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Os votos

Os votos

por Luci Lima

Os votos

Acordou e viu o céu. Azul-claro e quase sem nuvens. O sol secava a roupa no varal.

De onde vinham as marteladas? Elas pareciam acompanhar o latejar em sua cabeça. Há quanto tempo estava ali? Minutos, horas? Pela posição da sombra da amoreira, decidiu: minutos.

Tentou se virar; não conseguiu. O lado esquerdo era uma âncora que a prendia ao chão. O que teria acontecido com ela? Um desmaio — sim, uma síncope — e ela devia ter batido a cabeça no chão. Por sorte, fora na parte gramada. Mas por que não conseguia erguer a mão esquerda?

Onde estava Manoel? Conseguiu virar a cabeça o suficiente para ver a porta da cozinha. Tentou gritar; só saíram borbulhas de cuspe.

O coração, aos pulos, juntou-se à bateria em sua cabeça. Iria morrer ali. Só a encontrariam depois que os bichos lhe tivessem comido os olhos. Imaginou o horror de quem a encontrasse. Manoel? Não. Ele dissera que não ia mais voltar. Que ela podia apodrecer, que ele não queria mais saber dela.

O cuspe começou a crescer na sua boca. Meu Deus, vou me afogar. Batendo a mão direita no chão, esforçou-se para tombar a cabeça para o lado o máximo que pôde. A saliva escorreu; respirou; crise revertida.

Meu Deus, Jesus Cristo, Nossa Senhora, alguém — não me deixem morrer assim. Se eu tiver que depender dos outros para viver, aceito. Esqueçam o que eu disse antes sobre independência ou morte. Um soluço, mais lágrimas.

Abriu os olhos novamente. Já era tarde. Umas seis? Começara a sentir umidade nas costas e no baixo-ventre. O rosto também estava molhado. O nariz escorria. Corpo maldito! Devia fazer um esforço para sair dali, chamar alguém. Pela primeira vez amaldiçoou os muros altos com cacos de vidro que espantavam até o gato do vizinho, se é que ele tinha um. Gostaria de ter tido um bicho, mas não tinha tempo para cuidar nem de si mesma. Os vizinhos ela não conhecia. Saía cedo e voltava tarde, sempre de carro.

O que Manoel estaria fazendo agora? Ele ficaria feliz em não precisar dividir os bens.

Era noite. Conseguira se virar parcialmente de lado, mas não se arrastar. A cabeça latejava menos, e ela aproveitou para percorrer o quintal com os olhos, constatando que não havia urubus pousados.

Chorou de novo sua impotência e também sua impaciência com o marido, de mais de quarenta anos de casados. Queixara-se de que, depois que ele se aposentara, não lhe dava sossego; tudo era ela quem fazia e que, se fosse para ser assim, preferia ficar sozinha. Não queria homem enchendo o saco. Deve ter sido a gota d'água. Ele não voltaria. Talvez fosse ao enterro.

Ouviu seu nome. Borbulhou: aqui, me acode. Seu nome outra vez, com impaciência, exasperação, desespero...

— Stella! Meu Deus! — Ele se ajoelhou ao seu lado, e ela piscou: Manoel.

 

A recuperação foi lenta, difícil e incompleta. Depois de muita fisioterapia e sessões de fonoaudiologia, reconquistara a fala e alguma firmeza na perna esquerda. A mão ficara inútil.

Esquecera-se de parte do suplício: aquela em que pedira ajuda a Deus e a todos os santos. A parte em que lamentara ter brigado com o marido. Tornara-se uma velha irritante e desnecessária.

Stella chorava de frustração. Manoel ouvia tudo e evitava reclamar.

Um dia, após um ataque de nervos em que fora particularmente cruel, ela perguntou a Manoel:

— Como você suporta isso? Como me suporta?

— Faz parte. Eu prometi quando nos casamos.

— O quê? Cuidar na saúde e na doença? — Ela baixou a cabeça, humilhada.

Ele a encarou, balançando a cabeça.

— Prometi amar...

Luci Lima

Luci Lima é tradutora e escritora brasileira. Após anos trabalhando com textos de outros autores, decidiu que também queria contar suas próprias histórias. Escreve romances, histórias policiais e contos.

Acredita que uma boa história não precisa ser necessariamente impressa e aprecia as novas formas de leitura proporcionadas pela tecnologia.

Fã de Jane Austen, escreveu Em Busca do Destino, uma variação de Orgulho e Preconceito, publicada na Amazon.com.br sob o pseudônimo Lilly Ames.

Quando não está escrevendo, vive cercada de gatos, ideias e personagens que insistem em aparecer.