por Ana Cristina Sampaio Alves
No oitavo dia, a televisão mostrou o resgate de um homem chamado Hernán Gil, um vigilante encontrado vivo e em boas condições de saúde sob os escombros de um prédio em La Guaira. Foi a primeira vez que vi César assistir ao noticiário sem desviar os olhos. Quando a reportagem terminou, ele finalmente abriu o computador e passou horas procurando informações sobre o terremoto que devastara sua terra natal.
Sem tirar os olhos da tela, disse:
— Tenho tentado falar com Miriam, mas ela não responde.
Respirei fundo. Pela primeira vez desde o terremoto, o assunto finalmente podia ser abordado. Uma semana antes, no dia em que todos os jornais expunham o horror pelo qual passava a Venezuela, olhos assustados e silêncio profundo impuseram o clima de tensão constante em nossa casa.
— Ninguém entrou em contato desde o terremoto? Já faz uma semana.
— Meu irmão me mandou mensagem dizendo que precisavam de ajuda, mas com ele eu não falo, você sabe.
— O seu irmão Eduardo? Quando ele falou contigo? Logo depois do desastre? — A revelação caiu sobre mim como um novo tremor. Se o irmão, com quem ele não falava havia trinta anos pedira ajuda, por que ele esperara tantos dias para me contar? — Não sei como você consegue ficar distante deles nessa hora.
— Eu sei o que faço. Se precisassem mesmo de mim, Míriam teria me escrito, não ele.
— Meu Deus, Cesar, e se ela estivesse em La Guaira? Vocês não têm tios lá? E deles, você tem notícia?
— Você sabe que eu não falo com ninguém de lá, só com Míriam.
— Mas você vai ficar eternamente esperando notícias dela? Até quando? Teu coração é de pedra mesmo.
Deixei-o sozinho com as próprias angústias. As minhas já não cabiam dentro de mim. Observei que o telefone não saía mais de sua mão. A todo momento verificava as mensagens, mas nada surgia. Tinha medo de voltar à discussão sobre ligar para Míriam e, agora, Eduardo, o único que dera sinal de vida, pedira ajuda. Como podia ignorar um pedido de socorro? Pela primeira vez em muitos anos, senti dificuldade em reconhecer o homem com quem dividia a vida. À noite, liguei a TV no noticiário.
— Eu odeio esse governo! — Levantou-se e desligou o aparelho sem ao menos olhar para mim. Assim que saiu da sala, liguei-o novamente. "O número de mortos pelos terremotos na Venezuela não para de subir. Milhares de pessoas foram afetadas pelos tremores ... ", dizia o apresentador.
No dia seguinte, durante o café da manhã, revelou em tom casual:
— Falei com Eduardo.
— Graças a Deus! E ele? — Corri a me sentar ao seu lado.
— Está em Caracas. A casa foi destruída, estão dormindo em barracas no meio da rua.
— Meu Deus! E Míriam?
— Ele não tem notícias dela. Acha que podia estar em La Guaira, pois visitava sempre nossos tios. Ele só sabe que a família inteira dos tios morreu, o prédio veio abaixo. — Pegou o celular e me mostrou a foto em que sete pessoas posavam sorridentes com roupas elegantes: um casal, três filhos e duas crianças. Todos soterrados.
Quis abraçá-lo, mas ele se voltou para a xícara de café, que passou a bebericar olhando para o vazio à frente.
— E como você vai ajudá-lo? Consegue mandar dinheiro?
— Eu não vou ajudar o Eduardo. — A voz era ríspida, o olhar não mudou de direção. O silêncio tomou conta do ambiente.
Levantei-me para sair da cozinha, mas parei ante a porta e me voltei para ele:
— Você nunca vai esquecer o passado?
— Você não entende! — Sua voz se elevou. — Já disse que ele é amigo de traficante. Vendeu tudo da minha mãe pra comprar droga. Levou até as alianças de casamento dos meus pais.
— Já sei disso, mas sua mãe nunca o denunciou à polícia. Além do mais, por que isso te fere tanto se você saiu de casa ainda criança, mudou de país e nunca mais viu esse irmão? Não está na hora de passar por cima disso e estender a mão a quem perdeu tudo e está dormindo na rua?
Senti uma urgência crescendo dentro de mim. Precisava fazer alguma coisa.
— Deixa que eu falo com teu irmão. Eu mesma vejo como ajudar. E precisamos localizar Míriam.
— Não se meta! — Foi tão incisivo que levei um susto.
Virei-me sem responder. O rosto queimava, o coração parecia fora do corpo, os olhos úmidos. Fui para o quarto e peguei a mala. Estendi algumas roupas na cama. No banheiro, reuni o que podia levar. Chorava sem conseguir parar.
Ao passar pela cozinha em direção à porta do apartamento, vi que ele ainda estava sentado à mesa, olhos fixos no telefone. Quando me viu, perguntou aonde ia com a mala.
— Vou para Caracas. — Não fazia ideia de como entraria no país, só sabia que continuar naquela cozinha parecia mais absurdo do que atravessar o continente.
— Você tá louca? Tá tudo fechado lá, no aeroporto só pousa avião de carga.
— Então vou para a Colômbia e pego um carro.
— Pois então, vá. — Seu rosto voltou-se para o celular e eu fiquei ali imóvel, digerindo a impulsividade que me guiara.
Quem eram Eduardo e Miriam? Nunca os conhecera. As imagens do noticiário vieram à minha mente: escombros, pessoas cavando com as próprias mãos, lençóis cobrindo corpos. Hesitei. Olhei para César e o vi ainda ao celular, o rosto impassível. Saí carregando uma mala pequena. Atrás de mim, deixava um homem incapaz de partir.
Ana Cristina Sampaio Alves escreve desde a infância. Ainda criança, já se considerava uma novelista, mesmo que as histórias fossem um misto de contos de fadas com personagens reais. Escolheu o jornalismo como profissão, o qual a permitiu transitar por todo tipo de texto, desde os mais técnicos até os mais criativos, em diversos segmentos de mídias. Continua explorando a escrita e agora se aventura na literária, tendo publicado alguns contos e dezenas de crônicas. Esse é o gênero em que melhor transita.
Embora não tenha ainda publicado narrativas longas, já participou da edição de coletâneas de contos. Segue buscando aprimorar o texto que emociona e traz reflexão. Participa do Curso Online de Formação de Escritores.