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Romance de Formação: a história de um amplificada em muitos

Romance de Formação: a história de um amplificada em muitos

por Carol Canabarro

Romance de Formação: a história de um amplificada em muitos

Romance de Formação narra o desenvolvimento psicológico, espiritual, social e político de uma protagonista. Considera-se "Os Anos de Aprendizado de Wilhelm Meister", de Goethe, a obra que inaugura o gênero, por representar a formação da protagonista em seu início e trajetória em direção a um grau determinado de perfectibilidade e, também, por promover a formação do leitor através dessa representação.

Centradas na trajetória pessoal de um indivíduo, essas histórias possibilitam uma ligação intensa entre leitor e personagem. Em muitos casos, os romances de formação têm como personagens centrais homens ou mulheres comuns, sem grandes feitos ou qualidades, devendo-se o interesse nessas obras, segundo Thomas Mann (foto) ao fato de que "O homem não vive somente sua vida pessoal como indivíduo; consciente ou inconscientemente, participa também da vida de sua época e de seus contemporâneos".

As características principais dos romances de formação são:

  • Jornada de Amadurecimento: Acompanha a personagem desde a infância/juventude até a maturidade.
  • Transformação Interior: Mudança evidente de comportamento da personagem, entre o início e o fim da obra.
  • Conflitos com o Mundo: Há uma busca pelo seu lugar na sociedade, enfrentando choques entre seus ideais e a realidade.
  • Experiências Educativas: O aprendizado ocorre através de erros, amores, amizades e, muitas vezes, perdas significativas.
  • Busca de Identidade: A protagonista busca entender a si mesma e seu propósito de vida.
  • Contexto Social/Histórico: A trajetória é influenciada pelo ambiente social e político em que a personagem está inserida.

Originalmente, o Romance de Formação era um gênero literário voltado para a representação do ideário burguês. Cunhado no século 18 pelo filósofo e historiador Karl Morgenstern, demonstra a busca pelo autoaperfeiçoamento do indivíduo, a emancipação política da classe média alemã e, em paralelo, funciona como vetor pedagógico para os leitores.

Ao longo dos anos, porém, escritores e escritoras ampliaram e subverteram o conceito do gênero criando, por exemplo, romances de formação com personagens de classes trabalhadoras, como em Jubiabá, de Jorge Amado. Permitindo criticar as limitações da própria sociedade burguesa e mostrando que o amadurecimento pode ser um processo de alienação, e não de integração.

Essa potência crítica do gênero se expande ainda mais quando olhamos para os romances de formação da diáspora negra. Neles, a jornada do indivíduo está ligada à transformação da sociedade, pois o amadurecimento da protagonista passa pela descoberta de uma identidade racial e cultural historicamente silenciada.

Um exemplo é a obra "Ponciá Vicêncio", de Conceição Evaristo, em que acompanhamos a trajetória da protagonista desde o interior de Minas Gerais até a cidade grande, numa busca por si mesma e também pelos ecos de seus antepassados escravizados. A formação de Ponciá não é apenas pessoal: é a reconstituição de uma memória coletiva, mostrando que, para corpos negros na literatura, a pergunta "quem sou eu?" está sempre atrelada a "de onde viemos?" e "como romper com as correntes do passado?".

Da mesma forma, a tradição literária de autoria feminina encontra no Romance de Formação um campo de batalha fértil. Durante muito tempo, as personagens mulheres nesse gênero (quando não eram completamente invisibilizadas) tinham seus destinos selados pela impossibilidade de se inserirem no ideário burguês-patriarcal. A rebeldia, a busca por autonomia ou o simples desejo de uma vida para além do casamento e da maternidade conduziam as heroínas à loucura ou ao suicídio, como vemos em clássicos como "Madame Bovary", de Flaubert, ou "A Letra Escarlate", de Hawthorne.

A mensagem implícita era clara: não há formação possível para a mulher que ouse desafiar seu lugar determinado. Através de muita luta, as próprias escritoras trataram de subverter essa lógica, criando protagonistas cuja formação, ainda que dolorosa, aponta para novas possibilidades de existência e de integração com o mundo.

Essa diversidade de abordagens nos mostra que o Romance de Formação está longe de ser uma fórmula única. O teórico russo Mikhail Bakhtin, ao estudar o gênero, identificou cinco diferentes tipos que coexistem e se transformaram ao longo da história literária. São eles:

  • Idílico: comum no século XVIII, utiliza os ciclos da natureza para construir a temporalidade do amadurecimento;
  •  Biográfico: concentra-se em criar o destino singular do indivíduo;
  • Didático-pedagógico: claramente baseado numa ideia ou doutrina a ser inculcada no herói;
  •  Realista: considerado o mais importante por Bakhtin por ser "aquele em que a evolução do homem é indissolúvel da evolução histórica". Aqui, o indivíduo é formado ao mesmo tempo que o mundo, e sua transformação pessoal reflete e é reflexo das grandes mudanças de sua época.

Seja na busca burguesa por autoaperfeiçoamento de Wilhelm Meister, na alienação da classe trabalhadora em Jubiabá, na reconstrução da memória diaspórica de Ponciá Vicêncio ou nos destinos trágicos das heroínas do século XIX, o que está em jogo é sempre o diálogo profundo entre o indivíduo e seu mundo.

Conhecer a história de uma personagem em formação é, portanto, vislumbrar os vestígios de seu tempo e espaço. E é exatamente essa potência de, através de uma vida singular, nos contar sobre a complexidade do mundo, que torna os romances de formação tão fascinantes.

Carol Canabarro

Carol Canabarro, apaixonada por literatura e animais. Foi atleta, garçonete, especuladora financeira, professora. Morreu duas vezes, ressuscitou em ambas. Hoje é escritora, egressa do Curso de Formação de Escritores da Metamorfose, autora da narrativa longa "Mirando o gol, acertando as estrelas", colunista no próprio site, aluna na pós-graduação em Literatura, Arte e Filosofia da PUC-RS e serva de quatro gatos.