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Presente Surpresa

Presente Surpresa

por Andreia Santiago

Forte mormaço. O suor escorria pela testa, desenhando sulcos de tensão. Carros passavam levantando a poeira do chão de barro, e o celular queimava minha orelha a cada palavra áspera que dele saía.

— Você é uma mulher arrogante e convencida! Vai se arrepender!

— Me deixe em paz. Nada disso faz sentido. Acabou.

Um nó se formou na garganta, comprimindo o ar, empurrando lágrimas que transbordavam sem pedir licença.

No fim da rua, ao dobrar a esquina, algo mudou.

A voz dele foi ficando distante, dissolvendo-se no espaço, à medida que a brisa da lagoa tocava meu rosto e balançava as folhas do pé de jamelão. O bater d'água dos biguás, garças meditando? O corpo cedeu. Ombros soltos. Desliguei. Um sopro mais profundo me atravessou, e a mão, quase sozinha, guardou o telefone na bolsa.

Agora sim. Natureza? calmaria? paz.

Fechei os olhos. O sol pousava na pele como um afago morno, diluindo o peso que ainda restava. Foi então que senti, atrás de mim, a vibração de um carro — e uma voz.

Quente. Musical.

— Olá! Tudo bem? Quer uma carona? Que coincidência te ver hoje novamente!

Virei.

E ali estava ele.

Tudo nele convergia: olhos turquesa, dentes de neve, lábios de morango, cachos dourados que capturavam a luz.

— Oi? sim? ótimo! — ri, meio sem ar. — Obrigada.

Fui atraída como por um campo invisível, um ímã suave que não se discute, apenas se segue.

— Morar no mesmo bairro dá nisso. É na próxima rua, certo? E as aulas? Quero participar? bom que já conheço o espaço.

— Claro? você vai gostar.

Eu flutuava.

Havia algo no seu perfume, no ritmo da sua fala — uma melodia que envolvia sem esforço. O ar-condicionado acariciava a pele aquecida. Tudo ali era conforto, suspensão?

E, de repente, chegamos.

— Aqui é onde praticamos. Bem-vindo.

— Que massa!

Ficamos ali, lado a lado, contemplando. As lagoas se estendiam, a Barra ao fundo, o mar respirando em silêncio.

— Uma beleza esse fim de tarde? — sussurrei. — Que dia.

— Hoje é meu aniversário. — Ele sorriu. — O que você vai fazer mais tarde? Posso anotar seu contato?

— Ah? parabéns? não sei? pode.

Algo dentro de mim observava.

Salvar o telefone era simples. Mas o interesse na minha noite? aquilo acendeu uma pequena interrogação.

Enquanto ele digitava, reparei com mais atenção. O desenho do corpo, a textura da pele, a precisão dos dedos em movimento? Havia uma presença ali — viva, pulsante — exatamente o tipo que atravessava meus sonhos mais secretos.

— Pronto. Posso te ligar mais tarde?

— É? ahãm.

Apenas confirmei.

Ele partiu reluzente no Renegade preto, pranchas de surf no rack, como se carregasse o próprio verão.

A água morna caía na nuca enquanto eu organizava o encontro inusitado na cabeça. O estômago deu sinal de vida e não tinha nada para comer em casa. Fui até o restaurante de sempre. Matei a fome e prestigiei o show de voz e violão que rolava. Especialmente porque um dos músicos era meu conhecido. Trocamos várias idéias e, no final, o cara da voz se ofereceu para me levar até em casa. Era tarde, então aceitei.

Apesar dos cabelos longos, bem escuros, do rosto desenhado e do vozeirão, o amigo era um falastrão. Não estava gostando do seu flerte. Finalmente, na porta da minha casa, peguei o celular. Ao constatar a hora, também vi a mensagem:

— "Boa noite! Estou a caminho de casa, vizinha. Pensei em passar aí pra te ver."

O coração disparou.

— Sim — respondi, quase sem pensar.

— Preciso entrar — disse ao cantor. — Obrigada pela gentileza.

Bati a porta e corri para organizar o ambiente. Luz indireta, cores, aromas e uma cerveja artesanal no congelador. Tudo pronto.

Acomodei meu corpo no sofá, já convencida de que o sonho poderia se tornar concreto. Uns quinze anos a menos? Minha nossa.

Lembrei da primeira vez que o vi.

O choque.

E agora? ele vinha até mim.

Quando abri os olhos, o incenso já se desfazia no ar. A visão turva. Um quase delírio.

Levantei bem devagar.

E então vi que ele estava no portão.

— Olá? estou aqui há algum tempo. Não quis chamar alto. Está sem campainha.

O frio percorreu a espinha.

E junto dele, um riso nervoso, elétrico.

— Eu? Cochilei?  Entra.

— Posso sentar aqui?

— Claro? quer uma bebida? Stout artesanal. Produção minha. Presente.

— Que delícia? 

Levou o copo à boca com as mãos trêmulas e bebeu um gole generoso.

— Sabe, nesse dia especial, tomei coragem de me aproximar mais.

— Por que você está ofegante?

— Não sei o que está acontecendo?

Estendeu as mãos, tocou meu rosto e beijou.

— Pele macia.

Derreti com o calor dos seus lábios. 

O espaço entre nós desapareceu. Então,  beijamos na boca, espiralando suavemente nossas línguas, numa dança sutil e demorada.

— Aqui e agora? — ele sussurrou — é o presente de aniversário que eu sonho há tempos. Nunca pensei que uma mulher assim pudesse me querer.

Sorri, ainda próxima, respirando o mesmo ar.

— O presente é mútuo. Feliz aniversário.

Nossos corpos se entrelaçaram em carícias profundas, conduzidos por uma memória que não era da mente. E o tempo deixou de existir.

 

 

Andreia Santiago

Andreia Santiago é do Rio de Janeiro. Terapeuta Integrativa com mais de 30 anos de experiência. Produtora de cursos on-line, também é cantora e musicista/DJ, integrando som, arte e cura em suas práticas. Estudante de Baixo e Escrita Criativa.