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Rosas Vermelhas

Rosas Vermelhas

por Rodrigo Duarte

Acordei esta manhã, mais uma vez, com o canto da alvorada. Entretanto, tirando as dores do corpo, hoje foi diferente. Não achei ruim abrir os olhos antes do amanhecer. Devo confessar que, talvez, esteja me afeiçoando ao coro daqueles pardais insones. E, em reconhecimento pela eficácia do despertar, amanhã irei instalar um comedouro para eles. Espero que apareçam na varanda para cantar e espantar todo e qualquer mal. 

Faz uma semana que não vou à varanda para armar minha rede. Tenho preferido fazer minha leitura no quarto. Também não tenho feito minhas refeições na mesinha de madeira. Voltei a usar a mesa da sala de jantar. Uma mesa de seis lugares ocupada apenas por mim e pela ausência de Olívia. Mas amanhã voltarei a encarar a vida lá fora, daquela varanda. E também instalarei o comedouro.

Não queria registrar aqui o ocorrido. Durante esta semana, estive convicto de que o melhor a fazer seria esquecer. Porém, neste sétimo dia, resolvi relatar, neste diário, os fatos. Não porque acredite que um dia irei esquecer e que precisarei voltar aqui para relembrar. Escrevo apenas para conseguir aceitar que eu ainda tenho medo de morrer. Medo de morrer e não me encontrar, novamente, como aqueles olhos verdes-oliva. 

No último domingo, mais ou menos a essa hora, fiz minha costumeira ceia à mesinha de madeira. Uma xícara de chá de camomila e uma fatia de pão com queijo coalho assado. Enquanto esperava o chá esfriar um pouco, observava pela varanda o morador novato do terceiro andar passeando com seu cão. Vi, ainda, minha vizinha de cima, do duzentos e dois, descendo para receber sua pizza. Depois, por um período, a rua permaneceu quieta, sem movimento.

Soprei o chá e encostei com cuidado meus lábios na xícara. Senti meu corpo aquecer. Depois, para contrastar com o doce da camomila, senti o salgado do queijo. Antigamente, era Olívia que sempre fazia o chá. Eu é que sempre assava o queijo. Agora, sou eu que faço tudo sozinho.

Após a refeição, encostei as costas na cadeira e vi um sedan cinza estacionar do outro lado da rua, quase na esquina, próximo a um bueiro aberto há quase dois anos. O carro parou e permaneceu alguns minutos ligado e com o farol aceso. O vidro era escuro e não dava para enxergar seu interior. De repente, a porta do motorista se abriu e no mesmo instante a luz do farol se apagou. 

Desceu do veículo um jovem. Ele acionou o alarme, contornou o carro, colocou algo no bolso de trás da calça e foi para a calçada com passos ansiosos e deselegantes. Passou tão próximo ao buraco que me pareceu alguém destemido — ou descuidado. Dirigiu-se à entrada do prédio residencial em frente ao meu. Na metade do caminho, parou e deu meia volta, voltando rápido para o veículo.

Destravou o carro, abriu a porta e colocou apenas a metade do corpo para dentro. Quando saiu, carregava um pequeno buquê de flores brancas. Eu ainda tentava adivinhar se eram rosas ou lírios quando um homem vestindo paletó e gravata virou a esquina e surgiu atrás do rapaz, segurando um livro preto na mão esquerda. Aparentemente, ele pediu alguma informação. O jovem virou como se não entendesse aquele idioma. E, de dentro do paletó, o homem tirou o tradutor daquela conversa: um revólver prateado de cano longo.

O rapaz levantou os braços, segurando o buquê em uma das mãos como se fosse uma bandeira branca, pedindo trégua. O bandido parecia dar ordens e ele parecia não compreender. Finalmente, tirou a carteira do bolso e a entregou. A arma continuava apontada. Penso que o ladrão bradou: "A chave, porra!". O garoto enfiou a mão no bolso da frente e, quando foi entregar, a chave caiu, quase em câmera lenta, no fundo daquele buraco. Antes o jovem tivesse caído lá dentro! Quiçá teria escapado. Mas deixar a chave cair foi fatal.

O estampido encerrou aquele encontro e cancelou o outro que aconteceria em breve. O assassino sumiu e o garoto ficou caído, enquanto as flores brancas eram tingidas, no passeio público, pelo seu próprio sangue. Será que ele entregará aquele buquê, depois, em outras vidas? Ou vivemos, apenas, para nos desencontrarmos? Amanhã levarei rosas vermelhas para Olívia.

 

Rodrigo Duarte
Rodrigo Duarte
Olinda/PE

Rodrigo Duarte

Rodrigo Duarte nasceu em 1985, em Ladário (MS), e ainda jovem mudou-se para o Nordeste, onde construiu sua vida em Pernambuco. Atualmente, mora em Olinda, cidade reconhecida como Patrimônio Mundial pela UNESCO. É servidor da Justiça Federal, onde atua há quase quinze anos.

Encontrou na leitura uma escolha consciente e um caminho para ampliar suas possibilidades. O contato com os livros despertou o interesse pela escrita, que se tornou um novo modo de explorar o mundo.

Escreve contos e trabalha na criação de seu primeiro romance. Na literatura, busca compreender o mundo e o lugar que ocupa nele.