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Quase sem querer e outros devaneios - parte I

Quase sem querer e outros devaneios - parte I

por Lúcia Halline

Quase sem querer e outros devaneios - Parte I

Até àquele momento eu não sabia por que estava ali. Ah, tudo bem que eu recebi o telefonema do Beto, que queria negociar com um bom fotógrafo e blá blá blá. Mas eu já estava escaldado com as inúmeras ligações que recebi e nunca era contratado. Olha, eu juro por quem quer que seja que se eu ouvisse mais uma vez a merda daquela frase: "Gostei do seu trabalho. Vou falar com o meu chefe e depois te ligo", eu mandaria ele se familiarizar com os outros fotógrafos pra ele ver que entre todos, eu era o melhor. Prepotência não; apenas falo a verdade e não vou dar um sorriso amarelo e dizer que sou um profissional medíocre. Eu sou muito bom, meu currículo é invejável e o meu vacilo foi voltar para o interior. Deveria ter permanecido lá, ainda que os custos fossem maiores. Mas troquei o certo pelo duvidoso e agora tô aqui, desempregado, vivendo de economias na casa de tia Vera. Vamos ver o que essa entrevista iria me proporcionar.

Estava eu no quarto andar de uma agência de publicidade. O corredor onde eu fiquei era longo, tinha uma infinidade de cadeiras, mas só eu estava lá esperando por Marcelo, que era o responsável pela filial na cidade. Ele mesmo me ligara e me receberia também. De vez em quando, uma das moças de cortesia, passava e me oferecia um cafezinho. Detesto café! Quem tiver seus cafés não escondam de mim. Tomem e vão para o raio que os parta! Droga de café! Eu queria ser entrevistado logo e ir embora dali. Não era impaciência. Marcelo é que estava vinte minutos atrasado e o relógio já marcava 15:20, quase a hora de fechar. Subitamente, a porta abre e uma loira farta de comissão de frente saíra da sala. Ela me cumprimentou com um boa tarde, enquanto Marcelo dava um jeito na gravata.

- Boa tarde. Você deve ser José Eduardo. – balancei a cabeça afirmativamente fiquei de pé. – Desculpe a demora, é que eu estava orientando a estagiária. Ela ainda é lenta para executar algumas funções.

- Claro, compreendo perfeitamente – disse para parecer uma pessoa séria ao menos uma vez na vida.

 

A entrevista foi rápida e gostei do cara: sem meios-termos, intrépido e claro. O projeto duraria um ano e, consequentemente, meu trabalho também. O salário atraente já daria para trocar meu moletom só com o primeiro pagamento. O problema foi eu ter esquecido um documento importante e Marcelo precisaria dele naquele mesmo dia, pois à noite teria que repassar os dados de todos os contratos da empreitada ao superior regional e idealizador do projeto, para uma análise curricular mais acurada. Teria que ir rápido em casa e voltar. Ele e a loira gostosa fariam hora-extra hoje, sendo assim, daria tempo de ir e voltar. Ainda assim preferi agilizar. Peguei o elevador e antes de ir pegar a minha moto no estacionamento, fui ao refeitório beber um pouco de água. Aproveitei e fui ao banheiro também; prender o mijo é algo desesperador. Mas ao fazer o percurso de volta ao estacionamento, eu a vi. Ela estava com uma camiseta branca, salto mais ou menos alto e o vento batia no cabelo dela... o cabelo tinha crescido... e olhe que tínhamos nos falado pela última vez havia uns quatro meses, não era tanto tempo assim. Estava sentada à mesa do refeitório, parecia perturbada, com uma mão na testa e outra no abdome. Eu tinha que passar por aquele corredor, não havia outro caminho e tudo o que eu não queria era ver Marina, muito pelo contrário, queria que ela sumisse pra sempre, se ela me fizesse esse favor, eu seria o homem mais satisfeito do mundo. Encostei-me na parede, soltei os braços e fiquei esperando ela ir embora, e de preferência, que não me visse ali parado. Encostei a cabeça e inclinei levemente os joelhos; não sei por quanto tempo fiquei ali, mas um momento não vivido perpassou meus pensamentos, suspirei fundo imaginando uma vida com Marina. De repente, meu celular toca e eu quase saltei de tão assombrado. Era uma mensagem de texto; acabei nem lendo. Pus o celular no bolso e ao olhar novamente para a mesa, vi Marina se contorcendo na cadeira, com as duas mãos na região pélvica e a cabeça baixa, testa encostada na superfície gelada daquela mesa, chorando. Meu coração bateu devagar, três vezes, como um tambor de banda marcial quando marca um ponto (sim, eu toquei em banda na época da escola e não tô nem aí para o que você pensa), depois acelerou consideravelmente, galopando na linha tênue entre a frieza e um sentimento. E agora? Sua lazarenta, infeliz, infame, o que é que eu vou fazer? Eu deveria deixar você cair desse banco com a cara no chão, quebrar todos os dentes ou meter a cabeça na quina da mesa... mas eu te amo, sua cretina! Eu te amo muito...

Quando dei por mim já estava correndo para ver o que ela tinha e naquele instante eu me senti um verdadeiro idiota, um idiota irremediavelmente apaixonado por aquela mulher. Me agachei próximo a ela e balbuciei:

- Marina, o que é que cê tem? – tomada por um susto ela ergue o pescoço e me encara com um olhar fuzilador. Enxugou as lágrimas, mas inutilmente, pois a dor parecia ser tão forte que segundos depois mais outras rolaram pelo rosto.

- Não te interessa. Me deixa em paz.

- Deixa de marra. Eu quero te ajudar. Onde é que dói?

- A minha cabeça é que tá doendo desde que eu parei pra olhar na tua cara e te tratar com educação. Olha, valeu pela preocupação mas eu já tô melhor, tá passando e vou embora, tá?

Marina levantou-se rapidamente sem nem olhar na minha cara e deu uns cinco passos frustrados. Sem sucesso naquela fuga descabida, parou sem conter a dor, ajoelhou-se como em penitência, com as mãos na barriga.

- Você não tem querer. Vamos para o hospital agora.

Já sem alternativa e sem resistência no corpo, peguei-a nos braços e saí procurando o vigia corredor afora. O primeiro que avistei, um senhorzinho de meia-idade, estabeleceu contato com a enfermaria, que mandaria a ambulância em cinco minutos. O corpo magro de Marina estava gelado e o choro tímido convertera-se em desespero. Dentro do veículo, eu olhava para ela tentando transparecer um cara tranquilo, mas eu estava destruído de preocupação. Atrevidamente, minhas mãos procuraram as dela e tudo que eu dizia era que ficaria bem. Ela nada dizia, apenas balançava a cabeça em um gesto afirmativo. Há gestos que são bem mais significativos que mil palavras de carinho, e aquele contato entre as nossas mãos representava muito pra mim... pra nós... Eu sentia que estava prestes a me decepcionar mais uma vez, aliás, cheguei à infeliz conclusão de que a vida sempre dá um jeito de me aproximar de Marina, de ficar doido por ela, a ponto de não me importar com nenhum outro contato do meu telefone ou convite para sair. Ela é daquelas que me faz cancelar qualquer encontro com os amigos para estar com ela em um sábado à noite no terraço de casa sem que nem me peça nada, pelo simples prazer de estar ali, apenas... Era uma espécie de evocação da minha alma, uma necessidade de estar com ela. Até ela vacilar comigo e eu ficar na lama sentimental. Logo eu que sempre fui tão durão, estar sofrendo como um adolescente de high school. Já duas vezes que ela vacilara comigo e sentia uma terceira se aproximando... ou não. Eu precisava ser forte para fugir de mais uma cilada... não tenho estrutura emocional pra determinadas coisas e olhe que eu já passei por maus bocados.

Marina entrou no hospital com náuseas e calafrios e foi encaminhada para o atendimento, permanecendo lá por uma hora mais ou menos. Só naquele momento tinha me dado conta de que tinha deixado Marcelo esperando; liguei várias vezes, mas caía na caixa postal. Minha moto tinha ficado lá também... Caramba! Perdi um emprego por causa de quem? Aquilo já estava virando hábito. Afinal de contas, a primeira vez que nos separamos foi por causa disso: eu cancelei uma viagem para filmar um documentário porque ela estava precisando de mim naquela semana. A viagem poderia esperar, pelo menos era o que eu achava... Fui correndo ao apartamento dela assim que ela me pediu pra ir lá. Tinha que ser quase na hora do meu voo; decidi cancelar e marcar para a semana seguinte, já que eu iria um pouco antes para participar das reuniões de praxe. Quando o síndico disse que ela tinha acabado de sair quase tive uma síncope de tanta raiva. Não pude marcar meu voo, perdi um documentário poderoso e uma grana preta por causa dela... A sala de hospital nos faz refletir feito um corno no bar, entre um gole e outro. Eu era um otário... perdoei, voltamos a nos envolver, a fazer mil planos, até ela dar trela pra o boy do curso de espanhol. Percebi que tava sobrando e caí fora, nem satisfação eu dei. Eu avisei que não gostava daquele cara, mas ela parecia envaidecida com a situação, apesar de eu ver que ela parecia me amar. Mas pra que tantas selfies na rede social com aquele boy?

E ali estava eu, como sempre... o tal do homem apaixonado é um patético e eu era o presidente do clube. Fiz uma ligação pra mãe dela e pedi pra ela ir, pois assim que o diagnóstico do exame saísse, eu iria voltar pra empresa, pegar a minha moto e ir pra casa. A mãe dela me adora, velho...Assim que encerrei a ligação, o médica estava em minha frente. Marina tinha uns cálculos renais e precisava de uma cirurgia urgente. Perguntei se ela estava bem, mas o nefrologista foi enfático:

- Rapaz, demos um antibiótico fortíssimo e o organismo dela não reagiu. A dor é quase insuportável e ela está sem forças. O cálculo dela já tem pouco mais de 2 centímetros, está no ureter e por isso precisa ser removido. Não se preocupe. Vai dar tudo certo. Só precisamos da autorização de um familiar para liberar a cirurgia.

Eu poderia ir pra casa assim que D. Elza chegasse, mas não conseguiria dormir sem saber notícias de Marina. Tá, tudo bem... eu poderia ligar pra mãe dela e mandar uma mensagem depois de uma semana quando tivesse tudo bem, mas eu queria estar ali. Pra ela não faria a menor diferença eu estar ali ou não, mas eu reitero: - Eu sou um patético, que ama Marina. Eu não era muito de rezar, mas comecei a pedir que as coisas dessem certo. Quando D. Elza chegou, disse que Marina sabia da litíase renal e se tratava, só que nada surtia efeito. Até nisso minha Marina é ruim: resistente, dura, rim ruim...

- Meu filho, vá pra casa descansar. Você já ajudou muito.

- Só vou depois que eu trocar duas palavras com ela e ver se realmente está bem. – ela começou a me olhar com cara de pena e eu levantei pra tomar uma água. Sentei na poltrona e inclinei a cabeça, levantando na hora em que D. Elza começou a falar.

- Sabe por que vocês discutem tanto? Porque são muito parecidos: dois errantes, orgulhosos, que percebem o erro e dificilmente perdoam. Vocês se amam muito.

 

Vai ver que ela tinha razão. Desliguei o celular e naquela poltrona mesmo eu dormi. Quando acordei passava das quatro da manhã e eu estava completamente desorientado. Perguntei à recepcionista sobre a paciente do 301 e ela informou que Marina tinha acabado de acordar. Fui vê-la. Estava no soro junto com D. Elza, que saiu assim que cheguei. Eu me sentia sujo, mas ainda assim me aproximei, procurando não demonstrar aquela vontade de cuidar. Peguei na mão esquerda, que apertou a minha. Deu um sorriso.

- Como você tá?

- Viva. Obrigada, Du. – era incrível como ela me desarma sem o mínimo esforço. – Du, a gente precisa conversar. Acredita em mim.

- Não, Marina. Você não pode falar. Vai lhe fazer mal...

- Mas...

- Não insiste. Eu só vim aqui pra saber se deu tudo certo. Na verdade, eu tô aqui desde ontem.

Nesse instante uma lágrima correu, caindo no ombro direito dela; eu soltei sua mão e engoli todo o meu repertório linguístico e sentimental, que por um tris não era expresso da forma mais simples e sublime possível, como sempre fui, sem meio-termo.

- Por favor, me escuta...

- Tchau, Marina. – saí correndo, parecendo um fugitivo. Na verdade, eu sou um fugitivo de mim mesmo. Peguei minha moto na empresa, o mesmo vigilante me perguntou pela moça estagiária.

- Que moça? – perguntei, meio desnorteado.

- A de ontem, que passou mal. Ela veio dar um recado a uma funcionária amiga dela, e saiu naquele estado.

- Ela tá melhor que eu, seu Zé. – respondi, deixando o senhor confuso. Dei partida na moto e fui ver o mar. Ele estava calmo; eu não. Joguei os tênis, pus a camisa nas costas e sentei na areia.

Chorei. Naquele dia fui forte. Naquele dia enterrei Marina para sempre.

Ah, desculpa cara. O áudio foi extenso, mas espero que você tenha entendido porque fiquei tão ausente nas últimas semanas. Apaga isso aí depois. Vai que cê encaminha por engano pra um outro contato... Tchau, seu cretino.

Lúcia Halline

Professora, escritora, cristã e pernambucana. Amo música, teatro, novelas antigas e café. A escrita me move, me completa e me mantém viva.