por Carlos Darzé
Naquela sexta, Dante, então com 14 anos, ainda achava que a Casa do Largo era um lugar de festas.
Não era de todo mentira. Havia música, havia apresentações, com figurinos e sem, gente interessante entrando e saindo da casa. Todos pareciam sempre muito animados, o que para Dantinho, como era chamado na época, era um prato cheio para suas brincadeiras e imaginação. Dante cresceu achando que Rosa era uma espécie de diretora de teatro, alguém que organizava o mundo para outros se divertirem.
Naquela noite, Dante também só queria brincar.
Do quartinho-depósito dos fundos, – com caixas de enfeites fora de época, manequins sem cabeça e figurinos aposentados – Dante tira uma capa comprida de veludo vinho, com tiras de couro que ele quase não conseguiu fechar, dado seu torso já ter músculos bem proeminentes. Teve de usar sem camisa ou então não caberia. Uma meia-máscara balinesa em seu rosto, e em menos de três minutos havia criado um personagem.
Saiu corredor adentro, passadas largas e confiantes, a capa arrastando no assoalho. Os trabalhadores da casa riam. A governanta, que dobrava guardanapos de tecido branco, largou tudo para assistir à cena.
— Quem é esse senhor distinto? — disse a governanta, entrando no jogo.
— O Conde do Vale Negro — respondeu Dante, com uma voz engrossada, ao mesmo tempo que deu uma meia-volta cheio de pompa e enigma.
Foi quando Rosa dobrou a esquina segurando garrafas de uísque escocês nas mãos. Parou. Olhou o filho dos pés à cabeça. Olhou o relógio na parede.
— Dante, — a voz era seca e sem enfeite. — Tira isso agora e vai pro anexo.
— Ainda faltam vinte minutos—
— Eu não tô perguntando as horas. Vai já, Dante.
Dante trocou um olhar com a governanta. Ela desviou, voltou para os guardanapos. Ele conhecia esse sinal — quando os adultos da casa paravam de ser cúmplices, era porque Rosa estava de mau humor e nem adiantava intervir. Sentiu uma raiva miúda em seu peito. Não era justo. Ele tinha passado a tarde inteira ajudando, remendou bainha de figurino, pendurou enfeites, carregou caixas pesadas de bebidas. Merecia aqueles vinte minutos antes do seu horário de se recolher ao anexo.
Ainda assim, não tirou a capa. Ajustou-a no ombro, já meio murcho, e foi sentar no último degrau da escada que subia para o mezanino — Rosa já havia virado as costas.
A casa continuava sua preparação ao redor dele. Dante observava tudo, a cabeça apoiada no braço direito, seu corpo já quase deitado no degrau. Ainda inventava histórias para o Conde do Vale Negro quando viu a governanta, aflita, abrindo a porta da frente.
Um homem de terno claro, gordo do jeito de quem sempre comeu bem, com um charuto apagado entre os dedos, entrou sem pedir licença. Dante nunca havia visto um convidado da casa. Seu horário limite era às dez em ponto. Os convidados chegavam depois das dez e meia — essa era a regra, todo mundo sabia.
Rosa, que tinha ouvido o sino de algum lugar, apareceu no corredor. Quando viu o homem, algo se rearranjou em sua face — logo compôs, sem transparecer irritação, a anfitriã sensual e poderosa como quem tropeça numa pedra.
— Doutor Cavalcanti, que surpresa. A casa ainda não está—
— Leonor, minha querida, estava na vizinhança, e você sabe que não gosto de esperar. — O homem entrou sem cerimônia. Seus olhos varreram o ambiente e pararam no último degrau da escada.
Pararam em Dante.
— E esse, de onde saiu esse belíssimo Antínoo? — disse o homem, com uma voz cheia de ar. — Quero prioridade, hein, Leonor.
Rosa entendeu o elogio antes do filho. Virou-se irritada, mas precisando disfarçar num sorriso calculado. Dante não deveria tê-la desobedecido.
Assustado, ele se levantou já dando meia-volta, mas sua mãe o chamou e pediu que descesse as escadas. Enquanto ele descia devagar, o torso nu marcado pelas fitas de couro apertadas não passou despercebido ao homem, que o olhava como a um frango na vitrine. Dante sentiu o estômago levitar, de tão desconcertado.
— Ele é uma graça mesmo. Mas ainda é cedo, doutor. — disse Rosa, administrando a situação.
Rosa não pediu que ele fosse para o anexo.
Dante permaneceu imóvel.
O homem sorriu.
Jamais esqueceria a mão do homem, pesada e morna, demorando-se abaixo de seu pescoço.
Carlos nasceu em Itaberaba, Bahia, em uma família barulhenta, afetuosa e obcecada por comida. Foi em Salvador que iniciou sua relação com a arte. Com formação iniciada nos Estados Unidos e passagem pela Universidade Federal da Bahia, construiu uma trajetória de 20 anos no teatro, atuando como ator, produtor, tradutor, preparador e diretor.
Sua escrita surge da cena: começou criando textos para o teatro e desenvolvendo trabalhos sob encomenda, até expandir sua pesquisa no MPhil em Theatre and Performance no Trinity College Dublin, onde investigou a interculturalidade e memória nas artes performativas.
Hoje, entre Dublin e Salvador, transita pela escrita criativa sem se fixar em um único gênero. Embora ainda pouco publicada, sua produção percorre a poesia, a prosa poética, a dramaturgia e o conto curto ? sempre como campo de experimentação.
Sua linguagem é marcada pela inquietação, pela recusa de formas rígidas e pelo desejo de atravessar gêneros. Interessado por psicanálise e pelas tensões entre culturas, Carlos transforma o cotidiano e os vínculos familiares em matéria de criação, explorando as forças invisíveis que moldam a vida comum.
Acredita na literatura como potência transformadora - uma forma de pensar, deslocar e, sobretudo, reinventar o mundo através da palavra.