por Vilma Toloto
Três pessoas aguardavam na sala de espera da Rede Humanizar. Ruth, uma mulher de meia-idade, estava incomodada porque não conseguia apoiar seus pés no chão. Teve que colocar duas almofadas nas costas para amenizar o desconforto e facilitar o uso do seu tablet. Isabela, uma jovem inquieta com uma mecha verde nos cabelos loiros, conferia a todo tempoas mensagens que chegavam sem parar no seu celular. Joaquim, vestido de terno, digitava freneticamente no celular, só descansando os dedos quando alisava seu vasto bigode.
Num canto mais isolado da sala estava um carrinho de bebê, quase escondido por um grande vaso de cerâmica. O carrinho era rosa-claro e estava com a capota abaixada, impossibilitando visualizar o seu interior. Nenhuma das três pessoas parecia lembrar-se de ter visto alguém empurrá-lo até ali.
O silêncio na sala era quebrado apenas pelo ruído do ar-condicionado e pelos plins do celular de Isabela, que não fez questão de silenciá-lo. De repente, um som ecoou na sala para surpresa de todos: um choro de bebê. Era um choro baixo e contido que nitidamente vinha do carrinho.
Os dedos de Joaquim pararam no ar. Ruth deixou escapar um sussurro incompreensível. E Isabela, por um momento, voltou sua atenção para o carrinho. Os olhares dos três se cruzaram e interrogações sobre o não dito pairaram no ar. - Alguém teria esquecido um bebê? - Onde estariam a mãe ou o pai?
Ruth parecia angustiada, mas mesmo assim desviou o olhar e seguiu mexendo no seu tablet. Isabela organizou seus cabelos, suspirou enfadada e voltou a ler suas mensagens. Joaquim olhou para o relógio, estava mais ansioso com a seleção que iria participar. Ele abanou a cabeça e irritado voltou a digitar.
O choro persistiu, era solitário e ignorado. Entorpecidas, as três pessoas pareciam indiferentes ao que estava acontecendo ao seu redor. Por fim, o painel de chamada da Rede Humanizar sinalizou com um alerta sonoro indicando que os três deveriam se dirigir à sala no. 5, onde seria aplicada a prova de seleção para a vaga de Assistente Social.
Sala vazia, o carrinho no canto, enigmático e solitário, o choro ressurgia de forma intermitente. De repente, surge na sala uma jovem com uma bebê no colo. Ela se dirige até o carrinho, levanta a capota e acomoda a sua bebê.
A jovem retira o celular que havia esquecido dentro do carrinho, já com a bateria fraca e a tela escurecendo sobre a mensagem de alarme: "Choro de bebê — 10 horas". No alerta lia-se: "Dar xarope para a Gabriela."
Vilma Toloto, natural de Ourinhos-SP, é Pedagoga, pós-graduada em Psicopedagogia (PUC-SP) e em Recursos Humanos (PUC-Chile). Desde a infância, encontra na leitura e na escrita um espaço de prazer e crescimento.
Na adolescência, passou a escrever poesias e contos, paixão que segue cultivando e aprimorando por meio de estudos contínuos. Teve experiências no teatro, que influenciaram seu olhar narrativo.
É autora do conto "Cartas que o tempo não apagou", publicado na coletânea "Toda forma de amor" (Editora Metamorfose). Em 2026, finalista da Flip Off, com o conto "A Carta de Celina", e da Festa Literária Internacional de Paraty, com o conto "Domingo", na antologia NÓS 4.