por Lúcia Halline
Chegara com tanto sono que nem vira a hora direito. Mas era bem cedo porque os pássaros estavam começando a chilrear uma sinfonia matutina. Jogou a mochila no sofá e até pensou em sentar, mas se sentasse, não levantaria. Dormiria ali mesmo em companhia de uma barata que desde anteontem circulava pela sala. É... a casa precisava de uma limpeza que há dias não fazia... Não porque não quisesse. Os dias no presídio estavam tensos após a fuga de dois. Para um trabalho que exigia um nível extremo de atenção, dela pouco restava para empregar em qualquer atividade que fosse.
Morava no Morro dos Prazeres. Que ironia! Um agente penitenciário residente numa comunidade violenta e problemática. Foi o que restou depois de perder quase tudo. Nem dignidade ele julgava ter. Se lhe servisse de consolo, ainda tinha um coração disposto a fazer o bem... Dignidade era uma palavra intensa demais. Além disso, sala, quarto, cozinha e banheiro... e estava de bom tamanho. Os poucos móveis e eletro seminovos davam a impressão de que ali residia uma pessoa organizada. As coisas costumavam estar em seu devido lugar porque ele mesmo fazia questão de arrumá-las. Embaixo da cama, ele guardava uma barra, com anilhas e alguns halteres. Assim, em seu tempo livre, treinava. Tinha televisão, contudo, guardava em si um ódio mortal por noticiários, embora fosse um homem informado. A TV ligada por mais de dez minutos em algum telejornal, deixava-lhe transtornado, a ponto de roer as unhas até sangrar, lançando fora o couro e tudo. Então, assistia algum besteirol ou filme de terror, algo mais ficcional possível. Mercinho detestava qualquer traço da realidade.
Há uns cinco anos conhecera Alcides, um funcionário da faculdade onde estudava Ciências Contábeis. Esse homem contava uns quarenta anos de idade, olhos miúdos, cabelos precocemente grisalhos, entroncado, baixinho. Ele foi a sua maior desgraça. Na época, Mercinho deslumbrava-se facilmente com o supérfluo. Era criado pela mãe, proprietária de um salão de beleza na zona norte. Mimado, tinha tudo o que queria dentro das impossibilidades da mãe, que pegava todo o lucro e entregava ao filho preferido. Como dizem por aí: casa de ferreiro, espeto de pau. Sara descuidava de sua aparência, mas jamais seu filho aparecia desajeitado. Ela possuía traços indígenas, e o que mais chamava a atenção era o comprimento e o brilho do cabelo. Embora as roupas fossem desleixadas, com descostura na bainha, desbotamento nas calças jeans, a beleza dela podia ser vista, de longe. Uma beleza que se manifestava na simpatia, no sorriso largo ao receber os clientes.
Quando perguntavam: "Onde está Emerson?". "Na faculdade. Se Deus quiser e São Sebastião permitir, ele vai terminar, talvez seja até laureado". Ela sabia que não, mas dizia para impressionar as clientes, que se entreolhavam em risadas sarcásticas. Se ela pudesse, ofereceria melhores condições ainda ao seu único filho homem, quem sabe para fazer um curso de Espanhol que ele tanto queria fazer, custearia um intercâmbio ou algo parecido, mas não podia. O que podia oferecer, sem tantos prejuízos, eram as roupas, sapatos, acessórios, estudo... Afinal, o que a família do pai dele iria dizer se o visse desleixado na rua? Viúva, sim; irresponsável, nunca.
E assim, Mercinho foi fazendo dívidas cada vez maiores. A maior de todas elas, foi a compra de um carro. Quando se viu sem condições de pagar o financiamento, recorreu a Alcides.
- Rapaz, a bíblia diz que Deus é fiel e não permitirá que você seja tentado além das suas forças. Você pode dizer não àquilo que lhe faz querer comprar compulsivamente. O que foi dessa vez?
- A mesma bíblia também diz que não se pode cobrar juros altos demais. Ser agiota é coisa de cristão? Quer me doutrinar, seu filho da puta? – dizia em um tom relativamente calmo, chupando um pirulito com uma certa sensualidade, olhando fixamente para o falso profeta. Não confiava na heterossexualidade do amigo e estava sim apelando para uma possível brincadeira gostosa como um jogo de conquista.
- Eu só estou tentando colocar a coisa certa na sua mente. Se você faz a coisa certa, eu não erro. Não é verdade? Mas se você insistir, vou ter que lhe emprestar. Pecamos nós dois e você me conduzirá à mansão das trevas, você e eu, respectivamente.
- Olha, preciso de dinheiro para resolver minha situação no banco. Comprei meu carrinho, mas tô atolado pra resolver umas parcelas lá do financiamento. Sabe como é, né? Tive que quitar a faculdade e não sobrou nada.
- Esses jovens... Olha, Emerson... Corre as más línguas que você tá sem crédito na praça. Não estão confiando em você nem pra marcar uma prova de segunda chamada.
- E quantas vezes lhe deixei na mão? Você sempre foi prioridade.
- Duas.
- Mas isso já faz tempo. Resolvi em seis dias.
- Cara, essa quantia é alta demais. Não vou fazer isso. Que garantia eu tenho de que vou receber? Vai vender o corpo pra me pagar? – riu sarcasticamente, olhando para a boca do jovem, vermelha de doce.
- Ah, ele não vale tanto... Poxa, Alcides... você sabe que minha mãe vai ser indenizada, e sei que ela vai repartir. O que vou receber dentro de dois meses cobre absolutamente todas as parcelas que você dividir e ainda sobra... – Alcides hesitou, girando uma caneta entre os dedos da mão direita. Olhou para os lados e sussurrou no ouvido do jovem: - Passo pra você em espécie mais tarde, no horário de sempre.
Mercinho era matreiro. Pegou a grana, reativou os quatro cartões de crédito, quitou um terço da conta no banco e gastou o restante em um intervalo de dez dias. Trancou a faculdade e, no dia do pagamento de Alcides, sumiu misteriosamente. Porém, para a sua infelicidade, foi visto em uma roda de samba lá para as bandas de Bangu, nas proximidades do shopping.
- Quero a minha grana hoje! – disse firme, sem rodeios, abordando-o, enquanto estava de costas.
- Calma! – nesse instante, Alcides puxou uma arma, sem que ninguém visse, evidentemente. – Estela tá aqui, é a minha irmã mais nova, hoje é aniversário dela. Escândalo aqui não, por favor!
- Quero meu dinheiro!
- A indenização da minha mãe já saiu, mas minha parte só recebo amanhã.
- Maluco, essa grana já saiu há dias. Olha, eu já avisei.
- Mercinho, esse homem de novo? – perguntou a menina aflita.
- Não vou falar mais nada.
Naquela mesma noite, estava com um voo marcado para passar um feriadão em Alagoas. O relógio marcava umas onze horas. Quando Sara, Mercinho e Estela entraram no táxi rumo ao aeroporto, um pseudoassalto foi anunciado por um rapaz de mais ou menos uns dois metros de altura, o qual Mercinho já tinha visto lá pela faculdade e o conhecera pelo cabelo caído nos ombros. Estava usando uma máscara, luvas, mas sabia quem era aquele e, principalmente, por quem estava ali. Levou os cartões, foram forçados a fazer transferências bancárias e, enquanto o taxista e Estela choravam desesperados, o bandido perguntou firmemente, dirigindo-se à cabeleireira.
- Sara?
- Sou eu, moço! Por favor, deixe-nos em... – antes que concluísse, levou um tiro nas costas. O atirador, imediatamente, entrou no carro que estava ao lado e cruzou a esquina. Todos estavam atônitos demais para registrarem a placa do carro. E, assim, Sara ficou impossibilitada de trabalhar. Estela contou toda a verdade à mãe, intrigou-se para sempre do irmão, que resolveu recomeçar sua vida do zero, sem ninguém por perto, cheio de tristeza, vergonha e culpa. A realidade batera à porta.
E, detestando realidades, precisou se reerguer. Até se livrar de Alcides, levou um tempo. Cuidada pela irmã mais velha, apesar de tudo, Sara sentia falta do filho a quem tanto amava, mas ele não tinha coragem de olhar para a mãe depois de tudo. Vê-la sobre uma cama, a beleza esvaindo-se, clientes perdidos, um salão de tão grande prestígio transformar-se em um depósito de cosméticos e secadores de cabelo... O que os vizinhos diriam ao vê-lo chegar lá? "Chegou o amigo dos agiotas!", "Olha, que estúpido!", "Depois de colocar a vida da mãe em risco, aparece aqui!". Jamais iria lá.
Um ano e mio depois do acidente, iniciou-se o processo de procurar emprego. Ainda lhe restava beleza e algumas roupas boas, uns trocados também. Parecia que o sofrimento o havia transformado em um homem mais bonito, contrariando a lógica das coisas. Olhava-se no espelho e era perceptível que estava diante de um homem feito, o jeito discreto e contido que, muitas vezes, a mocidade não evidencia porque simplesmente não existia nos tempos de outrora. Havia tempos que não se contemplara. Ainda restava vaidade, mas uma vaidade regada a arrependimentos. Aliás, levantava, andava e dormia com arrependimentos. Tornaram-se companheiros. Reconhecia que era o preço a ser pago pelas desgraças que causara. Alugara um barracão no Morro dos Prazeres, pegara uns trocados que a mãe depositava a contragosto de Estela e garantia a moradia no aconchego da comunidade. Em pouco tempo, fora aprovado na seleção para agente penitenciário, assim, vivia seus dias.
Na comunidade, não queria saber de ninguém. Limitava seu contato a cumprimentos ou a ajudar uma senhora a trocar o gás quando secava. Nessa mesma casa, só conversava com Miguelito, um menino de uns dez anos, tão ou mais curioso que Estela, quando tinha a mesma idade. Quase sempre quando saía para trabalhar, perto das sete da manhã, lá estava ele, na porta, com os olhos piscando insistentemente, exalando um forte cheiro de lavanda.
- Mercinho!
- Oi, garoto.
- Onde você trabalha?
- Não te interessa, moleque! – disse rindo. Preferia assim. – Vai pra escola não, é? Daqui a pouco perde o busão. Tá "mó" cheiroso!
- Passa aqui mais tarde pra gente jogar uma partida! Ou amanhã, cê que sabe.
- Tá bom.
- Também quero aprender palavras novas em espanhol.
- Está bien!
- Buenos dias! – disse o garoto correndo para a sua rotina matinal.
E por falar em espanhol, Mercinho se considerava um sujeito de sorte. Participara de um bingo de uma das rodas de samba em que frequentava e ganhara quatro módulos de um curso de Espanhol inteiramente gratuitos, incluindo o material. Foi exatamente lá onde conhecera Marina, que era uma das poucas pessoas importantes que ainda permaneciam em sua vida. Ela não sabia de tudo sobre o seu passado. Apenas o suficiente para ficar. E ela ficara. A vida real era menos dura com ela por perto. A intenção não era romper a barreira da amizade, mas se viu pensando nela mais que o habitual para um amigo. Marina tinha um namorado altamente prejudicial à vida dela. Mantê-lo longe dela era uma questão de honra, sem segundas intenções. Na coleção de atropelos, não queria ser mais um na vida dela.
Todas essas divagações o perturbavam durante o banho. Banho de cuia, com água fedendo a ovo. Depois de vestir uma bermuda e se olhar no espelho, o celular começou a tocar, mas não quis atender. Tocou duas, três, quatro vezes. Atendeu com raiva a chamada de um número não salvo. Era Estela, com voz embargada, para dizer que Sara queria vê-lo para dizer algo.
- Só tô te ligando porque a gente tá no hospital e... ela tá com uma infecção respiratória. Depois daquela bala, a saúde dela nunca mais foi a mesma.
- Há quanto tempo isso?
- Uns seis dias. Mercinho, não tem muito o que fazer. Se você não vier logo, pode nem dar tempo. Por mim, eu nem olhava na sua cara. Venha, por ela...
O coração gelou. O que dizer a ela depois de tudo? Andou, de um lado pra o outro, suou frio, não sabia o que fazer. Meia hora depois, vestiu uma camisa, calçou os tênis e saiu. Mas foi tarde. Ainda na recepção, foi informado de que a senhora Sara Amorim da Silveira tinha ido a óbito. O chão fugiu-lhe dos seus pés. Viu a irmã de longe, a qual virou-lhe as costas. Não quis chegar perto. No percurso de volta pra casa, sentiu-se o mais infeliz de todos os homens. Havia perdido a chance de se perdoar, de olhar nos olhos da mãe pela última vez e, quem sabe, viver sem peso. Antes, já se sentia morto; agora, definitivamente enterrado. A pessoa que mais o amou na vida, tinha partido sem despedida. Subiu as escadas do morro desolado. Na porta de casa, respirou fundo. Miguelito, que jogava bola, viu-o de longe e foi ao seu encontro.
- Teus olhos estão vermelhos. De onde tu veio? – não obteve resposta. O menino virou as costas e saiu.
Entrou em casa e chorou bem baixinho, deitado ali no mesmo chão. Chorou muito, muito mesmo, intensamente. Até que ouviu alguém bater à porta. Antes que pensasse em abrir, Miguelito entra lentamente.
- Eu fiquei preocupado. Se você quiser, eu fico aqui pra você não dormir sozinho. Posso te dar um abraço? Juro que não tô fedendo.
Mercinho chorou mais ainda, ali mesmo, no chão.
Miguelito arregalou os olhos porque nunca tinha visto alguém chorar tanto sem dizer o porquê.
- Buenas noches! – disse o menino, virando as costas para ir embora.
- Miguelito! – balbuciou Mercinho, com a voz entrecortada.
E em um terno abraço, caía todo o peso da vida.