por Ana Cristina Sampaio Alves
O mundo moderno é globalizado até mesmo nas relações afetivas. Namorar a distância, casar-se e morar em outro país é realidade para muitos e sonho para tantos outros. Se os sites de relacionamentos facilitam esses encontros, também podem apresentar alguns riscos. A história que narro é verídica, apesar das licenças poéticas, e foi contada pela apresentadora Astrid Fontenele no programa Partidas e Chegadas.
Fátima e a filha rumavam apressadas para o aeroporto internacional de Guarulhos. O voo pousaria às 8h, então o trânsito em São Paulo estava caótico como sempre. A ansiedade era grande. Estava no avião David, namorado de Fátima. Haviam se conhecido num desses sites de relacionamento e já conversavam há mais de seis meses.
Rayra, 18 anos, acompanhava animada o namoro da mãe. Os encontros virtuais eram quase que diários. Ela nunca vira Fátima tão feliz! Parecia que a mãe rejuvenescera 20 anos, tão empolgada estava. Ela mesma sabia pouco de David, mas Fátima disse que ele era empresário e morava num estado norte-americano não tão famoso, desses lugares que nunca se ouve falar.
Fátima tinha até se matriculado num curso de inglês. Queria se comunicar melhor com David. Estavam criando um vínculo forte, uma paixão a distância, como dizia Fátima após um dos encontros que duravam horas ao celular. E finalmente chegou a hora do tão esperado encontro presencial.
Como Fátima nem passaporte, muito menos visto americano, tivesse, ficou acertado que David viria ao Brasil. Levou menos de uma semana para ele comprar o bilhete. Mal deu tempo de Fátima dar um tapa no apartamento. Comprou roupa de cama nova, louça bacana, deixou a casa um brinco.
Não comentava com Rayra, mas já se via mudando para os Estados Unidos. Moraria numa daquelas casas com gramado na frente, sem muros, passearia com o cachorro e cumprimentaria a vizinhança. Sim, nada mal essa vidinha de série americana.
Com esses pensamentos que lhe abriam um sorriso e lhe deixavam quase flutuando chegam ao desembarque. Avião no pátio, passageiros saindo, Rayra e Fátima fixam cada rosto em busca do recém-chegado. De repente, o telefone toca. É David. Havia desembarcado, mas as autoridades não o deixavam sair. Nervosa e com dificuldade para entender o que ele diz, Fátima passa o telefone a Rayra, que, em inglês, começa a fazer perguntas ao namorado da mãe.
A moça desliga e, para espanto de Fátima, a chama para irem embora. "Como assim? E vamos deixar David preso? Você tá doida? O que aconteceu?". David pedia que ela depositasse o equivalente a 3 mil dólares para liberar os presentes que ele havia trazido e estavam retidos na Receita Federal.
"Mãe, é golpe! Esse David não existe. Ele não está aqui coisa nenhuma". A boca de Fátima está aberta, olhos arregalados, dá para ouvir a taquicardia, o rosto perdeu a cor. Quer retornar a ligação de David, mas a filha esconde o celular. No saguão do aeroporto, Rayra corre da mãe com o celular na mão, enquanto Fátima grita que quer falar com David.
Uma hora depois, cabeça baixa, ela caminha para a saída do aeroporto. Ainda olha para trás de vez em quando. Rayra, ao seu lado, segura o celular. Nenhum sinal de David. Vai ser duro chegar em casa e se deparar com a roupa de cama nova.
Ana Cristina Sampaio Alves escreve desde a infância. Ainda criança, já se considerava uma novelista, mesmo que as histórias fossem um misto de contos de fadas com personagens reais. Escolheu o jornalismo como profissão, o qual a permitiu transitar por todo tipo de texto, desde os mais técnicos até os mais criativos, em diversos segmentos de mídias. Continua explorando a escrita e agora se aventura na literária, tendo publicado alguns contos e dezenas de crônicas. Esse é o gênero em que melhor transita.
Embora não tenha ainda publicado narrativas longas, já participou da edição de coletâneas de contos. Segue buscando aprimorar o texto que emociona e traz reflexão. Participa do Curso Online de Formação de Escritores.