por Lúcia Halline
Definitivamente, eu não estava bem. Pernas dormentes, uma dor de cabeça iminente, vontade de não sair de casa, de voltar a dormir... Foi só chamar o motorista do aplicativo, para sentir a menstruação descer. E desceu com força! Tive que me lavar rapidamente, me trocar e sair. A terapia é sagrada, ainda mais para uma pessoa sem religião e sem tantos amigos-irmãos. Sem um deus para despejar todas as nossas misérias e sem amigos confiáveis para dar uns bons conselhos, fica tudo mais difícil.
Subi. Fiquei na sala de espera aguardando a pessoa sair. Saindo, a próxima seria eu. Enquanto isso, ficava ali olhando alguns quadros da parede. A decoração estava linda para uma sala tão pequena. Todas as vezes em que planejava uma vida com Edu, eu pensava em uma decoração como aquela. Havia uma luminária perfeita na mesa da recepção. Pensou em tirar uma foto. Deixou para lá.
- Oi, Marina. – cumprimentou a terapeuta. Era uma mulher bem alta, preta, do cabelo cacheado.
- Pode se sentar ali na poltrona ou deitar no sofá. Fique à vontade. Este espaço é nosso. – ela cruzou as pernas, começou a conversar umas amenidades, as quais nem lembro mais. Depois de uns minutos, acomodei-me melhor, tomei um pouco de água, respirei fundo e ela falou:
- Meu nome é Lorena Vegas, mas talvez com o passar das sessões você me chame de Lore. O que te traz aqui Marina?
- Três remédios tarjas pretas por dia, um cara chamado Eduardo e meus arrependimentos. Posso te chamar de Lorena? Se eu lhe chamar de senhora, não vou me sentir à vontade, vai dar a impressão de que eu tô conversando com a minha avó ou minha mãe.
- Claro.
- E então... eu me submeti a uma cirurgia há mais ou menos uns três meses, voltei a trabalhar tem uns trinta dias, mas meu problema mesmo é no coração, Lorena. Você quer que eu comece falando de como eu cheguei a tomar remédios de nervos ou sobre Eduardo? Aliás, eu vou começar por Eduardo, é melhor... acho que ele é a raiz de tudo.
- Como quiser.
- A gente se conheceu quando ele chegou aqui na cidade. Sabe aquelas pessoas que a gente sempre encontra no mercado, saindo da academia ou indo à farmácia? Pois bem. Assim nos conhecemos. Ele tomou a iniciativa de falar comigo, de me cumprimentar, de me chamar pra o cinema. No começo eu achei que tudo estava indo rápido demais, mas era só ele se afastar por dois dias pra eu sentir falta dele. Foi nesse momento em que eu descobri que sentia algo especial. Eu também tive medo de que ele fosse embora da cidade, até porque, pelo que eu entendi, ele estava ali em busca de emprego... ele é bem batalhador, daí eu pensei: preciso aproveitar, não posso esperar. Ele também quis e... aconteceu. A gente começou a namorar. Tudo corria aparentemente bem até eu perceber que ele era meio estressado, meio grosseiro, não gostava muito de ouvir.
- Mas você não percebeu antes, na fase das conversas, dos flertes? E em que momento você se deu conta disso?
- Eu não percebi de imediato, mas depois que nós assumimos o compromisso, ele passou a não prestar mais atenção nas minhas falas, estava sempre agoniado e, o que mais me irritava, era a maneira dele resolver as coisas... era completamente diferente da minha... Apesar de eu nunca julgá-lo por aquilo, ele sempre debochava da minha maneira de ver as coisas, de resolver. Eu detesto deboche, eu não suporto isso, e todas as vezes em que ele se sentia chateado ou se fosse contrariado, ele demonstrava falando palavrão, ficava bicudo, fazia chantagem e drama. A gente passava uns dias sem se falar, mas nunca passamos mais de três dias brigados. Uma vez, ele bateu tão forte na mesa quando discutiu com um amigo, que acabou cortando a mão. Fui pedir pra ele ficar calmo, e ele ficou alterado comigo. Daí eu não aguentei mais. Naquele dia era terça, lembro como se fosse hoje. Eu tenho curso de espanhol toda terça, por volta das quatro da tarde. Nesse dia, cheguei mais cedo e fiquei na sala de estudos chorando. Chorei tanto, que nem havia mais lágrimas pra derramar. Eu tenho esse problema comigo de não tomar água. – riu, olhando fixamente para uma estante no fundo da sala. - Aí as lágrimas secam facilmente... Até que chegou Emerson. Ele é da minha sala. Na época estávamos no mesmo módulo e entramos em um acordo para falarmos em espanhol sempre que nos víssemos, para treinar o idioma. Nas redes sociais, escrevíamos um para o outro em espanhol, coisas assim. Nos tornamos amigos. Ele é uma das pessoas mais humanas que eu conheci. Naquele dia, ele me viu em um estado tão deplorável, que me deu um abraço. Foi a primeira vez que Mercinho tinha me abraçado. Mas não foi um abraço qualquer. Foi um abraço tão fraternal, que eu pude ouvir, pela primeira vez na minha vida, anjos cantando. Foi um abraço quente, confortante, cheio de cuidados. Eu não vou saber lhe dizer quanto tempo durou aquele abraço, mas foi o tempo suficiente para eu me sentir mais tranquila. Não assistimos aula.
Ele me deixou em casa, esperou eu tomar um banho, vestir meu pijama, calçar as meias e ir para o sofá. Naquele momento, eu vi meu celular vibrar. Era Edu. Eu não quis atender, e Mercinho fez o "favor" de atender.
- Ei, malandro. Aqui é Emerson. Sou amigo de Marina. Olha... não liga pra ela hoje não. Deixa ela dormir em paz, seu idiota! E se eu souber que você fez Marina chorar de novo, eu faço questão de falar pessoalmente contigo. Eu sou doido o suficiente pra te chutar que nem um pacote de lixo. – e desligou.
Eu tentei evitar aquela situação, mas não consegui. Quando dei por mim, ele já tinha despejado tudo. Se foi uma boa ideia, eu não sei. Só sei que depois daquilo, eu dormi no sofá, no colo de Mercinho. Só soube quando ele já tinha ido, por uma mensagem no celular... Depois daquele dia, Edu me procurou, e fizemos as pazes mais uma vez. Foi um período de paz. Mercinho não gostou da ideia, mas fez questão de conhecer Edu. Até saímos umas vezes, só que tudo voltou a acontecer de novo.
Estávamos no terraço da casa dele, a tia dele estava até por perto e começamos a conversar sobre vida estável, independência financeira e, de repente, começamos a brigar. Isso porque ele dizia que se pintasse algo no exterior, ele iria trabalhar como fotógrafo. Mas quando eu disse que, caso surgisse uma oportunidade pra mim, eu iria, ele não concordou. Disse que eu era bonita e talentosa e talvez nunca mais voltasse. Sabe quando a paciência esgota, Lorena? A minha esgotou. Eu senti minhas bochechas quentes, meus olhos lacrimejando. Ainda assim, me segurei pra não ser agressiva. Saí. Fui para casa. Quando a situação aperta e o cerco se fecha, eu não sei lidar com nada, eu não sei lidar comigo mesma. Faltei ao curso de Espanhol, saí de todas as redes sociais e evitei Edu o máximo que pude. E esse evitar é carregado de dor, porque eu morria de saudades.
- Lidar com a dependência emocional é bem doloroso, mas torna-se ainda pior quando o relacionamento é carregado de maus-tratos e abuso.
- Um dia eu estava dormindo, era mais de nove da noite, e Mercinho chega lá em casa. Ao abrir a porta, não consegui falar nada. Fiquei constrangida por dar um perdido em tanta gente. Eram mais de vinte dias sem ir ao curso, no modo avião pra muita coisa na vida... Ia ao trabalho a pulso... tinha que ir... Baixei a cabeça e virei. Ele fechou a porta devagar, levantou a minha cabeça e me abraçou daquele mesmo jeito lá da sala de estudos. A sensação foi a mesma. Todas as mazelas tinham ido embora... conversamos por alguns minutos. Ele não pôde ficar por muito tempo porque tinha saído do trabalho e estava exausto.
Ah, esqueci de te dizer que Mercinho é agente penitenciário, trabalha a cinco quadras daqui. Mas naquela noite rolou um beijo, que pra mim, foi o motivo de um dos meus arrependimentos. Eu estava decidida a contar tudo pra o Edu, estava me sentindo desleal, confusa. O que eu não sabia era que no dia que eu pedi pra ele ir na minha casa pra eu abrir o jogo e falar a verdade, ele estava com um voo marcado naquela mesma hora. Foi pa pum: mandei o recado e ele foi bater lá no AP. O problema é que eu saí de casa porque faltou coragem. Nem eu contei a verdade, nem ele segurou o emprego no exterior, a oportunidade que ele tanto queria.
Desse dia em diante não tínhamos nos visto mais... nos afastamos... eu fiquei com muita vergonha, muita mesmo. Quando nos vimos, foi na agência publicitária. Fui falar com uma pessoa lá e ele estava também. Ele acabou me socorrendo de uma crise nos rins. Depois desse dia, eu não tive paz. Eu esperei a recuperação da cirurgia e entrei no primeiro bar que vi na frente. Bebi todas. Bebi tanto, que fui levada para casa não sei como, nem por quem. Vivo hoje a base de três remédios controlados, chás e mil recomendações.
...
Na verdade, Lorena me falou o que eu já sabia, sendo que de uma maneira diferente, mais reflexiva. Talvez esse seja o diferencial do tratamento terapêutico. Parecia que havia tirado trinta quilos das costas, apesar de me deixar com umas cinco dúvidas sobre mim mesma. Deve ser alguma estratégia para eu voltar lá ou, talvez, eu só conheça mesma o terraço da minha própria existência. Os demais cômodos... eu pensava que conhecia.
O fato é que tudo aquilo deu até vontade de andar nas ruas. Resolvi entrar em uma loja. Escolhi uns três shorts. Provei e pedi para embalar. Nesse meio tempo, senti um perfume familiar, vindo do meu lado. Olhei. Era D. Vera, tia de Edu. Eu queria fingir não conhecê-la, para evitar um encontro, um diálogo, por mais despretensioso que fosse. Mas não teve jeito.
- Querida, quanto tempo! Há meses que eu não lhe vejo, e você me deve uma visita.
- Pode ficar pra outro dia? É que eu tenho um compromisso agora.
- Esse compromisso é inadiável? Espero que não. Vamos pra casa. Hoje estou chique, de carro. Tem uma pessoa lá fora que me trouxe para dar um passeio. Se você realmente puder, será agradável tomar um café, colocando os papos em dia. Meia hora é suficiente. Vamos? Não vai custar... Não precisa ter medo.
- Tudo bem... se não for demorar muito, podemos ir sim. – falei hesitando. Peguei minha sacola e fomos para o lado de fora.
- O carro é aquele ali. – era um Punto 2013, branco. Ela foi na frente, entrou no banco do carona, e eu no banco de trás. Ao olhar para frente, vi Edu ao volante. Quando estamos diante de fortes emoções, temos duas impressões: a de que o nosso coração acelera ou a sensação de que ele parou de bater. Tontura e suor frio. Eu senti tudo ao mesmo tempo. Não era medo. E ao mesmo tempo era. Não era satisfação, e ao mesmo tempo era. Estava quase do mesmo jeito, magro, cheiro de perfume barato, barba feita. Ele não sorriu. Apenas me deu um "oi" e continuou sereno. Ao passo que o carro fazia o retorno, D. Vera falava algo, mas não me recordo bem o que foi. Não conseguia responder nada. Tirei meu celular da bolsa e mexi, na tentativa de forjar um imprevisto para descer do carro. Mas D. Vera foi mais esperta.
- Bom, eu vou ficar por aqui. Preciso resolver as minhas coisas. E vocês têm muito o que conversar.
- Eu não tenho nada a falar com essa mulher. Você quem ofereceu carona, que dê um destino a ela. A menos que ela tenha algo a me dizer.
- Muito menos eu. Eu quero descer daqui imediatamente. – tentei abrir a porta, mas era em vão. Estava travada. Eu senti o suor pingar e escorrer pelos meus dedos da mão direita.
- Se o plano é ficar em casa, eu te deixo lá, desde que não me dirija a palavra durante o percurso.
- Pode me deixar aqui mesmo. Eu pego um carro de aplicativo.
- Que carro de aplicativo o quê? Pode ficar aqui. Eu não vou fazer nada contigo. Tá desconfiada ou não quer que o seu namoradinho, Mercinho, te veja saindo do carro comigo? Cala a boca e fica quieta, senão eu vou começar a falar coisas que não quero.
Era tarde. Eu estava em uma crise de pânico. A única coisa que eu lembro nitidamente é de ter começado a gritar pra sair dali. Depois, acordei no conforto da minha cama, no frio do ar condicionado, suja de sangue de menstruação e completamente desnorteada, sem saber se era dia, noite, domingo, terça, quinta, mas constatando o pesadelo recorrente que minha vida tinha se tornado.