×

Quero pintar nenúfares

Quero pintar nenúfares

por Janeth de Oliveira Silva Naves

Quero pintar nenúfares

 

Descobri as ninfeias (nenúfares) de Monet antes de descobrir que gostava de jardinagem. Me apaixonei pela obra antes de conhecer a história do pintor, só muito depois eu soube que ele foi acusado de alienação. Enquanto a França submergia na sangrenta Primeira Guerra, ele continuava pintando nenúfares como uma silenciosa forma de resistência.

 Porém, o destino não o poupou; em meio a dor pelas perdas sucessivas, ele foi atingido pelo pior que podia lhe acontecer. A catarata se instalou progressivamente, turvando sua visão, diminuindo a nitidez dos objetos e dando lugar ao embaçamento dos contornos e à distorção das cores.

Monet parou de pintar e mergulhou na tristeza e na solidão. Depois de alguns anos, retomou a pintura com dificuldade, tendo que reinventar seu estilo conforme a visão deteriorava. Passou a pintar o mundo como o enxergava: borrado, manchado, disforme, com cores que somente ele via. Retratava o cotidiano numa metáfora pictórica, não lhe interessando tanto os objetos e as cenas retratados, mas a luz que os iluminava e as sensações que eles eram capazes de evocar. E, assim, conseguiu capturar a essência da paisagem e provocar uma percepção sensorial que conectava o observador à beleza fugidia, e invocava a paz em contraposição ao caos do mundo em guerra.

Nos jardins retratados por Monet, me identifico com a profusão de flores, cores sobrepostas em harmonia, recantos, lagos, pontes, canoas flutuando e salgueiros chorões balançando seus ramos como rastros de lágrimas, cenário meio fora de moda para os dias de hoje em que os paisagistas escolhem o minimalismo nas composições e cores.

E concluo que desejo que minha escrita seja como as pinturas de Monet. Não importa se o mundo sangra lá fora, se as pessoas preferem textos que cortam, palavras que acusam, verdades que desmascaram ou fantasias que embriagam; minha escrita insiste em ser guiada pela poesia. Quero revelar a beleza, falar das cores e dos amores, pintar nenúfares com minhas palavras. Não preciso acrescentar mais nada à teia de notícias que nos alcança a todo instante e em todos os lugares.

Não é fuga, é resistência. É uma forma de dizer não à violência, ao conflito, ao retrocesso, à miséria e à desigualdade. Resguardadas as devidas proporções, acredito que seja o mesmo prazer que Monet sentia ao se expressar pintando jardins durante a guerra.

A escrita me eleva, me desarma, me transporta para um lugar em que só existem as palavras, onde há somente criação. É minha maneira de invocar a paz e a harmonia. Afasto-me do mundo físico e me aproximo do mental, ou talvez do espiritual. Nesse estado, não me distancio da humanidade, me posiciono ao lado do humano, reconhecendo e retratando toda a sua carga de sofrimentos e me posicionando ao lado da paz, da tolerância e da solidariedade.

Faço uma opção consciente por pintar nenúfares. Se a minha escrita tiver que acrescentar alguma coisa ao mundo, que seja poesia.

 

Janeth de Oliveira Silva Naves

www.janetholiveiranaves.com.br

Janeth de Oliveira é Farmacêutica, doutora em Ciências da Saúde e professora aposentada da UnB. Publicou os romances "Saudade da Chuva", em 2023, e "As conversas que não tivemos", em 2026. Participou de dez coletâneas de contos e crônicas.