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Rei Momo

Rei Momo

por Ana Cristina Sampaio Alves

Rei Momo

Dizem que o carnaval de Muzambinho termina na Quarta-feira de Cinzas. Mentira. Ele continua na televisão a semana toda. Assim mantenho a alegria de folião que sempre fui, aliás o maior de todos – em importância e tamanho.     

Mal durmo nesse dia. Antes mesmo de o caminhão de lixo passar pela Avenida Doutor Américo Luz, eu já estou sentado na minha poltrona, com o controle remoto na mão. Gosto de ouvir os sons da rua misturados à reprise dos melhores momentos. É como se a cidade respirasse dentro da minha sala.

Já deu no jornal da manhã. A voz do Teixeirinha sempre exagera na impostação quando a notícia é grave. Ele fala como se comandasse o trio elétrico. "Pelo quinto ano consecutivo, o tradicional carnaval de rua de Muzambinho termina com uma coroa invisível: a da morte".  Tenho vontade de rir. Que diabo de manchete é essa? 

Conheci aquela avenida melhor do que qualquer cidadão. Desfilei ali por mais de uma década, faixa no peito, cetro na mão, suor escorrendo pelas costas e a multidão gritando meu nome. Dizem que fui o melhor Rei Momo que Muzambinho já teve. Tenho provas. Está nos jornais guardados na caixa azul em cima do armário.

Carnaval é uma disputa para ser visto. A melhor fantasia, a melhor bateria, as melhores foliãs.  Hoje eu assisto de casa. Não tenho o corpo de antes. A juventude. A alegria. O brilho. A cidade gosta de novidades. Mas ainda tenho os olhos. E continuam bons. Talvez melhores. Eles sabem escolher.

Durante os quatro dias de festa eu acompanho tudo pela transmissão ao vivo. A câmera percorre os blocos como se fosse dona das pessoas. Quando encontra alguém que reluz, ela se demora. É sempre assim.

Elas sabem o que fazer diante da câmera. Mexem o corpo como se fossem acasalar, braços lânguidos, vigorosos, jogam o cabelo, mandam beijos, sorriem sensuais. Gosto desse instante.

Às vezes mando mensagem. As redes sociais fervem. Um elogio. Digo que têm presença, que são lindas, que deveriam dar uma entrevista depois do bloco. Elas respondem rápido. Nada como a fama na folia.  É curioso como a palavra "escolhida" funciona. E elas querem falar, posar, aparecer.

Pergunto o que a festa significa para elas. Algumas dizem "liberdade". Outras, "esquecer". Teve uma que respondeu: "Quero que o Brasil inteiro me veja." Eu entendo.

Quando o carnaval acaba, porém, sobra outra coisa. Um silêncio, um nada, um vazio. Já senti isso descer sobre mim.  Foi no primeiro ano em que não subi no trio. A cidade continuou pulando, protagonista da festa.  A câmera não mais em mim. Eu também entendo.

Na Quarta-feira de Cinzas, depois de mil horas de transmissão, a TV mostra o asfalto sujo, o confete colado na sarjeta. Mostra também as viaturas, as fitas de isolamento, o corpo coberto por um lençol branco que nunca cobre direito o brilho das fantasias baratas.

Esse é o meu momento. É nessa hora que eu entro em cena, que eu brilho, que volto a ser Rei. 

Ana Cristina Sampaio Alves

Ana Cristina Sampaio Alves escreve desde a infância. Ainda criança, já se considerava uma novelista, mesmo que as histórias fossem um misto de contos de fadas com personagens reais. Escolheu o jornalismo como profissão, o qual a permitiu transitar por todo tipo de texto, desde os mais técnicos até os mais criativos, em diversos segmentos de mídias. Continua explorando a escrita e agora se aventura na literária, tendo publicado alguns contos e dezenas de crônicas. Esse é o gênero em que melhor transita. 

Embora não tenha ainda publicado narrativas longas, já participou da edição de coletâneas de contos. Segue buscando aprimorar o texto que emociona e traz reflexão. Participa do Curso Online de Formação de Escritores.