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Refugiados sem rosto

Refugiados sem rosto

por Ana Cristina Sampaio Alves

Refugiados sem rosto

Da África à Europa. Uma viagem longa. Um bote inflável. Quantos homens cabem ali? Centenas. Quantos perecem na travessia? Milhares. Quantos buscam uma vida mais digna? Milhões.

O mar Mediterrâneo nunca foi tão largo e tão longo. Tem a distância entre a guerra e a paz, a fome e o trabalho, a morte e a vida, o terror e o sonho. Muitos são os que se arriscam na travessia, pouquíssimos ganham um rosto, uma história, um passado, algum detalhe que os identifique como seres humanos.  Sim, a geografia une, mas o homem desune.

Refugiados vivem medo, fuga, perda da família, das referências, do idioma, da dignidade. Pessoas que enfrentam grandes obstáculos com um misto de coragem, teimosa e esperança.  Encaram indiferença, intransigência, desumanidade.

Ser refugiado é entregar-se de corpo e alma, é abandonar-se com confiança inabalável, é abraçar a loucura, pois sem ela não se dá o primeiro passo. Refugiado não pensa; se joga. Vive a busca do mais visceral no ser humano: a sobrevivência.

Se mais de 3 mil morrem na travessia do Mediterrâneo em um ano, milhares de outros conquistam uma nesga de liberdade. Estão nas ruas das grandes cidades, lutam diariamente pela reconstrução dos sonhos, pelo direito ao trabalho, à moradia e ao alimento. Mas são invisíveis porque são diferentes, não pertencem àquela comunidade, ousaram transgredir as mais duras regras para estarem ali. 

Refugiado sem rosto é ser humano sem alma, sem direitos, sem conexão. Por ele não me compadeço, não me esforço, não me responsabilizo. Não tem meu passado e nem terá meu futuro. Será sempre um pária em busca de oportunidades, migalhas de uma sociedade que exclui e violenta com sua indiferença. Ser estatística é sina por demais injusta.

"Viemos da guerra e precisamos de amor. Somos sobreviventes", clama uma refugiada afegã. "Meu lugar é no mundo inteiro", corrobora o companheiro. "Deixei o Afeganistão com a roupa do corpo", completa o amigo. Relatos de quem busca reconstruir uma vida de guerras e perseguições e se depara com a intransponível falta de acolhimento.

Por isso, é preciso dar voz e rosto a cada um dos refugiados que ousa escapar da violência em busca de um futuro melhor, mesmo que para isso tenha que se jogar ao mar e atravessá-lo a nado. É necessário valorizar esse ato de fé na vida.

Por trás do rosto de um refugiado está uma alma em frangalhos, carente do aconchego de um lar, do amparo de uma comunidade e da colaboração de um Estado garantidor de seus direitos básicos. Por trás de um rosto há sempre uma história que jamais deveria ser ignorada.

Ana Cristina Sampaio Alves

Ana Cristina Sampaio Alves escreve desde a infância. Ainda criança, já se considerava uma novelista, mesmo que as histórias fossem um misto de contos de fadas com personagens reais. Escolheu o jornalismo como profissão, o qual a permitiu transitar por todo tipo de texto, desde os mais técnicos até os mais criativos, em diversos segmentos de mídias. Continua explorando a escrita e agora se aventura na literária, tendo publicado alguns contos e dezenas de crônicas. Esse é o gênero em que melhor transita. 

Embora não tenha ainda publicado narrativas longas, já participou da edição de coletâneas de contos. Segue buscando aprimorar o texto que emociona e traz reflexão. Participa do Curso Online de Formação de Escritores.