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Sagatrissuinorana: quem disse que literatura infantil é só para crianças?

Sagatrissuinorana: quem disse que literatura infantil é só para crianças?

por Antonio Lima Jr.

Sagatrissuinorana: quem disse que literatura infantil é só para crianças?


O título do livro achei curioso, mas de início não pensei em tentar entendê-lo. Depois encontrei um texto que explicava cada termo, daí tudo começou a fazer sentido. Um pouco mais de esforço e eu teria lembrado de Sagarana, de Guimarães Rosa, uma pista para começar a decifrar o enigma. 


No dicionário etimológico encontramos Saga, "designação comum às narrativas em prosa, históricas ou lendárias [...]" e -Rana é o sufixo que em tupi significa "parecido, semelhante". Em latim Tri é "três" e Suino (suinus)... é suíno mesmo. Um pouco menos de preguiça e o dicionário em mãos, não teria sido difícil.


Trata-se do reconto da fábula dos Três Porquinhos, seguindo a sintaxe de João Guimarães Rosa, no contexto dos desastres ambientais de Mariana e Brumadinho. Uma triste saga brasileira, contada à semelhança da fábula infantil clássica. Tanto o escritor João Luiz Guimarães (que não é Rosa) quanto o ilustrador Nelson Cruz são artistas premiados. Não à toa o livro foi agraciado com o Jabuti 2021, o Livro do Ano.


Num primeiro momento, me pareceu interessante acompanhar apenas as ilustrações, atentando para as discretas mudanças à medida que o conto evolui. Depois, a leitura do texto concomitante à visualização dos detalhes ilustrados. Sem esquecer de soltar a imaginação e apreciar cada palavra, frase e cenário. E leitura da fábula original.


Desconfio que para muitas crianças o texto breve de Sagatrissuinorana representará um desafio. Logo, a leitura com adultos ajudaria na interpretação. Até mesmo as imagens trazem uma narrativa cujas sutilezas podem passar despercebidas numa leitura mais apressada. Ela evolui com pequenas transformações nos cenários. E há mudanças nos tons de cores que agregam significado aos diferentes momentos. Um trabalho digno de admiração.


Na contracapa do livro se diz que "O recado da terra chega quase sempre sem aviso". Nesse aspecto, tenho minhas dúvidas se é realmente "sem aviso". Há anos ou até décadas são gerados alertas contra os perigos da exploração e degradação ambiental — quase sempre associadas aos abusos e à ganância humana. Apesar de tudo, não faltam os céticos e os cínicos para desacreditarem os avisos. Hoje, é possível ouvir o grito agônico da Terra.


Os desastres provocados por inundações e enxurradas não têm como causa exclusiva o fenômeno natural das chuvas, e os impactos nas cidades aumentam muito devido ao desflorestamento e assoreamento de rios — este decorrente da extração irregular de areia. Vi tudo isso de perto em 2010 e 2011, a serviço, nas enxurradas de Pernambuco e Alagoas e na Região Serrana do Rio de Janeiro. Ideia análoga se aplica aos episódios de Mariana e Brumadinho. O primeiro evento não deveria ter desencadeado precauções extraordinárias que eventualmente teriam evitado os piores efeitos do segundo? 


Além disso, basta lembrar dos avisos eloquentes e reiterados no início da pandemia de Covid-19, vindos da Europa e da Ásia, mesmo assim olvidados, agravando o desastre sanitário no Brasil. Imprevidência e negacionismo não são novidades entre nós. De qualquer modo, Sagatrissuinorana é um convite à reflexão, inclusive para os adultos. 


Na fábula original a previdência de um dos porquinhos salva todos eles do lobo mau, enquanto à fábula brasileira se aplica uma antiga expressão latina: 
Homo homini lupus 
— a partir de Titus Maccius Plautus (254-184 a.C.), na formulação de Thomas Hobbes. 
(O homem é lobo do homem). 


Enfim, da história real de Brumadinho e Mariana sabemos como é a trama, embora eu não arrisque dizer que chegou ao último ato. Quanto a Sagatrissuinorana, com arte os autores recontam a história e a fábula, sensibilizam as nossas almas e então enxergamos um enredo que pode ser diferente, mais leve e belo, em um universo onde é possível viver sem medo de nossos sonhos serem soterrados — sem aviso.

 

Antonio Lima Jr.

Antônio Lima Jr. escreve contos, crônicas, resenhas e outros textos sobre a vida e nossas relações com o dinheiro.

Fez o curso de Formação de Escritores da Editora Metamorfose, com Marcelo Spalding, e frequentou as oficinas literárias de Raimundo Carrero e de Paulo Caldas, no Recife, e a de crônicas de Rubem Penz, na Oficina Literária Santa Sede. Tem formação de Coordenador de Laboratório de Leitura pela Casa Arca, com o professor Dante Gallian — método que propõe a humanização por meio da experiência estético-reflexiva da literatura clássica.

Participou de diversas coletâneas e antologias, a exemplo das publicadas pela Santa Sede Editorial, pela Editora Metamorfose e pela Oficina Literária Paulo Caldas, e ainda do Selo Off Flip: as antologias Nordestes e Terra, e o Prêmio 2024, com quatro textos entre os destaques das seleções, em conto e crônica. Prepara o primeiro livro solo.

Advogado e doutor em Saúde Pública, foi professor de ensino superior por cerca de 25 anos e auditor federal de finanças e controle por 20, hoje aposentado. É educador financeiro (DSOP) e cursa formação em Terapia Financeira Integrativa, pelo IPPLA.

Sua escrita é fundada numa ideia: "A vida se completa quando há propósito, e o dinheiro pode ser ponte ou abismo entre os dois."