por Matheus Costa
Cresci em uma pequena cidade do interior, quase desértica. Apesar da distância dos grandes centros urbanos, éramos recompensados com pequenos prazeres: o som incessante do vento e dos pássaros, a paisagem livre do concreto cinzento e o vasto tapete do sertão para brincar
Éramos quatro lá em casa: eu, meus pais e o Paçoca. O Paçoca era uma figura à parte; um companheiro de hábitos fixos que concentrava todo o seu afeto em apenas duas pessoas: meu pai e meu amigo, Assis.
Mais do que um grande amigo, Assis era um explorador nato. Para ele, desbravar a selvagem caatinga era gesto tão natural quanto cruzar o próprio quintal. Seu semblante destemido carregava marcas simples, porém inesquecíveis. Ostentava sempre o pingente com a foto da padroeira. Os olhos castanho-claros de brilho intenso eram um contraste perfeito para a pele curtida pelo sol escaldante. E — por fim — o cabelo, ralo e áspero, coroava uma fisionomia de ombros tão largos quanto se poderia esperar de um garoto de onze anos.
Minha mãe desaprovava profundamente minha amizade com Assis. Ela dizia sentir um presságio ruim sempre que o via. Certa vez jurou que a Santa lhe revelara um "mal oculto" escondido no bolso do garoto. Nada, porém, irritava mais o meu pai do que as superstições dela. Sempre que o cerco se fechava contra Assis, ele intercedia por ele.
— Não tamo criando bicho, mulher — dizia, uma veia saltada no rosto. — Não criei filho pra viver enjaulado. Pássaro voa, rio corre e menino brinca. Ponto final!
As conversas quase sempre terminavam assim das vezes que Assis vinha me chamar para brincar depois do almoço. Entretanto, certo dia minha mãe resistiu mais do que o habitual. Percebi uma angústia crescente em seus protestos irritados. Ela segurava contra o peito a imagem da Santa em um gesto de súplica, o que fazia meu pai ficar ainda mais aborrecido.
Mesmo descrente, senti pena dela. Papai era a autoridade final em nossa casa, nada faria ele mudar de ideia. Acho que mamãe também percebeu isso, pois, resoluta, concordou e se retirou para o quarto, onde pretendia continuar suas orações. Qualquer coisa em seu olhar me dizia que ela estava entregando minha vida nas mãos de Deus...
Devo dizer também que eu não era o único alvo de suas preces. Há dias ela rezava pela alma do seu Raimundo, um homem muito querido em nossa comunidade, que falecera recentemente em circunstâncias peculiares.
Deixei minha mãe com suas súplicas e parti satisfeito com mais uma vitória.
Assis estava do lado de fora, escutando tudo. Ele fez um gesto perguntando se estava tudo bem para partirmos e acenei de volta. Em seguida Assis fez uma careta, corri ao seu encontro o mais rápido que pude enquanto tentava ao máximo segurar minha gargalhada para não chamar atenção.
Apesar de tanta animação no nosso encontro, ele parecia diferente daquela vez.
— Pr'onde a gente vai? — perguntei assim que nos afastamos o suficiente de casa. Assis não respondeu de imediato.
— Ei! Tá me ouvindo?!
— Tu confia em mim? — me perguntou, sua voz oscilando.
— Fica de cara emburrada e aí me vem com essa?! Que diabo aconteceu contigo, Assis?
— E-eu... Preciso de ajuda. Ontem eu vi a Pedra Risonha... — não respondi de imediato.
Fora dos limites da nossa cidade, sertão adentro, um paredão ostentava uma pedra cujo formato lembrava uma cabeça humana. Suas ranhuras sinuosas compunham o que parecia ser um sorriso estranho. Era uma expressão que a princípio causava estranheza, parecia tentar reproduzir uma expressão humana, mas falhava por pouco. O que te fazia imaginar que tipo de ser gostaria de parecer com a gente, andar no nosso meio...
O fato é que ninguém ousava pisar na serra que guardava essa pedra. Após uma inexplicável sequência de mortes anos atrás, as autoridades fecharam temporariamente a trilha que levava até lá.
A polícia encontrou uma dúzia de corpos abertos ao meio, as entranhas expostas como carneiros abatidos em um açougue. A perícia concluiu o caso afirmando ter sido obra de um deslizamento de terra, mas para os moradores da minha cidade pouco importava o que a polícia tinha a dizer. Todos tinham suas próprias explicações.
O gentil seu Raimundo foi uma das vítimas daquele lugar amaldiçoado. Segundo se conta, ele saiu de casa dizendo que iria banhar-se no açude local para lavar a alma. Seu corpo foi encontrado dias depois, no mesmo local onde tantos outros haviam perecido: diante da Pedra Risonha. A rocha, com seu característico sorriso satânico, parecia zombar do cadáver inerte.
—Tu num escutou o sermão do padre Antônio?! Pela Santa! Até meu pai tem medo daquele lugar!
— Lilica escapou lá de casa... — respondeu trêmulo. — Vózinha achou um pedaço da coleira dela na cerca de manhã e pediu para procurar a bichinha...
— Arriscou a vida por causa da puguenta, Assis? Tu é um paspalho mesmo. Mas é claro que ela tava só vadiando com os cachorro.
— Tu é um sem coração, né? Deus fez a terra pros cachorro também. Foi papai quem mandou eu ir. Tava com medo de que ela tivesse caçando as galinha dos vizinho. Mas deixa pra lá. Num vô te contar mais nada!
Notei sua face empalidecer. Um longo silêncio pairou no ar antes que Assis reunisse forças para continuar. Tentando me redimir, perguntei:
— Se tu só tava procurando a cachorra como é que foi parar lá? Tu sabe... nem mesmo os animal se aproxima da trilha... Os bicho sabe que tem coisa errada ali.
—Fiquei escorado na cancela de casa com preguiça de ir atrás dela, aí vi os cachorro passar, mas a Lilica não tava com eles. Apertei logo a imagem da Santa no peito. O Bezerra tava dizendo que tinha achado cobra dentro de casa e a Lilica é tão pequena. É daqui pra lá pruma dessas cobrazona engolir ela. Tu sabe que depois da cerca só tem dois caminho. Ou tu desce até chegar no poço perto casa dos vizinho ou pega a trilha. Fui atrás dela na trilha.
Ele fez uma pausa e continuou:
— Fiquei reparando nas beirada da pista procurando a Lilica. Vai que a bichinha tava com sede ou tava cansada dormindo debaixo d'alguma árvore. Mas aí quando eu já tinha andado muito cheguei naquela placa que o povo fala... Tu sabe, né? A que tem aquela mordida.
Acenei com a cabeça, engolindo seco.
— E a Lilica tava perto da pedra?
Nesse momento, os olhos dilatados de Assis pareciam perdidos. O tremular dos seus lábios sugeria que estava à beira de um grito preso na garganta. Ele então mexeu no bolso e tirou algo.
— Tinha uma ruma de sangue perto da placa, e o pelo da bichinha, parecia que tinham tosado ela ali... — disse com a voz rouca — O sangue no chão me levou até isso aqui... Talvez alguém tenha deixado lá.
Ele me mostrou um amuleto que, à primeira vista, parecia um crânio humano. No entanto, apesar da semelhança, não havia nada que lembrasse dentes ou cavidades nasais. As fendas dos olhos estavam preenchidas com esferas brancas, que pareciam vivas, e aquela cor alva... aquela cor me incomodava profundamente.
Era estranho, quase insuportável. Tinha a sensação de que não conseguia determinar para onde aqueles olhos entalhados miravam, embora fosse claramente um objeto inanimado. Mas, inexplicavelmente, senti sobre mim o peso de um olhar diabólico. O impulso foi imediato: procurei ao redor, tentando encontrar algum observador, alguma presença invisível à minha vista.
— Pra quê que tu pegou isso?
Assis parecia tenso, os dedos ainda apertando o objeto com força.
— Quem ia acreditar no que eu vi sem isso, bobão? Vô chamar algum adulto pra ir lá comigo. Lilica ainda pode tá lá.
Ficou em silêncio por um instante, como se estivesse decidindo se continuaria ou não.
— Mas eu não acabei... — murmurou.
— E tem mais?
— Quando tava voltando, desci a serra pela trilha, fiquei cansado e resolvi parar pra dar um cochilo na sombra. Eu já tava longe da pedra... E aí dormi demais. Acordei e já tava escurecendo, abri os olhos agoniado. Foi aí que vi... Quando olhei pro lado tinha um rosto me encarando. Ele... tava sorrindo! Ele sorriu para mim. Sorriu pra mim, sorriu pra mim, sorriu pra mim...
Assis levou a mão ao rosto, tremendo e chorando.
— Corri serra abaixo, até meus chinelo ficaram lá — seus olhos pareceram reviver algo — Socorro! Socorro! Mãezinha do céu!
— Tu só pode tá de brincadeira comigo — eu disse, com uma risada nervosa. — Quase que me pega, desgraçado. Vou te dar o troco.
— Não é mentira! — a voz de Assis agora mais firme — Eu te provo.
— Então prove.
— Tu tem que ir comigo lá. Essa cabeça aqui — ele apontou para o objeto estranho em suas mãos — tem alguma coisa com o que vi na pedra. Eu num vou conseguir se for só, mas se for nós dois... É, se for dois não tem pra ninguém!
— Sei não... O pai vai me matar se souber desse negócio.
Olhei para o objeto nas mãos de Assis e senti um calafrio percorrer minha espinha. Estava levemente satisfeito por ter uma justificativa tão conveniente ao meu favor.
— Sei... — disse ele, sua frustração clara em seu rosto. Em seguida, bradou:
— Pois eu sempre soube que tu era frouxo! — soltou uma gargalhada nervosa. — Eu vou lá só. E quando voltar vou dizer pra todo mundo que tu é um baita de um cagão!
— Não sou frouxo! Tu que é mentiroso!
— Tá me chamando de mentiroso porque tá com medinho de ir — retrucou, com um sorriso de desprezo.
— Se tu diz a verdade, aposta comigo. Se esse negócio aí for mentira, fico com tuas figurinhas, e aí?! — falei, triunfante, certo de que ele cederia a sua farsa.
— Tá apostado — nem hesitou.
Notei que ainda tremia e uma dúvida começou a surgir em minha mente. O que o corajoso Assis que eu conhecia havia visto para amedrontá-lo a esse ponto? Será que existe realmente alguma coisa ali? pensei, mas rapidamente descartei essa possibilidade. "Impossível. Ele deve ter apenas visto uma sombra e pensou ter visto um rosto."
Olhei de soslaio para o artefato que Assis havia me mostrado e, por um momento, senti uma estranha sensação de desconforto. Era como se uma presença diabólica estivesse me observando dele. Por trás daquela face esculpida sem expressão, parecia que um grande sorriso demoníaco se abria de ponta a ponta, como se zombasse de mim.
Acenei para ele, finalmente concordando com sua proposta e indo em rumo a trilha que levava a Pedra Risonha.
— Valeu por vir comigo — ele disse.
Olhávamos constantemente para os lados, vigiando nossa jornada secreta. Não havia cercas ou correntes pesadas proibindo a entrada na trilha, seu acesso era restrito apenas pelas histórias locais, o bom senso guiava pessoas e animais para longe dali.
Quando chegamos em frente à placa que marcava o início da trilha de subida na serra, Assis ficou paralisado. Ele parecia hesitar em dar mais um passo, seus olhos escaneando os arredores em busca de algo. Eu o observei, tentando entender o que o estava prendendo ali.
Finalmente, ele se virou para mim e disse:
— Escuta, não contei tudo pra tu, eu menti sobre uma coisa... — Assis começou.
— Eu sabia! — exclamei, sentindo um misto de alívio e raiva. — Era mentira! Nem vem com desculpa agora, pode ir me dando sua coleção de figurinhas.
— Espera, num é isso! Eu só menti sobre encontrar o rosto depois de descansar na trilha, mas escuta... Existe uma parte que não te contei.
— Essa pedra estranha não foi a única coisa que achei. A Lilica também tava lá. Ela tava com as tripa exposta, tinha mosca voando por tudo que é lado. Tava toda judiada, mas eu sei, era a minha bichinha! Tinha as manchinha no rabo que só ela tinha.
Ele pausou e soluçou enquanto chorava. Depois continuou.
— Cheguei mais perto da carne no chão, espiei a parede e vi... Tinha um rosto sorrindo para mim lá do alto da pedra. Só dava pra ver a cabeça. O bicho tava cobrindo a boca com o dedo dizendo pra eu ficar quieto.
— Meu Deus!
— E tem mais! Agora toda noite alguém fica batendo na porta lá de casa e quando o paizin abre nunca tem ninguém. Ele acha que é os filho da dona Francisca, tu sabe, aquelas peste que mora perto do poço. Mas num é isso não... tá todo mundo com medo depois do seu Raimundo, nem o pai mais desleixado deixa os filhos zanzando nas rua de madrugada. E escuta, eu to marcando no relógio do vô, toda noite a batida é na mesma hora.
— Tu tá endoidando, Assis! — eu retruquei, começando a ficar irritado. — Se num é pessoa, o que tu acha que é? Vai dizer que é as cabras da tua casa que tão batendo na porta?
Comecei a acreditar nele. Isso me deixou preocupado, entretanto ainda tentava sondar se ele não estava apenas brincando comigo.
— Tu num entende! Eu num tô ficando doido! — Assis gritou, seu olhar fixo no objeto. Ele então apontou para o artefato de maneira quase possessiva. — A batida na porta é na mesma hora que esse troço começa a se mexer, eu num tô ficando doido! É como acontece naquelas história, preciso ir lá na pedra devolver esse negócio. Não te preocupa, a Santa vai proteger nóis!
— Por que diabo tu tá com medo de um pedaço de porcelana?! — eu gritei. Tentando desafiar o meu próprio medo, tomei o objeto da mão dele.
— Ei!
Ele correu atrás de mim com uma velocidade inesperada. Antes que eu pudesse reagir, Assis já havia me alcançado. Num impulso, joguei o objeto no chão e tentei quebrá-lo pisando em cima. Para minha surpresa, o crânio não rachou.
Assis ergueu o artefato do chão sem dizer uma palavra. Percebi que nossa movimentação havia chamado a atenção de algumas pessoas. Para o meu azar, uma delas era o meu tio, que estava chegando de carro da cidade grande para nos visitar. Ele me viu da estrada e gritou por mim. Me despedi de Assis, que não disse uma palavra, apenas acenou cabisbaixo com a cabeça.
Senti pena dele. Olhei para trás uma última vez antes de chegar ao carro do meu tio. Assis continuava parado no mesmo lugar. Tive a impressão de ver um sorriso maldito se formar no crânio do artefato e um calafrio percorreu minha espinha. Sentia que nunca deveria ter tocado naquela coisa.
Aquela foi a última vez que vi meu amigo. Ele foi reportado como desaparecido dias depois, assim como sua cachorrinha Lilica. Passei semanas prestando depoimentos à polícia enquanto as buscas por ele eram feitas. Meses depois, seu corpo foi encontrado a alguns quilômetros de sua casa, quando a chuva começou a cair, levando consigo o cheiro de carne em decomposição e atraindo a atenção dos urubus. A autópsia concluiu que Assis foi enterrado vivo, mas as investigações nunca conseguiram identificar um culpado. Uma peculiaridade apontada no relatório era que ele segurava um artefato que lembrava um crânio.
Essa história passou pela minha cabeça rapidamente. Minha mente, em linhas tortas, me dizia que algo naquela lembrança poderia ser importante, hoje, 20 anos depois. Aquela serra, lar de um ser amaldiçoado, era a primeira coisa que eu via todas as noites pela janela ao me deitar.
Havia acabado de acordar com o som da campainha. O relógio marcava 3:05 da manhã. O que alguém poderia querer comigo a essa hora, pensei.
Seja lá quem fosse, sempre que eu me levantava para abrir a porta, não havia ninguém do outro lado. Isso já vinha acontecendo há duas semanas.
A primeira explicação — e talvez a mais óbvia — era a de uma peça de mau gosto. No entanto, descartei a hipótese por dois motivos claros. O primeiro era que meu cachorro: ele parecia tão surpreso quanto eu sempre que eu abria a porta. Ele dormia do lado de fora e era o terror dos entregadores desavisados. Nenhum visitante, por mais silencioso que fosse, passaria despercebido pelo meu atento companheiro. O segundo motivo era a geografia do isolamento: não havia ninguém por perto para pregar peças. Nossos vizinhos mais próximos moravam a quilômetros de distância e, além disso, eram todos idosos. Pouco afeitos, imagino, a esse tipo de travessura.
Por causa disso na primeira noite pensei que fosse apenas um problema na fiação. Minha casa era antiga, herdada dos meus pais, que a haviam herdado dos meus avós. Pelo menos 80 anos separavam a construção da casa do meu primeiro dia como seu proprietário.
Fiquei surpreso quando o eletricista que contratei me garantiu que a campainha estava funcionando perfeitamente. Estava também aliviado porque poderia novamente dormir sem incômodos.
Entretanto isso não aconteceu. Novamente, às 3:05 da manhã, o som agudo característico me assombrou. Como sempre não encontrei ninguém do lado de fora, exceto meu cachorro, abanando o rabo, animado com a possibilidade de um passeio noturno. Não dessa vez, amigão, sinto muito, disse a ele.
No dia seguinte, liguei irritado para o mesmo eletricista. Quando ele chegou, sugeri que simplesmente desativasse a campainha, cortando toda a fiação. Embora não estivesse totalmente satisfeito com a solução, estava convencido de que isso resolveria definitivamente o problema.
E mais uma vez, pontualmente às 3:05, eu escutei a campainha tocar. Dessa vez, em vez da irritação, um medo súbito me aplacou, a adrenalina deixou meu corpo frio. Tentei ser racional, engoli o excesso de saliva e tentei me acalmar.
Devo admitir que levei um tempo até considerar a possibilidade de que estivesse lidando com algum tipo de estresse pós-traumático, causado por noites mal dormidas — que era perfeitamente plausível, dadas as circunstâncias. No entanto, meu primeiro instinto foi muito mais primal: um calafrio percorreu minha espinha, como um dedo gelado deslizando entre as minhas vértebras. Uma ânsia tomou conta do meu peito, como um verme rastejante, enquanto meus membros se sentiam pesados, como se estivessem preenchidos por chumbo. Fiquei paralisado da cabeça aos pés.
Esperei alguns minutos encolhido debaixo das cobertas, tentando me convencer de que tudo não passava de um devaneio. Era impossível que a campainha tivesse tocado. Aos poucos, minha respiração foi se acalmando, e comecei a sentir meus músculos relaxando. Meus olhos, agora mais tranquilos, começavam a se fechar. O transe do sono já se aproximava, como se me arrastasse para o próximo dia...
Então, mais uma vez, o som agudo da sirene eletrônica cortou o silêncio. Desta vez, ele se fincou como uma estaca nas minhas vísceras. Meus olhos se abriram abruptamente e meu coração batia com tanta força no peito que parecia bombear ferro incandescente por todo o meu corpo. Com um salto, me levantei. Olhei para os cantos do quarto, como se esperasse ver algo me observando. Abri até os móveis, procurando intrusos.
Vesti-me rapidamente, desci as escadas em direção à despensa e acendi o lampião. Com pressa, comecei a vasculhar as prateleiras à procura do revólver do meu falecido pai. Me perguntei, por um breve momento, o que ele pensaria de mim agora. Certamente estaria rindo, lá no seu túmulo, vendo-me agir daquela forma.
Ao imaginar isso, concluí que estava delirando. Guardei a arma de volta na prateleira, apaguei o lampião e fechei a porta da despensa. Tudo o que meu corpo pedia agora era um copo de café e um pouco de ar fresco. Caminhei em direção à cozinha, tateando no escuro, tentando encontrar o interruptor, mas sem sucesso.
Estava tudo sombrio. O corredor estreito, abarrotado com caixas de cerveja espalhadas pelo chão, me dava uma sensação claustrofóbica. O teto parecia mais baixo do que o normal, e a cozinha à minha frente parecia ter se distanciado durante a caminhada. Só conseguia ver a pia, iluminada pela fraca luz lunar que escapava de uma fresta no telhado.
Antes que eu conseguisse encontrar meu caminho entre as caixas e atravessar o corredor, o som maldito me atingiu mais uma vez. Mas, desta vez, em vez de um único toque, eram vários, em sequência, como se alguém estivesse apertando a campainha de maneira descontrolada e impaciente.
Meus olhos se arregalaram na escuridão, o pânico me tomou de imediato. Minhas pernas pareciam afundar em um lago de lama enquanto eu corria de volta para a despensa, o ritmo frenético dos toques se intensificando, seguido pelo som ensurdecedor do meu coração martelando meus ouvidos. Tranquei-me na despensa, sentei-me no chão longe da porta, o revólver pressionado contra o meu peito.
A frequência do toque aumentou rapidamente até atingir seu pico. Eu tapava os ouvidos, tentando bloquear aquele som, mas ele se infiltrava como um enxame de vespas, uma sinfonia infernal que parecia durar uma eternidade. Então, de repente... parou, tão abruptamente quanto começou.
Naquele momento, lembrei-me do relato de Assis, e não pude evitar a visão daquela face demoníaca, com seu sorriso maligno, surgindo por trás das batidas. Aquela coisa devia estar me observando durante dias, semanas... Anos? Pelo amor de Deus! Não pude evitar imaginar seus olhos pálidos de demônio, vigiando-me do alto da serra, escondidos entre as pedras, espreitando pela fresta da janela, pela fechadura da porta...
Por alguns minutos, fiquei imóvel, olhando as redondezas. Levantei-me à procura de algo que pudesse me ajudar a escapar. Meus dedos tateavam desesperados pelas prateleiras, tocando objetos aleatórios — chaves, latas de comida, garrafas de vinho, ferramentas, materiais de limpeza e construção. Nada parecia útil. Com um suspiro de frustração, decidi que minha única opção seria bloquear a porta de qualquer forma. Empurrei prateleiras, caixas e objetos com a força que me restava, criando uma barreira improvisada. Então me afastei. Encolhi-me no canto mais distante da porta, o corpo inteiro tremendo... Senti a escuridão ao meu redor se estreitar a cada segundo.
O silêncio que se seguiu pareceu durar horas. Eu olhava fixamente para o revólver no meu colo, sentindo o frio do metal. Me perguntava se ele seria de alguma ajuda em mãos tão vacilantes como as minhas.
Meu estado de alerta transmitiu sinais de perigo quando consegui escutar um leve som vindo da porta, era uma batida. Era diferente das demais então imaginei que talvez fosse a ajuda que eu tanto precisava, mas quem viria para um lugar remoto como esse?
— Quem tá aí?! — duvidei da salvação e esperei por um segundo sinal.
A adrenalina, no entanto, não foi pior do que o próximo som que eu escutei... ao contrário dos demais, tratava-se de uma melodia suave e lenta: o som característico da porta da frente abrindo. Esse foi o pior de todos.
Já fazia algum tempo desde que eu tinha escutado o último som, não era certo para mim se ele tinha sido real ou não. O destino, contudo, não me deixou esperando. A resposta veio quando a porta da despensa foi golpeada com o som delicado que eu escutei da primeira vez.
— O que você quer?! Me deixe em paz! — gritei, a voz desesperada, ecoando pelo vazio em direção à porta. Como um último ato, comecei a rezar — A-ave Maria cheia de graça, O Senhor é convosco...
Escutei uma gargalhada ao longe que roubou a minha voz. Não consegui mais continuar a rezar. O silêncio voltou...
Até que ouvi o som de um único toque delicado à porta da despensa onde eu estava.
Quando não me mexi, seguiram-se dois toques...
Três toques rápidos.
Quatro toques apressados.
Cinco toques pesados!
Seis toques espaçados que fizeram o chão tremer.
Vinte toques descontrolados e, então, o silêncio? Os sons eram claros o suficiente para me dizer o que eu deveria fazer.
Eu olhei para a arma e com o último baque da porta, tudo terminou. Antes que eu fechasse os olhos pela última vez pude ver, escarnecendo do meu medo e do meu fim, estava aquele sorriso satânico.
Bacharel em Física e servidor público, sou cearense radicado em Brasília. Tenho interesse em diversas áreas indo desde jogos de RPG, violão e arte; até ciências, matemática, idiomas e filosofia. Sou também leitor em formação contínua, tenho me dedicado aos clássicos como forma de ampliar repertório. Grande fã de Kazuo Ishiguro e dos épicos de Homero, cultivo há algum tempo o hábito de colecionar poemas.