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Risadas no asilo

Risadas no asilo

por Ana Cristina Sampaio Alves

Risadas no asilo

Tudo começou no dia em que a cozinheira encontrou sal no pote de açúcar. Quem haveria de ter feito essa brincadeira de mau gosto com ela? Não bastava ter que cozinhar para cinquenta velhinhos, quase todos desmemoriados, solitários, cheios de manias esquisitas e sem vontade de viver? Será que um deles seria capaz de substituir cinco quilos de açúcar por cinco quilos de sal? Parecia tarefa impossível. A verdade é que, desde esse dia, os velhinhos do asilo passaram a querer caminhar pelo jardim. Antes ficavam todos sentados em frente às TVs, agora era até difícil acompanhá-los, pois pareciam decididos a dar voltas e mais voltas, obrigando os funcionários a redobrarem os cuidados para que nenhum caísse e se quebrasse.

Uma semana depois do episódio da troca do açúcar, começou o sumiço de alguns objetos dos velhinhos. Era um tal de cadê minha escova de dentes, quem pegou meu pente, onde foram parar minhas calcinhas, que todos ali interrompiam suas atividades para procurar as coisas desaparecidas. De início, os velhinhos ficaram impacientes e irritados quando se davam conta da ausência de suas coisas, mas logo começaram a encontrá-las em locais inusitados, como na lixeira, no meio das flores, embaixo das camas e até em cima do telhado. E como todos os dias novos objetos sumiam, teve início uma grande brincadeira de caça ao tesouro. Quando um grupo achava um objeto perdido, o outro tinha que seguir pistas para encontrá-lo, com as dicas de "tá frio" e "tá quente". Nenhum velhinho queria mais ver TV ou dormir durante o dia; todos participavam daquele esconde-esconde diário.

Até o dia em que a cozinheira não conseguiu mais acender o fogão. Sem qualquer sinal de vento, ela acendia os queimadores para preparar o almoço e do nada eles se apagavam. Não era possível aquilo, parecia uma assombração bulindo com ela. Brigava com o além, achando que eram espíritos trabalhando para que perdesse o emprego.  Como não conseguia preparar nenhuma refeição, os donos do asilo decidiram usar o IFood. O primeiro almoço de restaurante foi uma festa só: hamburguer para todos! Os velhinhos não se cabiam de contentes, e cada um foi dando um jeito na própria dentadura para não perder a iguaria. Quem antes só tomava sopa relembrava os bons tempos das idas a restaurantes com a família. Então, a administração decidiu que todos jantariam pizza. Foi um aplauso geral.            

O asilo nem parecia mais aquele local triste, com velhinhos dementes e calados. Afinal, todos os dias tinham que brincar de esconde-esconde e aguardar uma refeição diferente trazida pelo motoboy. Cada um fazia questão de buscar um dinheirinho na gaveta para entregar de gorjeta. Estavam todos assim animados quando certo dia começaram a ouvir risadas pelos corredores. Dividiram-se em grupos para buscar de onde vinha o som alto que, de início, assustou a todos. Como não conseguiam descobrir o autor das risadas, começaram a imitá-la, como forma de desarmar o possível fantasma do asilo. O dia inteiro era então dedicado a procurar objetos perdidos, rir e pedir o IFood preferido. Circulavam por todos os cantos gritando "Achei!", ouvindo e dando risadas, escolhendo o cardápio no aplicativo de seus celulares, que agora passavam a ter serventia.

Tempos depois, às risadas misteriosas seguiram-se outros sons inusitados: um assobio agudo e estridente que parecia vir de todos os lugares e o ruído de algo raspando ou batucando no assoalho. Desta vez, ninguém se assustou, mas a curiosidade pelos fenômenos aumentou ainda mais.  Foi então que um dos velhinhos, mais esperto no uso do celular, resolveu pesquisar o que ali acontecia no chatgpt. A resposta provável, segundo a Inteligência Artificial, era que o asilo estava sendo frequentado por um saci.

Nesse dia, ao compartilhar com todos que um ser mitológico poderia ser o causador de todo aquele alvoroço, o velhinho do chat correu para o jardim. Foi o tempo certo para assistir ao redemoinho que se formava, criando turbilhões de vento e poeira. Quando a ventania passou, ele avistou um gorro vermelho no chão.  Recolheu-o com um sorriso, enquanto os demais gritavam empolgados:

-- Temos um saci!

No dia seguinte o menino da perna só apareceu e foi recebido com palmas e abraços. Gostou tanto da recepção, das brincadeiras e da comida do IFood que não mais saiu de perto dos velhinhos. E como quando um morria, outro já vinha ocupar o lugar, fez a festa durante mais de dez anos, só se mudando quando o asilo, que foi considerado o mais feliz do país, fechou.

 

Ana Cristina Sampaio Alves

Ana Cristina Sampaio Alves escreve desde a infância. Ainda criança, já se considerava uma novelista, mesmo que as histórias fossem um misto de contos de fadas com personagens reais. Escolheu o jornalismo como profissão, o qual a permitiu transitar por todo tipo de texto, desde os mais técnicos até os mais criativos, em diversos segmentos de mídias. Continua explorando a escrita e agora se aventura na literária, tendo publicado alguns contos e dezenas de crônicas. Esse é o gênero em que melhor transita. 

Embora não tenha ainda publicado narrativas longas, já participou da edição de coletâneas de contos. Segue buscando aprimorar o texto que emociona e traz reflexão. Participa do Curso Online de Formação de Escritores.