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Sedução

Sedução

por Rachel Bueno

Sedução

Final de uma manhã quente, quase dezembro.

Manhã, cheia de compromissos e correrias, como é comum nas grandes cidades. Trânsito intenso, buzinas, pedestres correndo entre os carros, sinal que mal abria e já fechava. Congestionamento. Logo à frente uma moto fechou um ônibus. Freada brusca e muitos passageiros ao chão. Confusão e trânsito parado.

Estava atrasada, calor intenso, suando em bicas, irritada, nervosa, incomodada. Liguei o ar-condicionado. Alívio. Como era possível alguém viver sem ele?

Dirigia como um piloto automático, não tinha olhos e nem tempo para voltar a atenção ao que acontecia do lado de fora. Só tinha olhos para o relógio no painel do carro.

Tempo é dinheiro. Estou atrasada, detesto chegar tarde e deixar transparecer a ideia de descuido com meus compromissos.

O rádio sintonizado numa estação local dava notícias da região, das ações da Câmara Municipal e até da memória da cidade; tocava músicas de qualidade, mas nada disso importava. Era preciso chegar ao compromisso.

Nem mesmo a criança com fome pedindo alguns trocados, a mocinha prostituída em busca de clientes ou os vendedores ambulantes tiravam meu foco. Nem o meu e nem do resto da população ensandecida dentro  dos veículos ou caminhando apressada pelas ruas.

O sino da igreja matriz toca anunciando o fim da manhã e meu coração bate mais acelerado. Estou muito atrasada. Começou um tocar sem fim de buzinas, todos estavam atrasados. Instalou-se uma neurose coletiva.

Lembrei-me de não ter comido nada, bebi apenas uma xícara de café bem cedo. A fome começou a dar sinais. Não havia tempo para almoçar. Aproveitei o trânsito parado e a insistência de um ambulante e comprei um saquinho com amendoins torrados. Fiz minha refeição, ali mesmo. Um saquinho de amendoins torrados.

Dentre o buzinaço uma pequena colisão.  – Agora não sairemos mais daqui, gritei. Tudo parado de vez. As únicas que andavam com rapidez eram as pessoas nas ruas.

Em frente de uma loja, um homem com um megafone tentava chamar a atenção dos populares que passavam pela rua. Chamava-os para dentro, apresentava ofertas imperdíveis, mas nada tirava as pessoas daquele movimento autômato.

É o movimento da cidade. Quanto mais ela cresce mais impessoal se torna, mais fria, mais individualista, mais preocupada com os ganhos.

Quando finalmente o trânsito começou a fluir lentamente e fui me deslocando do centro nervoso da cidade para ruas um pouco menos movimentadas, com mais prédios residenciais e menos comerciais, comecei a perceber a presença de mais árvores, flores e até algum canto de pássaro. Abri o vidro, desliguei o rádio do carro para ouvir melhor o mundo lá fora, mas dentro de mim a agitação da cidade continuava. Percebi uma brisa soprar, apesar do calor intenso.

De repente, uma cena me tirou daquele frenesi. Parei o carro e ouvi um refrão conhecido,  "Vou deixar a rua me levar, ver a cidade se acender, a lua vai banhar esse lugar, e eu vou lembrar você", mas não foi a música que mais chamou minha atenção.

Olho para o lado e vejo um pequeno rádio de pilhas ligado, um som baixo, preso a um carrinho sobre a calçada, cheio de papéis, papelões, plásticos, alumínio e tudo que pudesse ser reaproveitado. Era o resultado de uma manhã de trabalho de um catador de lixo reciclável.

Ao lado do carrinho uma cena, onde a sensação era de um tempo parado, uma cena de filme, congelada.

Um homem e uma mulher, deitados na calçada, um de frente para o outro, na sombra de um muro, descansavam como se estivessem em sua cama, indiferentes à cidade e a seus habitantes.

Ambos com as roupas sujas, cabelos desgrenhados, pele queimada pelo sol, molhados de suor.

Ele apoiado num dos braços e com o outro sustentava a mão com um cigarro.

Ela apoiada diretamente no chão, roupas curtas, menores que seu magro corpo.

Entretanto, havia ali o que os tornava grandes, nobres, puros.

Olhar de sedução, cumplicidade, conversavam como se não existisse mais nada no mundo, como se estivessem dentro da intimidade de um quarto. Sorriam, falavam um com o outro, olhavam-se no fundo dos olhos, indiferentes à rua, a seu frenesi, ao calor, ao cansaço do trabalho extenuante. Se olhavam, se falavam, se seduziam. Ali havia a essência da vida.

Fechei o vidro do carro para não ser vista observando-os, para não incomodar, para respeitar a intensidade daquele momento, para não quebrar a magia.

Pensei: "Para onde mesmo eu estava indo? Onde eu pretendia chegar?"

Liguei novamente o rádio do carro, ainda em estado de torpor, sentindo a alma mais leve e a mesma canção tocava, "Vou deixar a rua me levar, ver a cidade se acender."

Segui em frente. – Por que eu tinha tanta pressa?

 

Rachel Bueno

Revisão: Maria Teresa Stefani

Rachel Bueno

Rachel Bueno é professora aposentada, formada em Letras e Pedagogia, é mestre em História da Educação pela Unicamp.

Seu título de mestre foi obtido através da defesa de dissertação sobre o escritor Euclides da Cunha. Participa há mais de 45 anos da Semana Euclidiana em São José do Rio Pardo como palestrante, semana que é dedicada a vida e obra do escritor Euclides da Cunha.

Entre crônicas e contos, publicou Aconteceu em agosto: casos e causos das Semanas Euclidianas e Por detrás da porta. No prelo, seu terceiro livro: uma autoficção destinada a mulheres com mais de 50 anos.

Também ministra oficinas de leitura e escrita para educadores e público em geral, além de trabalhar com leitura crítica e revisão de obras literárias.

A escritora tem participação assídua em Feiras Literárias e Bienais.