por Rosane Rubinstein Pagliuca
Peguei o casaco no cabideiro e saí. Só lá fora percebi que havia esquecido de me despedir do aniversariante.
Fiquei alguns minutos observando os outros se despedirem.
Marcelo foi um dos últimos a sair. Enquanto os outros falavam alto, ele ouvia, sorrindo de vez em quando. Antes de se afastar do grupo, virou-se para mim.
— Você veio de carro?
Disse que sim.
— Eu também. —uma pausa. — Vai com cuidado.
Deu um beijo rápido no meu rosto e seguiu pela rua sem olhar para trás.
Só no caminho de volta lembrei que, durante o almoço, ele trouxera à tona uma observação que eu fizera sobre um romance, numa conversa que eu mesma já havia esquecido.
Ao chegar em casa, fui ao closet pendurar o casaco. Foi então que senti algo no bolso, o que me surpreendeu, porque era a primeira vez que o usava. Era um envelope dobrado, sem nome de destinatário nem remetente, apenas uma folha amarelada, cuidadosamente guardada. Fiquei alguns segundos observando o papel antes de abri-lo.
"Passei anos tentando me convencer de que era apenas amizade. Tentei ignorar a alegria absurda que sinto quando você entra em uma sala e o vazio que fica quando vai embora. Talvez nunca exista um momento perfeito para dizer isso. Mas não consigo mais fingir que o que sinto é mais do que isso. Perdoe-me por não ter tido coragem de falar pessoalmente, anos atrás, quando ainda havia tempo."
Sentei-me no sofá. O apartamento inteiro havia mergulhado em silêncio. Quando cheguei ao final, encontrei apenas uma assinatura.
"Seu para sempre, M."
Permaneci olhando para aquela única letra, passando o dedo sobre o papel. O casaco estivera pendurado no cabideiro do restaurante durante todo o almoço. Éramos oito à mesa. Marcelo sentando-se ao meu lado nas rodas de conversa. Marcelo me esperando depois de uma reunião. Marcelo guardando um lugar para mim à mesa. Marcelo lembrando de detalhes que eu mesma esquecia ter contado.
Um sorriso surgiu sem que eu percebesse e me acompanhou até a cozinha, onde enchi um copo de água e o deixei esquecido sobre a bancada.
A carta permaneceu sobre minhas pernas durante boa parte da noite.
No dia seguinte, deixei um e-mail aberto por quase vinte minutos. Pedi duas vezes que repetissem uma pergunta durante uma reunião. Quando o celular vibrava, meus olhos corriam até ele antes de eu me dar conta.
Enviei uma mensagem para Marcelo. Combinamos numa cafeteria perto do escritório, como fazíamos às vezes.
Quando cheguei, ele já estava lá. Pediu um mocaccino logo que me viu entrar, sem perguntar se eu queria um também. Sabia que eu ia querer. Conversamos sobre coisas sem importância, como fazíamos sempre, saltando de um assunto para outro sem nenhuma ordem, e em determinado momento eu disse alguma coisa sobre o céu lá fora, sobre como aquela nuvem parecia exatamente com um rosto de perfil, e ele me olhou com aquela expressão que eu já conhecia.
— Que tipo de droga você usou hoje?
Ri antes de conseguir evitar. Ele já havia voltado ao café.
Mas minha atenção permanecia dividida entre a conversa e o envelope dentro da bolsa, e a primeira pausa mais longa foi suficiente.
— Preciso te mostrar uma coisa. Encontrei no bolso do meu casaco depois do almoço de aniversário ontem.
Ele abriu a carta e leu devagar, enquanto eu observava cada pequena mudança de expressão. Quando chegou ao final, não demonstrou reconhecimento nem surpresa. Apenas virou a folha e franziu a testa.
— Você reparou nisso aqui?
Havia uma dobra estreita no canto inferior direito, quase imperceptível: "Março de 2018."
— Você comprou um casaco com carta dentro e não sentiu nada no bolso antes? Preciso me preocupar com você?
Ri, e por um instante tudo pareceu exatamente como sempre havia sido.
Pousou na minha mão um peso que não estava ali antes, as extremidades desgastadas, a tinta mais fraca nas dobras, as manchas levemente amareladas. Os sinais estavam ali desde o início. Assim como o cheiro levemente empoeirado do casaco que comprei numa tarde qualquer, entre araras de roupas de grife que já haviam sido de outras pessoas.
Assenti sem responder e guardei a carta na bolsa. Por um momento, tudo pareceu exatamente como sempre havia sido.
Talvez porque fosse.
Quando nos despedimos, ele acenou e atravessou a rua. Dentro da bolsa, meus dedos encontraram o envelope e permaneceram ali, sentindo as dobras do papel através do tecido, como se eu pudesse, pelo tato, decifrar o que pela leitura não havia conseguido.
O sinal abriu e fechou várias vezes até que eu trouxesse minha atenção de volta.
Eu atravessei, carregando o peso de uma carta que não era minha e de um amor que nunca havia sido de ninguém.
Rosane Rubinstein G Pagliuca é formada em Administração e Direito, com especialização em Direito Penal e Processual Penal. Observadora das contradições humanas, escreve sobre relações que nascem sob tensão, afetos que exigem coragem e escolhas que transformam destinos. Em suas histórias, interessa-lha menos o óbvio e mais aquilo que se revela nas zonas de silêncio.