por Andreia Santiago
Já se passaram duas horas desde a última mensagem. Não que eu seja ansioso, mas a
gastura que sinto cada vez que o celular vibra faz arder o estômago e acelerar o coração.
Imagina se as notificações estivessem com o som ativado.
Se bem que ela disse que iria à academia e depois passaria no mercado. Ela sempre vai
fazer alguma compra. Todos os dias. Prefere isso a encher dois carrinhos. Não suporta ver
a quantidade de embalagens que juntamos no lixo. Diz que aquilo a faz lembrar o quanto
somos materialistas e dependentes de manufaturados. A essa altura, já deve ter passado
no hortifruti. Ela sempre começa por lá.
O celular vibra. Olho imediatamente. Não é ela. Vai demorar mais um tempo.
Minha Nossa.
Hoje em dia não se respeitam mais as mulheres por aí. Sempre me ofereço para ir junto ou
buscá-la de carro. Cavalheirismo, né? Ela ri, agradece, diz que não precisa, que gosta de
resolver as coisas sozinha. E eu respeito. Claro que respeito.
O celular continua quieto no bolso. Eu, quieto no sofá.
De vez em quando, tiro o aparelho para ver as horas. Elas mal se mexem. Aproveito e abro
a conversa. Nenhuma mensagem. Guardo o celular.
Pouco depois, tiro outra vez. Só para ver as horas.
Revisão de texto: Michelle Almeida
Andreia Santiago é do Rio de Janeiro. Terapeuta Integrativa com mais de 30 anos de experiência. Produtora de cursos on-line, também é cantora e musicista/DJ, integrando som, arte e cura em suas práticas. Estudante de Baixo e Escrita Criativa.