por Clessius Varela
Estávamos pousando quando, de repente, surgiu aquela voz como um despertador em nossos ouvidos: "Estamos pousando agora no Aeroporto Champs-Élysées!". A origem vocal não era da tripulação, mas sim do meu amigo de coração gigante, narrando a filmagem da nossa aterrissagem. Empolgado como todos nós com a nossa primeira viagem ao exterior, ele acabara de transformar a famosa avenida parisiense no aeroporto da capital francesa. Minha amiga Rita, intelectual (e esposa dele), logo corrigiu: "É Charles de Gaulle, Eduardo! Charles de Gaulle!". Nossas gargalhadas surgiram imediatamente e, ali, tivemos a absoluta certeza de que a viagem na Cidade Luz seria uma experiência encantadora.
Paris é apaixonante, principalmente para um rapaz de classe média baixa cujos pais e avós não tiveram a possibilidade de sair do Brasil. Pensava nisso ao caminhar, do Hotel Ibis Paris Torre Eiffel em direção à estação Cambronne, que fica do lado oposto à rua calma em que estávamos hospedados. Contestando o "barbeiro fofoqueiro" — protagonista de uma das maravilhosas histórias de Jessier Quirino, artista paraibano —, a Torre Eiffel, nosso primeiro destino no estrangeiro, não é um amontoado de ferro distorcido. Ela tem vida própria; talvez uma alma habite ali. Certamente habita. Imponente, transformou o entorno apenas através do que é. Penso que esse seria um dos grandes desejos da vida humana: ter a capacidade de mudar alegremente o mundo ao redor apenas sendo. Admiração e inveja. Deslumbre e felicidade.
À tarde, fomos pegar nossos kits de corrida. Sim, eu, Jê(minha esposa), Rita e Dudu iríamos, para além das férias, participar da Maratona de Paris: Seriam 42.195 metros saindo da Avenida Champs-Élysées com a chegada no Arco do Triunfo. Que experiência! Apenas quem conclui ganha a medalha e a camisa com a descrição estampada no peito: "finisher".
Meu aniversário tinha sido no dia 9 de abril, e a corrida foi realizada um dia depois, em 10/04. Minha esposa, na época namorada, tinha organizado um jantar surpresa em águas francesas para comemorarmos meu aniversário pós-corrida: um passeio de barco pelo Rio Sena. Estávamos nos sentindo maravilhados. Bebemos vinhos, comemos, rimos e registramos cada momento. Pegamos um táxi para retornar ao hotel, entre várias risadas, Jê afirmava, com a segurança de que o motorista francês nada entenderia, em alto e bom tom: "Rita, Rita, hoje será muito make love, muito make love!".
Fomos assim até nossos aposentos. Pois bem, ao amanhecer, fomos tomar nosso café da manhã — que é maravilhoso, aliás; se estiver em Paris, vá tomar café neste hotel, é espetacular e aberto ao público. Voltando à refeição matinal, nosso casal de amigos curiosos me perguntava: "E aí, como foi a noite? Muito make love?". E eu, com a sinceridade de um devoto na sacristia, respondi: "Que nada... foi muito make sleep. Muito make sleep mesmo!".
No dia seguinte, um fato inusitado. Certamente o "mal-assombro" apareceu; não sabia que ele trabalhava também em terras estrangeiras. Meu amigo Dudu era, desde o início dos treinos, de longe o mais entusiasta nesse projeto da maratona. Com dedicação diária, redução importante de peso e "longões" nos finais de semana, estava, com mérito, orguloso do símbolo pendurado em seu peito: a medalha. Pois bem, deixou-a pendurada no armário embutido do quarto do hotel e foi tomar banho. Quando voltou, a danada — por obra, quem sabe, do "cinzento" (Deus que me perdoe) — caiu na fresta entre o armário e a parede.
Ele tentou de todas as formas arrastar o móvel, que insistia em permanecer ali, grudado nos alicerces construtivos. Incrédulo com a situação e em um ato de desespero, ele jogou o passaporte na mesma brecha e gritou: "Só saio daqui com minha medalha, pronto!". Dizem que o rugido ressoa até hoje no Moulin Rouge, do outro lado da cidade — a "casa de facilidades" de outrora, onde as moças com corpos que parecem bonecas de porcelana branca ensaiavam para a apresentação noturna. Depois de muita conversa, ele conseguiu que a manutenção do hotel retirasse o móvel e recuperasse a medalha e o passaporte, ambos necessários para garantir o nosso retorno à pátria amada, Brasil.
Ao chegar de volta a Recife, a "Veneza Brasileira", ele foi direto visitar a mãe para mostrar o símbolo do feito. Pasmem: ao descer do carro, foi assaltado e levaram a "dourada". O drama se estabeleceu, mas lembram da minha amiga intelectual? A adjetivação não é à toa. Silenciosamente, ela enviou uma carta para a organização francesa explicando todo o ocorrido. Trinta dias depois, a premiação chegou a tempo de presenteá-lo duplamente em seu aniversário: com o objeto e com o belo gesto, ensinando a todos nós que, no final, tudo dá certo.
Acredito que certas atividades sutilizam nossa energia e servem como contraponto ao cotidiano. Recentemente, comecei na pintura e na escrita; ainda como iniciante, buscando as palavras com o prazer de quem celebra cada frase concluída. Meu objetivo aqui é fazer o melhor possível como escritor até o limite do sentir."