô....parceiro! E a gorjetinha do amigo?Só isso compadre? Tenho cinco bacuri e uma mulher doente em casa pra cuidar véio. Agora sim amigão, a família agradece!
Vou te conta camarada, tem uns clientes muito do caloteiro. Vão chegando de fininho, entram no carro abaixadinho pra gente não ver. É uma falta de consideração com o trabalhador. Tem que tá ligado pra não ficar no prejuízo.
Casado eu? Cinco filhos? Tá doido meu? E lá eu tenho cara de otário? O que eu tenho lá na vila é uma nega gostosa que cuida de mim de vez em quando, mas cada um no seu canto. Não sou homem de me prender á responsabilidades. Sou que nem passarinho, cada estação um ninho.
Safado, mentiroso, eu? Que isso magrão? Não to mentindo não, só contei uma versão florida da situação pra sensibilizar o cliente. A neguinha tem uns bacurisinhos sim e é doente de amor pelo garanhão aqui. Tá certo que são só dela. E não são cinco, são só três. Falei cinco pro cliente entender o preço. Sacô? Cinco bacuri, cinco reais! É contra lei cobrar pelos nossos serviços, a justiça diz que é extorsão. Então...a gente usa malandragem irmão.
Também não cuido das crias da neguinha, mas vez em quando dou umas balinha pra molecada ficar quietinha e deixar eu dar um chamego na preta.
Boa tarde chefe!
Esse não vale à pena nem se dar ao trabalho de limpar o retrovisor! Nunca consegui arrancar nem um sanduiche de mortadela do "mão-de-vaca". Apliquei todo o meu conhecimento no cara e não deu em nada. Desisti.
Mas deixa que a hora dele vai chegar. Já passei a placa para uns amigo meu. Qualquer dia destes, o chefe vai começar a vir a pé pro trabalho.
Maldade não véio; Negócios! Também não sou ladrão, não sou eu que roubo os carros. Só passo as coordenadas.
Como assim, meu colega?
Qual é cara!
Não é colega de vagabundo?
Hô meu, tá de brincadeira comigo?
Que distintivo é esse?
Desmerece as algemas doutor.
Bah, sujou...esqueci dos três macacos.
Marcia Brack foi aluna no curso de escrita literária do escritor e Professor Charles Kiefer. Participou também de oficina literária com o escritor e Professor Luiz Antônio de Assis Brasil. Tem o conto "Os Três Macacos" premiado e lançado em coletânea na feira do livro de Porto Alegre em 2010. Participou do ciclo de contos temáticos do escritor Henry Bugalho. Também é autora do conto "Os Olhos Tristes de Lorena" selecionado e publicado no canal Conto um Conto do Professor Marcelo Fávaro. Concluiu o curso de Formação de Escritores da editora Metamorfose criado pelo escritor e, também Professor Marcelo Spalding. Participou de coletânea lançada na Feira do Livro de Porto Alegre em 2022, "O Último Andar do Paraíso" juntamente com outros onze amigos e colegas, organizada pela escritora Lu Aranha.