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Pepe se foi

Pepe se foi

por Alexis Rodrigues de Almeida

Pepe se foi

Catarina estava amuada num canto do quarto quando sua mãe entrou. Lágrimas acompanhavam um soluço baixinho.

— Filha, eu sei o quanto você tá sofrendo. Todos nós também sentimos muito. Se você quiser conversar, eu estou aqui para te ouvir.

— Mãe, Pepe era um irmão pra mim. Meu irmão mais velho. Quando eu nasci, ele já estava aqui. Eu vi todos os vídeos e fotos que vocês fizeram quando eu cheguei em casa. Como Pepe balançava a cauda de tanta felicidade. Como ele cuidava de mim o tempo todo.

— Ah, filha! Realmente ele cuidava de você. Lembro de uma vez que você caiu na calçada, enquanto aprendia a andar de bicicleta. Ele ficou tão agitado! correndo de um lado para outro e depois ficou ao seu lado, lá na cama, o dia inteiro.

Catarina ficou em silêncio e as lágrimas escorreram mais uma vez.

— Por que aconteceu isso com ele, mãe?

— Ele já era bem idoso, filhinha. Você mesma falou que ele já estava aqui quando você nasceu. Na verdade, quando me casei, eu trouxe o Pepe da casa de sua avó. Ele era um cãozinho muito fofo e nos trouxe muitas alegrias antes mesmo de você nascer. Eu o ganhei de presente no meu aniversário de dez anos. Mas chegou o tempo dele. Todos nós temos o nosso tempo.

Catarina endireitou-se, olhou pela janela do quarto e viu alguns garotos brincando lá fora, cada um com seu pet. Sentiu inveja daqueles meninos. Sentiu vontade de mandar eles irem brincar em outro lugar. Por algum tempo mãe e filha ficaram em silêncio.

— Mãe, eu nunca mais vou querer outro cachorrinho.

— Catarina, o tempo ajuda a curar muitas feridas. Algum dia você vai lembrar de todas as alegrias que o Pepe trouxe para nós e talvez nesse dia você descubra que ter um outro cãozinho não apagará tudo de bom que o Pepe trouxe para nós. E quando chegar esse dia, você não só irá querer outro amiguinho, mas aprenderá a amá-lo. E ele te amará tanto quanto o Pepe te amou.

Catarina abraçou sua mãe. O Pepe se fora, mas o abraço de sua mãe era capaz de expulsar a tristeza e a amargura de seu coração. Naquela noite, sonhou com Pepe, com suas brincadeiras e travessuras. Foi um sonho tão bom! No dia seguinte, quando ela acordou, sentiu-se mais leve. O sol da manhã iluminava a luminária de pedrinhas sobre a mesa de cabeceira, parecendo se transformar em centenas de sorrisos coloridos.

A menina ficou por um tempo ainda deitada revivendo as cenas do sonho que ainda permaneciam em sua lembrança. Por fim, levantou-se apressada e correu até a cozinha, onde seus pais estavam. Queria falar com seu pai antes que ele saísse para trabalhar.

— Pai, no meu aniversário eu posso ganhar outro cãozinho?

Os pais se entreolharam, surpresos e emocionados. Ajoelharam-se e abraçaram a filha. Um abraço apertado e demorado. Catarina não precisou ouvir a resposta.
 

Alexis Rodrigues de Almeida

Alexis Rodrigues de Almeida é escritor apaixonado por grandes clássicos da literatura. Autor de alguns contos publicados em coletâneas, explora temas como relações familiares, dilemas éticos, sempre buscando contar uma boa história, que traga reflexão para os leitores de uma forma prazerosa. Participou de diversas coletâneas de contos, e atualmente dedica-se a escrever sua primeira narrativa longa.