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Pássaro Engaiolado

Pássaro Engaiolado

por Vilma Toloto

Pássaro Engaiolado



Caminho todo dia no trajeto que circunda o jardim do condomínio. Algumas árvores de porte médio, um banco pouco usado, uma plantação de chás caseiros e temperos, uma piscina organizada, bonita. Tão organizada que quase nunca entra ninguém. Está ali mais para enfeitar do que para molhar alguém.

Logo na primeira volta levei um susto. Numa árvore, pendurada por um gancho discreto, havia uma gaiola. Dentro, um passarinho muito lindo de peito vermelho.

A reação veio automática: como, em pleno século XXI, alguém ainda prende passarinho em gaiola? Fiquei com a indignação latejando. Não falei nada no primeiro dia. Nem no segundo. Mas passei a caminhar olhando para cima, como quem fiscaliza o erro alheio.

Todos os dias a cena se repetia. A gaiola balançando de leve, o pássaro se agitando pouco. E eu, firme na minha convicção silenciosa, achando que estava diante de um atraso moral pendurado numa árvore.

Até que resolvi perguntar.

Esperei o zelador aparecer regando o jardim. Cheguei perto, tentando parecer casual.

— Uma curiosidade? aquele passarinho ali é de quem?

Ele nem olhou para a árvore.

— É meu.

Pronto. Pensei que ali começaria meu discurso imaginário sobre liberdade e natureza. Mas ele caminhou até a gaiola antes que eu organizasse qualquer argumento. O passarinho começou a se mexer, agitado, cantarolando. Um canto cheio, vibrante. A avezinha parecia reconhecer uma presença amiga.

Tranquilo, apontando com o queixo, ele explicou:

— Achei ele caído ali perto do portão. Um dos pés torto. Não consegue se firmar direito. Se eu soltar, não dura dois dias.

Olhei melhor. O pezinho realmente não fechava direito no poleiro. O pássaro se equilibrava como podia, compensando com o outro.

— Levei no veterinário. Cuido, dou comida certa. Ele canta porque gosta de viver.

Fiquei em silêncio. Às vezes a gente vê a cena inteira e entende só metade. Eu tinha visto a gaiola e completado o resto com as minhas certezas.

— O senhor fez bem — eu disse.

Vilma Toloto

Vilma Toloto, natural de Ourinhos-SP, é Pedagoga, pós-graduada em Psicopedagogia (PUC-SP) e em Recursos Humanos (PUC-Chile). Desde a infância, encontra na leitura e na escrita um espaço de prazer e crescimento.

Na adolescência, passou a escrever poesias e contos, paixão que segue cultivando e aprimorando por meio de estudos contínuos. Teve experiências no teatro, que influenciaram seu olhar narrativo.

É autora do conto "Cartas que o tempo não apagou", publicado na coletânea "Toda forma de amor" (Editora Metamorfose). Em 2026, finalista da Flip Off, com o conto "A Carta de Celina", e da Festa Literária Internacional de Paraty, com o conto "Domingo", na antologia NÓS 4.