por Clessius Varela
Quem é esse macaquinho aí na porta ?
Eu tinha exatos nove anos. O ano era 1982, ano de Copa do Mundo; o Brasil ostentava, talvez, a seleção mais artística da história. Íamos até a rua Amambaí, no bairro de Neópolis, zona sul de Natal. Paralelepípedos desnivelados e pintados com as cores da seleção; pés descalços e bola dente de leite. Sandálias em paralelo, pés avizinhados, determinavam o tamanho da baliza. O jogo: mirim, quatro contra quatro. Simulávamos as partidas da Copa e o entusiasmo de uma nação; garotos de classe média baixa sonhando em ser jogadores de futebol.
O placar era 2 a 2. Eu acabara de fazer o gol de empate e, no ímpeto, arranquei o xaboque do dedo — aquela pele viva levantada ao redor da unha. O couro ergueu-se em linha reta, de ponta a ponta. Depois da dor, o truque era deixar a pele encostar novamente e esperar colar.
Por volta das dez da manhã, fui com um amigo à casa da tia dele. Ao chegarmos, ele entrou. A porta era dividida ao meio: a parte de cima aberta; a de baixo, trancada pelo ferrolho. Ela o esperava na sala. Fiquei do lado de fora. Não se entrava na casa dos outros sem permissão — não naquela época.
A casa era simples, um pouco escura. À direita, uma janela baixa; um tapete vermelho empoeirado, parcialmente coberto por três cadeiras, beirava um sofá de napa marrom. No canto, uma cristaleira vazia dava ao ambiente um ar de abandono. A tia dele, uma mulher branca, de estatura mediana, recebeu-o com um abraço, disse algumas amenidades e, de pronto, perguntou:
— Quem é esse macaquinho aí na porta?
Não entendi, de imediato, o que tinha acontecido. Só queria saber por que aquela mulher desconhecida tinha me chamado de macaco. Meu amigo me olhou e não respondeu. Depois de um copo d'água, saímos sem dizer uma palavra.
Um dia depois, a seleção perderia para a Itália em um jogo histórico. Uma sensação estranha de vitória e derrota consumia os brasileiros — e a mim, por motivos distintos: o melhor futebol apresentado, mas sem a taça; o protagonismo no gol de empate e a tentativa de desumanização.
Quatro décadas depois, deparo-me novamente com a mesma cena. Mudam-se os personagens: antes, um anônimo, pobre e preto; agora, um famoso, rico e preto. Vini Jr., um dos melhores jogadores do mundo. A torcida, com os mesmos traços de outrora: o preconceito. O xingamento? O mesmo. Naquele e neste jogo, não há vencedores. Ninguém vence.
Por enquanto, ainda precisamos ensinar — em cada canto do planeta, cada um a partir da sua própria história — que o outro não existe como algo separado de nós. Somos iguais em corpos diferentes.
Vai, Vini. Vai mais uma vez. Tenta vencer essa por nós. Você nunca esteve — nem estará — sozinho. Somos milhões contigo. E, desta vez, a vitória será outra.
Acredito que certas atividades sutilizam nossa energia e servem como contraponto ao cotidiano. Recentemente, comecei na pintura e na escrita; ainda como iniciante, buscando as palavras com o prazer de quem celebra cada frase concluída. Meu objetivo aqui é fazer o melhor possível como escritor até o limite do sentir."