×

QUEDA

QUEDA

por Carlos Darzé

 

abro a geladeira. é manhã pequena

alcanço o pote de ovos

entre o ventinho frio e o salsão

seguro delicado, tropeço o midinho na haste 

deixo o ovo cair no chão.

gosma transparente e bola amarelo-ele

partida sobre o porcelanato cor de algodão.

...

...

logo eu, que sempre fiz tudo 

como minha mãe ensinou.

não merecia isso. 

o dia está perdido, a semana, certeza. 

não tiro o olho da gosma: 

Ainda há coisas impossíveis de lidar.

Carlos Darzé

Carlos nasceu em Itaberaba, Bahia, em uma família barulhenta, afetuosa e obcecada por comida. Foi em Salvador que iniciou sua relação com a arte. Com formação iniciada nos Estados Unidos e passagem pela Universidade Federal da Bahia, construiu uma trajetória de 20 anos no teatro, atuando como ator, produtor, tradutor, preparador e diretor.

Sua escrita surge da cena: começou criando textos para o teatro e desenvolvendo trabalhos sob encomenda, até expandir sua pesquisa no MPhil em Theatre and Performance no Trinity College Dublin, onde investigou a interculturalidade e memória nas artes performativas.

Hoje, entre Dublin e Salvador, transita pela escrita criativa sem se fixar em um único gênero. Embora ainda pouco publicada, sua produção percorre a poesia, a prosa poética, a dramaturgia e o conto curto ? sempre como campo de experimentação.

Sua linguagem é marcada pela inquietação, pela recusa de formas rígidas e pelo desejo de atravessar gêneros. Interessado por psicanálise e pelas tensões entre culturas, Carlos transforma o cotidiano e os vínculos familiares em matéria de criação, explorando as forças invisíveis que moldam a vida comum.

Acredita na literatura como potência transformadora - uma forma de pensar, deslocar e, sobretudo, reinventar o mundo através da palavra.