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Porta-joias

Porta-joias

por Carlos Darzé

Porta-joias

 

PORTA-JOIAS

Dante parou diante do espelho antes de descer. Não era de hoje que usava seu charme para conseguir o que queria. Foi assim desde que alcançara certo volume corporal. Aos quinze, seus músculos não só impressionavam pelo que era, mas pelo que haveria de ser. Era uma promessa de homem – pele bronzeada e cabelos ondulados, muito pretos, olhar insondável. O charme esquivo de Dante se infiltrava nas pessoas. Rosa Leonor foi a primeira a notar aquilo; considerava-se visionária.

Naquela manhã de domingo, até seu brilho parecia opaco. O próprio dia o acompanhava na ressaca. A noite anterior tinha sido alvoroçada, véspera do dia das mães, a Casa do Largo tinha recebido alguns dos seus habitués mais ilustres. A clientela era da mais variada – senhoras, donzelas, políticos, donas de casa, artistas, padres, gente de direita e esquerda — e Dante era sacerdotal, não fazia acepção de pessoas. Homem de programa, se dizia, não gostava da palavra "garoto", achava escolar demais para o que fazia. 

Por baixo da camisa branca entreaberta, sua costela latejava. Seu famoso número do 'canivete' no pole dance tinha garantido boas gorjetas, mas também uma luxação. Fosse essa sua única dor, Dante estaria bem. Maio lhe causava uma certa angústia, o segundo domingo daquele mês lhe atravessava como febre. Mesmo de costela dolorida e estômago revirado, desta vez estava decidido a lidar com as coisas a seu próprio modo.

Dante desceu a velha escada de madeira e andou em direção à antessala que Rosa usava como escritório. A dona da Casa fazia as contas da noite anterior, acompanhada de um cigarro e uma xícara de café já fria. Ela foi surpreendida pelo impacto da sacola que Dante pousou no chão.

– Vai treinar no domingo? Deve tá exausto. – disse Rosa sem levantar a cabeça. 

– Tô cansado de outra coisa. 

– Eu bem sei. Olha, se eu não tivesse trocado suas fraldas, até eu teria perdido o juízo - disse tragando fundo o cigarro –, seu número ontem foi realmente de tirar o fôlego, hein, Dantinho? – Rosa aproveitou a fumaça para gesticular no ar. 

Ele não esboçou a mínima reação, permaneceu imóvel em frente à mesa.

– Vim buscar o que é meu.

– Ih, Dantinho, cê sabe que as comissões do sábado só saem na segunda-feira. 

– Já falei pra não me chamar assim, Rosa. – disse o homem irritado. – Você disse que esse ano seria diferente. Bem, eu cansei de esperar! – bradou Dante, num rompante. 

A mulher se virou com urgência, viu o volume ao pé da mesa, não era a sacola do treino de todas as manhãs. Dante apanhou a mala e jogou um envelope na mesa de contas que dizia "Para quem me fez homem". 

– O que é isso? – disse Rosa com voz rouca, dedos hesitando sobre o papel –, você enlouqueceu, criatura?

– Considere um agradecimento, Rosa. Por tudo que você me deu. O resto eu pego lá em cima. 

Dante se virou apressado e atravessou a sala em direção à escada. Rosa o seguiu num susto. Ele marchou rumo ao quarto principal, foi direto ao guarda-roupas, lugar que ninguém jamais se atrevera a abrir. Todos sabiam que o quarto de Rosa era um local proibido da Casa. Dessa vez Dante não se importou, remexeu em tudo como quem desbrava uma mata densa, entre perucas e figurinos exuberantes, revirou gavetas, jogou peças no chão, derrubou frascos de perfume. 

– É mais dinheiro que você quer, Dante? – disse Rosa, arfando, ao entrar no quarto. Ela não tinha a agilidade dele em subir escadas. 

– Você sabe muito bem o que quero. Onde você colocou? – disse, seco. 

Dante apalpou uma pequena caixa de madeira no topo do armário. Sentiu que ali havia ouro. Olhou para Rosa por sobre os ombros. 

– Não se atreva a abrir isso, seu insolente! – disse Rosa, admitindo a importância do objeto.

– Só quero o que é meu.

Dante jogou a tampa longe, remexeu jóias, fotografias antigas, e tirou, do fundo, um papel amarelado, redobrado repetidas vezes. Apertou-o em seu punho, e o trouxe próximo ao peito, a respiração disparada entre adrenalina e comoção. 

Agora sim, seria dono de sua própria vida. 

Rosa viu o papel em seu punho cerrado e ainda tentou segurar-se no batente. Suas pernas cederam. As correntes finas do robe tilintaram no chão frio.

Da porta, o olhar de Dante demorou nela. Como um último toque. 

Finalmente, ele apanhou a mala, deixou o quarto de Rosa pela varanda, desceu a escada de emergência da lateral da casa e desapareceu por entre a mata traseira que daria na antiga estação de trem. 

Pela primeira vez, viveria longe da mãe.

 

Carlos Darzé

Carlos nasceu em Itaberaba, Bahia, em uma família barulhenta, afetuosa e obcecada por comida. Foi em Salvador que iniciou sua relação com a arte. Com formação iniciada nos Estados Unidos e passagem pela Universidade Federal da Bahia, construiu uma trajetória de 20 anos no teatro, atuando como ator, produtor, tradutor, preparador e diretor.

Sua escrita surge da cena: começou criando textos para o teatro e desenvolvendo trabalhos sob encomenda, até expandir sua pesquisa no MPhil em Theatre and Performance no Trinity College Dublin, onde investigou a interculturalidade e memória nas artes performativas.

Hoje, entre Dublin e Salvador, transita pela escrita criativa sem se fixar em um único gênero. Embora ainda pouco publicada, sua produção percorre a poesia, a prosa poética, a dramaturgia e o conto curto ? sempre como campo de experimentação.

Sua linguagem é marcada pela inquietação, pela recusa de formas rígidas e pelo desejo de atravessar gêneros. Interessado por psicanálise e pelas tensões entre culturas, Carlos transforma o cotidiano e os vínculos familiares em matéria de criação, explorando as forças invisíveis que moldam a vida comum.

Acredita na literatura como potência transformadora - uma forma de pensar, deslocar e, sobretudo, reinventar o mundo através da palavra.