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Revisor é o mesmo que corretor? Esse e outros 2 mitos sobre revisão de textos

Revisor é o mesmo que corretor? Esse e outros 2 mitos sobre revisão de textos

por Mary Cavalcante

Autoria: may cavalcante · Revisão: Maria Teresa Stefani.

Antes de começar a estudar para me tornar revisora profissional de textos, acreditava que a principal função do revisor seria corrigir erros gramaticais, como faziam os meus professores de redação. Minha maior preocupação era aprender as regras da norma culta, que é obviamente um conhecimento indispensável para revisores, mas descobri que revisão não é sinônimo de correção.

Daí vem que revisar não é uma tarefa direta como a correção ortográfica e gramatical pura e simples, semelhante à de corretores automáticos e IAs, e não pode ser executada de forma mecânica, apressada e sem atenção.

Também, não sendo sinônimo de correção, os escritores não podem esperar que a revisão "conserte" seus erros ou que o revisor reescreva um texto mal escrito. Por isso, vamos esmiuçar abaixo os três grandes mitos dos serviços de revisão de textos.

Primeiro mito: o revisor corrige textos

Revisor não é a mesma coisa que corretor. O ponto de partida do corretor é que há algo errado com o texto que precisa ser identificado — seja para ser corrigido e devolvido para o aprendizado do aluno, seja para diminuir pontos e atribuir uma nota. A correção está tecnicamente mais relacionada a redações escolares e provas de concurso, envolvendo mera adequação aos critérios determinados de avaliação de um edital, manual ou gramática.

O objetivo da revisão não é ensinar a escrever corretamente ou determinar um valor de aprovação, muito pelo contrário. Aqui se presume que o escritor tenha habilidade e capacidade de escritas apuradas, inclusive com relação à gramática. O que se busca em uma revisão é aprimorar sua obra, conservando seu estilo. Em tese, o revisor recebe um texto já "correto" para apontar possíveis melhorias.

Em outras palavras, o escopo do revisor é bem mais amplo, não se limitando somente a corrigir erros quanto à gramática formal. Visa assegurar a adequação do conteúdo não só à norma, mas também à padronização, ao estilo, ao gênero textual e à estratégia de comunicação que se quer atingir.

Segundo mito: o trabalho do revisor é apenas corrigir erros

A revisão está longe de ser só uma olhadinha. A função do revisor é tornar o texto coerente, coeso e claro, logo, diferentemente do que alguns escritores pensam, esse é um processo complexo. O revisor não trabalha só os elementos intratextuais — aqueles que ocorrem dentro do texto —, mas também aspectos extratextuais (fatores externos ao texto) e intertextuais (relações entre diferentes textos).

A verificação textual feita pelo revisor envolve ortografia, gramática, morfossintaxe, linguística-textual e análise do discurso, aspectos melhor detalhados abaixo:

  • Ortográficos: grafia das palavras, acentuação, hifenação, parônimas (grafia parecida com diferença no sentido, como emergir e imergir), nova ortografia.
  • Gramaticais. O corretor utiliza uma gramática normativa específica como referência, mas o revisor considera várias concepções de gramática (normativa, descritiva e internalizada) para saber o que é gramatical e agramatical em cada texto, de acordo com a voz do autor, público-alvo e intenção comunicativa, entre outros critérios.
  • Morfossintáticos: classes de palavras, questões sintáticas, construção estrutural do sentido.
  • Linguístico-textuais: se referem ao que faz um texto ser texto. Há sete critérios de textualidade: coesão, coerência, intencionalidade, aceitabilidade, situacionalidade, informatividade, intertextualidade.
  • Outros aspectos linguístico-textuais: a construção do sentido global do texto (ser um todo significativo; ter início, meio e fim), composição textual.
  • Discursivos: questões ideológicas, questões históricas, função social dos sujeitos etc.

Há ainda elementos além dos textuais que podem fazer parte da revisão, como formatação, padronizações, estrutura visual, imagens e composição visual. Os aspectos a serem analisados e o nível de intervenção de um revisor depende da fase da revisão e do escopo do serviço.

Citando outra diferença entre o corretor e o revisor é que o primeiro executa seu trabalho sozinho, enquanto o segundo precisa interagir e se comunicar produtiva e eficientemente com os interessados diretos do texto — escritores, editores ou mesmo diagramadores — para realizar um bom trabalho. Um corretor faz as intervenções corretivas, e pronto. Já um revisor, ao identificar possíveis melhorias ou desvios de norma, precisa propor soluções e negociar com o autor ou editor para poder realizar qualquer modificação.

Uma dica preciosa para escritores que contratam serviço de revisão diretamente: interajam com seus revisores, façam perguntas sobre os comentários, analisem e não deixem de devolver para uma segunda leitura (caso haja a possibilidade na contratação do serviço) e terão um texto muito mais interessante.

Terceiro mito: escritores não precisam saber gramática, para isso existe o revisor

Tudo que foi dito antes deixa bem claro que o revisor não existe para corrigir problemas de gramática, mas alguns escritores que não conhecem o escopo do trabalho de revisão acham que podem escrever de qualquer jeito e que não está tudo bem entregar o texto mal- escrito.

Quando recebem um texto com muitos problemas gramaticais, alguns revisores simplesmente não aceitam o serviço e outros cobram bem mais caro por exercerem dois papéis: de corretor e de revisor. Quando as questões afetam o entendimento do texto, esse pode precisar de uma reescrita total, o que também não é escopo do trabalho de revisor.  E se o manuscrito tiver de alguma forma ido parar nas mãos de um editor — ou do orientador, em caso de arquivos científicos —, pode ter certeza de que nem será lido, quanto mais aprovado.

A gramática não é apenas chateação; é a estrutura em que você se apoia para construir os pensamentos e colocá-los no papel. Stephen King (On Writitng)

O escritor deve entregar um texto o mais limpo possível para um revisor, para que o intuito de comunicação fique claro. Logo, é fundamental compreender o funcionamento da língua para saber quando insistir na norma culta e quando abrir mão dela.

Revisões também fazem parte do processo de escrita. Um texto não está pronto para ser enviado a um revisor profissional antes que seja revisado e reescrito, onde necessário, pelo próprio autor. A nova visualização externa, que é a revisão profissional, integra o processo seguinte: o de publicação ou publicização, depois que o escritor termina a obra e quer ou precisa torná-la pública.

Dicas preciosas para revisores: a professora Hariele Quara sugere evitar o termo "correção" na divulgação de seus serviços, pois ele pode induzir o cliente a acreditar que pode entregar um rascunho para você arrumar. A professora Maiara Alvarez, por sua vez, aconselha a sempre solicitar a obra completa ou, pelo menos, uma amostra representativa dela e analisá-la antes de enviar qualquer orçamento, esclarecendo qual o exato escopo do serviço. Escutemos as mestras!

Mary Cavalcante

Faço análise e revisão de textos de ficção, não-ficção e crônicas. Também escrevo — atuo como escritora, além de revisora. Comecei a fazer análise de texto há bastante tempo, quando colegas me procuravam para revisar, criticar ou reescrever seus trabalhos. Desde então, também atuo com tradução e revisão de tradução (inglês desde 2005, italiano desde 2012).

Atualmente escrevo e reviso para o blog A Lambisgoia — Escritos, Traduções & Outras Insolências, ainda em construção. Estou aprimorando minha formação nos cursos de Formação de Revisores e Formação de Escritores da Metamorfose, e na Pós-Graduação em Revisão de Texto da Faculdade LabPub.

Site: www.lambisgoia.com
Email: maycavalcante@lambisgoia.com