por Ana Cristina Sampaio Alves
Dinheiro na mão é vendaval? Como diz a música de Paulinho da Viola, lançada em 1975 e eternizada na novela homônima Pecado Capital, da Rede Globo, é sim. Nas mãos de um sonhador, dinheiro é motivo de ilusão, desilusão e, sobretudo, solidão.
Na novela, Francisco Cuoco interpreta Carlão, um motorista de táxi que encontra em seu carro uma mala deixada por assaltantes de banco em fuga. Ele não sabe se entrega o dinheiro roubado à polícia ou se o usa para resolver seus problemas. Apesar do drama de consciência, Carlão compra uma frota de táxis com o dinheiro do assalto e inicia sua ascensão social, tudo para chamar a atenção da ex-namorada, que se apaixona por um ricaço.
Apesar do trágico fim do protagonista, que morre tentando devolver o dinheiro, a novela gira em torno da dúvida entre usar ou não o fruto de um roubo como alavanca social (Carlão se torna o Rei do Méier), de modo a comprar a presença de pessoas em nossa vida e manter um status que pode levar muitas vezes à perdição. Carlão começa a gastar demais e se envolve com marginais que querem lhe cobrar um empréstimo.
Se ostentar o que o dinheiro é capaz de comprar sempre foi um drama na humanidade, hoje o sentimento de poder e sucesso que o dinheiro traz geram também a necessidade de exibir experiências. São viagens espetaculares para destinos paradisíacos, hotéis e restaurantes de luxo, festas glamourosas, cosméticos, academias e roupas exclusivos. O aspecto interessante da ostentação no mundo atual, no entanto, é que ela pode ser patrocinada pelos próprios donos dos negócios.
No mundo dos influencers, viver tudo o que o dinheiro pode comprar é levado ao extremo, pois não importa como foi construído ou de onde vem o patrimônio que banca tudo o que está sendo ali exibido como símbolo de superioridade. O que importa é criar um ambiente de necessidade daquela experiência ou produto para que nos sintamos parte do seleto grupo dos que sabem aproveitar a vida.
As redes sociais amplificam a quintessência do gosto duvidoso, já que dinheiro está ligado também às celebridades, cada vez mais instantâneas e passageiras, o que nos leva a um novo conceito do dinheiro: ele vem atrelado à comunicação e à capacidade de vender algo para milhões de seguidores sem a exigência de qualidade. Construir riqueza já não exige esforço, dedicação, competência e anos de sacrifício. Basta achar um nicho e buscar divulgá-lo da forma mais criativa e sensacionalista possível. O sucesso até pode ser efêmero, mas não menos rentável.
As grandes fortunas construídas ao longo de gerações já não são objeto de desejo dos emergentes. Trabalhar em grandes corporações, fazer carreira, aprender com os melhores não atrai tanto o jovem que quer fazer fortuna. O que muitos querem para seus filhos hoje é que sejam tiktokers famosos. E assim, o pecado capital da avareza, ligado ao dinheiro, vai se transformando através das gerações. As consequências dele, traduzidas por Paulinho da Viola, no entanto permanecem as mesmas.
Ana Cristina Sampaio Alves escreve desde a infância. Ainda criança, já se considerava uma novelista, mesmo que as histórias fossem um misto de contos de fadas com personagens reais. Escolheu o jornalismo como profissão, o qual a permitiu transitar por todo tipo de texto, desde os mais técnicos até os mais criativos, em diversos segmentos de mídias. Continua explorando a escrita e agora se aventura na literária, tendo publicado alguns contos e dezenas de crônicas. Esse é o gênero em que melhor transita.
Embora não tenha ainda publicado narrativas longas, já participou da edição de coletâneas de contos. Segue buscando aprimorar o texto que emociona e traz reflexão. Participa do Curso Online de Formação de Escritores.