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Sessão das Dez

Sessão das Dez

por Matheus Costa

Sessão das Dez

Todos os fins de tarde, Elias realizava um protocolo com disciplina religiosa.

Iniciava o ritual diante do espelho. Lavava o rosto com sabão de coco e após secar-se desenhava o contorno da barba grisalha com uma navalha. Uma régua fina garantia a simetria que ele desejava — alinhava as costeletas na altura do lóbulo da orelha. Finalizava o asseio com uma haste de algodão embebida em adstringente, removendo qualquer vestígio de gel na testa ou nas têmporas para evitar a formação de crostas. Após descartar a lâmina, selecionava uma das muitas pinças de sua coleção para extrair, um a um, os pelos rebeldes que haviam escapado ao primeiro corte.

O segundo procedimento dizia respeito às suas roupas. O terno cáqui era o que mais lhe agradava, de forma que sempre acabava retornando a ele. Inspecionava as lapelas à procura de fiapos, passava o rolo adesivo para remover qualquer sujeira que pudesse ter escapado à lavagem e, por fim, ajustava o caimento dos ombros. Conferia o alinhamento dos botões: se algum estivesse frouxo, ele mesmo recorria ao estojo de costura para apertá-lo; se o ajuste estivesse além das suas capacidades, levava a peça no dia seguinte ao seu amigo alfaiate.

Não era menos exigente com os calçados. Insistia em engraxá-los pessoalmente, escovando e lustrando o couro até que a superfície exibisse um reflexo limpo. Gostava de seus cadarços alinhados de maneira paralela. Quando finalmente os calçava, dava sempre dois golpes com cada pé para testar o som da pisada.

Seu último cuidado era um perfume com notas predominantes de sândalo amadeirado. Aplicava, com parcimônia, pequenas doses em pontos estratégicos, já que o excesso poderia causar o efeito contrário ao que desejava.

Depois de se certificar que estava trajado com o rigor que considerava adequado, ele buscava uma senhora que aparentava ter a sua idade.

Na maior parte das vezes, ela estava assistindo a novela das três. Elias esperava pacientemente que seu programa terminasse antes de chamar sua atenção, evitando interrompê-la.

Após acomodá-la em sua cadeira de balanço à mesa, Elias pôs a água para aquecer e buscou os grãos de café colhidos na horta da casa. Enquanto os triturava no pilão, deixando o pó repousar em uma tigela, recordou-se do charuto cubano que abandonara anos antes, quando a saúde dela começara a declinar. Observando-a de relance, notou uma apatia incomum em seu semblante e, intrigado, perguntou:

—Como está se sentindo? O médico me falou que você emagreceu três quilos na última semana. Se a comida não lhe agradar, podemos contratar uma cozinheira.

—Muita gentileza a sua se preocupar comigo, mas não há nada de errado. Não poderia também aborrecer meu marido com um cozinheiro novo. Devia ver como aquele coitado trabalha.

—Seu marido...? — ele repetiu, confuso com a frase — Ah, não se preocupe com isso. Apenas me diga o que precisa, conversarei com ele. Sobre aquele assunto da doméstica, o Lúcio concordou em ajudar com os gastos. Ela estará aqui todas as quartas às 8. Irei recebê-la pessoalmente. Sempre vejo você às pressas para terminar tudo, agora está livre para assistir à novela da manhã.

—Lúcio... Ele não é uma graça? Deve haver algum engano, ele ainda é muito novo para isso — ela sorriu — Sabe que, ainda há pouco, ele apareceu em nosso quarto? Dizia que não conseguia dormir, que sentia saudades... Mas era medo do escuro, claro; ele sempre detestou dormir sozinho. Não o confrontei. Foi mais uma daquelas vezes em que meu marido, entre resmungos, acabou indo dormir na cama dele. Ele insiste que o menino precisa aprender a ser independente, usa aquela voz rabugenta de quando está zangado... —franziu o cenho, imitando a expressão carrancuda do marido — Mas por quanto tempo mais o teremos assim, tão pequeno?

Elias não respondeu imediatamente, nem a senhora parecia esperar uma resposta. Em vez disso, ela ficou mexendo em seu dedo anelar esquerdo. Elias notou que havia algo errado:

—Não está usando sua aliança hoje?

—Ah, você notou? Acontece que eu a perdi há alguns meses. Chorei tanto! Pedi desculpas várias vezes ao meu marido, Deus sabe o quanto trabalhou para comprar esse par. Ele é um anjo, sabe? Mas acho que não compreende como me sinto.

—Mesmo o melhor dos homens tem dificuldade em ler o sentimento das mulheres, não seja tão dura com ele.

—Tem razão, mas ainda assim queria que ele soubesse melhor das coisas.

—Por que não tenta conversar com ele sobre isso? Conheço bem o seu marido, sei que ele vai adorar escutá-la.

—Então o conhece? Deveria imaginar pela intimidade com que transita em nossa casa. Ele deve ter contado tudo, é bem a cara dele — ela deu um risinho — Aquela horta, esse pilão e até esses móveis são o orgulho dele. Compramos todos sem nenhuma ajuda, sabia?

—Sei muito bem — Elias ofereceu um sorriso, mas seu olhar desencontrou-se com o da senhora, que fitava algo pela janela lateral.

—Gostaria de ouvir uma história? — Elias levantou um caderno de couro que guardava no paletó — É do meu diário. Creio que você vai gostar, talvez até acabe se reconhecendo em alguma cena.

 —Ah, por favor, me desculpe, não quero invadir sua privacidade.

—Eu insisto.

—Está me deixando sem escolha. Por favor me perdoe, sou muito curiosa. Meu marido sempre me repreendeu por isso... Mas não vou mais me segurar, fique o senhor sabendo que eu adoro uma boa fofoca. Quero muito saber o que tem a me contar!

O diário era recém-saído de uma restauração encomendada. Elias estava decepcionado com o resultado. Apesar da costura da encadernação ter sido refeita, o antigo couro legítimo da capa foi substituído por uma versão sintética, que com pouco tempo de uso já estava com uma aparência bastante desgastada, sobretudo nas pontas. Com um gesto caprichoso, Elias alisou a borda puída, arrancou uma pequena lasca ressequida e ajustou a fita de cetim do marcador.

Abriu na página de sempre.

Leu em voz alta, com cuidado:

"Querido diário, as terças-feiras de outubro são sempre as mais surpreendentes..."

Ergueu os olhos, buscando confirmar a atenção da mulher. Ela estava cabisbaixa, seu semblante sugeria um sorriso cansado. Percebendo a pausa repentina, a mulher acenou para ele.

—Pode continuar, apenas fiquei surpresa pela passagem... Eu costumava me encontrar com meu marido no antigo Cine Glória às terças.

O homem respondeu com um pigarro contido, recompôs a postura na cadeira e voltou às linhas:

"

12 de outubro de 1965,

 

Entrei, como de costume, na última sessão para assistir àquela velha peça francesa, Un Banc pour Deux. O sr. Heitor foi, mais uma vez, generoso ao ceder-me a sala dos fundos por um preço módico. Era um cômodo que enfrentava uma lenta reforma havia vários anos. Segundo o senhor Heitor, o mau cheiro persistente — resultado de uma falha no exaustor do banheiro logo ao lado — aliado às péssimas condições estruturais impedia que a sala fosse oferecida ao público comum. Ele se dizia satisfeito que pessoas como eu pudessem encontrar alguma utilidade nela.

Eu costumava levar minha própria pipoca. O sr. Heitor me permitia que eu utilizasse a máquina dele para prepará-la, desde que a deixasse impecável ao final. Levei também a minha marca favorita de refrigerante diet de uva, a Imperial Violeta, além de chocolate amargo da BLKCacau e amendoim da Grão Campeiro.

Acomodava-me na poltrona com a visão mais central da sala — outro dos meus trunfos. Explico: quando o sr. Heitor concordou em me ceder o cinema, levei minha própria trena e, depois de algumas horas de medições, reuni todos os dados necessários para calcular a posição ideal do assento. E como sempre assistia sozinho, ela permaneceria livre para mim.

Por esse e outros motivos, era uma grande felicidade ter um cinema exclusivo com um catálogo temperado ao meu gosto — os "Dramas de Cadeira Vazia", como Bernardo, meu amigo mais petulante, gosta de chamar meus filmes.

Justamente por reconhecer esse privilégio, eu sabia que meu santuário intocado não duraria.

E não durou.

Na noite passada, quando a história se aproximava da melhor cena — a obra-prima que invariavelmente enche meus olhos de lágrimas — ouvi a porta se abrir com indelicadeza.

Uma voz atravessou o escuro:

—Un Banc pour Deux! Meu Deus, eu amo esse filme! Vovô, onde está aquele rapaz que você falou que aluga a sala? Não tem ninguém aqui... posso ficar e assistir sozinha?"

Devido ao tamanho da sala, ela não me viu logo de cara e imaginou estar sozinha. Mesmo assim, a interrupção foi o suficiente para eu perder completamente a imersão da cena.

Depois disso eu quase me levantei para brigar com aquela garota. Imagine só, interromper o meu filme, e na melhor parte!

Entretanto respirei fundo. Não era apropriado que eu levantasse a voz para dar sermão em uma mocinha, seria um vexame ainda maior se ela começasse a chorar, parecia muito delicada. Além disso, havia de reconhecer que o cinema era antes de tudo local público.

Isso e... tudo bem, vou ser franco. Devido à forma como se aproximou, pude ver suas feições delicadas mesmo à pouca luz. A face tinha traços tão deslumbrantes que pareciam ter sido esculpidos à mão. As maçãs do rosto estavam levemente avermelhadas. Percebi, quando me encarou, que ela acreditava estar sozinha na sala e que estava arrependida da sua grosseria.

Antes mesmo de me cumprimentar enxerguei sua doçura. Havia certa fragilidade na forma como movimentava as mãos pequenas. E os seus longos cabelos caindo sobre um vestido verão de rosas vermelhas...

Depois daquela visão meu aborrecimento se dissolveu no ar."

 

Elias fez uma pausa estratégica. Resolveu fitar a chaleira que assobiava para dissimular sua atenção em outro ponto. Esperava captar uma reação da mulher ao trecho que acabara de ler.

—Não está curiosa para saber quem era essa intrusa?

—Muita! Devia ser uma mulher fascinante. Nunca ouvi alguém falar de outra pessoa com tanto entusiasmo. Reconheço o amor de longe, sabia? Sei que o senhor se apaixonou por ela!

—Senhor? — Elias repetiu — É, suponho que sim. Você está certa, estava mesmo apaixonado.

—Por acaso falei algo de errado? Desculpe... não foi minha intenção ofendê-lo.

—Não, de forma alguma — esforçou-se para mostrar seu melhor sorriso — Estava apenas relembrando a cena do filme, a que eu cito nesta entrada do meu diário. Era a favorita dela. Gostaria que eu a descrevesse?

—Sim, por favor.

—Pois bem. Mas, para entendê-la, é necessário que você conheça o que uniu o casal do filme. Na história, um soldado ferido e uma bailarina se encontram no banco de uma repartição pública, um lugar reservado para aqueles que esperam reparações de guerra. Ela acompanhava a mãe, que ainda chorava pelo filho perdido. Já ele era um inválido, até então o lugar era a rotina que precisava vencer para recolher pensão.

—Não imaginei que o "banco" do título tivesse esse sentido.

—Eles passam a se encontrar neste lugar, no mesmo dia de cada mês. Uma paixão nasce entre os dois. Até que a guerra volta a assolar o soldado. Ele recebe uma carta de convocação de seu superior. Mesmo inválido, um médico é valioso. Arruinado, o país precisa de toda a ajuda disponível. Na véspera da partida, eles selam um pacto: até que o sol nasça, ninguém pode chorar ou ficar triste. Diante disso, eles passam a noite trocando piadas bobas, fazendo caretas um pro outro. Nas primeiras horas eles genuinamente se divertem, até mesmo esquecem da partida iminente. Porém, quanto mais a manhã se aproxima, mais desesperado fica o riso. Os dois passam a rir com uma fúria contida, tentando extravasar a angústia que sentem. Quando surge a alvorada, a bailarina finalmente desaba. O soldado engole o próprio choro enquanto a abraça fortemente. O casal se despede, a fantasia chega ao fim. A bailarina, sozinha em seu apartamento, sussurra para o vazio:

"Ei, se eu tivesse pedido para você ficar... o que teria feito?"

Escutando o som estridente da chaleira, ele levantou-se para preparar o café. Durante alguns segundos a frase dita pela bailarina ecoou no ar. A mulher resolve quebrar o silêncio e pergunta:

—Se ela tivesse pedido... O que o senhor acha que ele teria feito?

—Acho que ele teria ficado.

—Trairia a pátria? Seria um desertor, um pária?

—E o que a pátria poderia oferecer em troca da vida que ele teria ao lado dela? Não é pela promessa de voltar para a própria família que os homens aceitam ir à guerra?

—Entendo o seu ponto. Mas viveriam sem chão, sem sossego. Teriam de fugir para muito longe. Que mulher desejaria uma vida de exílio? — Ele serviu café para ela.

—Não seria a vida que a maioria das mulheres sonha — respondeu e voltou a se sentar em sua própria cadeira.

Serviu então sua própria xícara antes de continuar:


 —Mas eu creio que a resposta é menos óbvia do que parece. Quando reflito sobre aquela cena, eu imagino a bailarina sentada à janela todos os dias, perguntando a si mesma o que teria acontecido se tivesse pedido que ele ficasse. E eu não acho que seu sofrimento aconteça porque existisse mesmo uma vida melhor esperando por eles em algum outro lugar. Seu arrependimento é porque, naquele instante, havia algo que ela queria fazer, e não o fez...

Tomou mais um pouco de café antes de continuar. 

—Acho que depois daquele dia ela ficaria para sempre com medo da sua covardia, como um espectro à espreita. Desconfiaria de si mesma. Duvidaria da própria capacidade de ser feliz. Temeria o próximo momento em que sua vontade fosse posta à prova — com medo de falhar outra vez. A autoindulgência poderia levá-la a culpar o soldado. Diria para si mesma: "Ele não foi homem de verdade. Se me amasse, teria ficado — mesmo que eu não tivesse pedido." O soldado, agora distante — talvez morto —, tornar-se-ia o bode expiatório perfeito. É uma saída sedutora, embora pouco elegante: absolve-se a própria falta de coragem ao condenar quem não soube interpretar o silêncio.

Ele fez uma breve pausa.

—Mas a verdade é que, no instante decisivo, foi a voz dela que faltou.

—Devo dizer que discordo do senhor. O soldado também foi covarde. Ele queria ficar, mas não disse nada. Não acha justo dizer que ele também perdeu a voz no momento decisivo?

—Concordo plenamente. Os dois foram cúmplices do próprio destino. O soldado esperava que o pedido da bailarina fosse seu resgate. Queria que ela o libertasse do dever, que assumisse o peso da decisão final. Assim, não precisaria escolher, apenas ceder ao desejo. Ele também foi indulgente consigo mesmo. Preferiu o martírio da farda ao risco de ser o único responsável por desertar. Creio que, para ele, era mais suportável morrer por uma causa imposta do que viver sustentando uma escolha proibida.

—Que tragédia. Se um dos dois tivesse falado o que queria poderiam ter ficado juntos.

—Exatamente. O amor deles não foi destruído pela guerra. Morreu porque ambos esperaram que o outro tivesse a voz que lhes faltava.

—Eu gostaria de algum dia poder assistir esse filme que você fala, senhor Elias — o homem pareceu hesitar ao escutar.

—Algo me diz que você gostaria de assisti-lo.

—O senhor é um pouco suspeito para falar isso — ela riu.

—Acho que sou mesmo. Este era o filme preferido da Helena. Vocês duas se parecem bastante. Helena, ao contrário das outras mulheres que conheci, apreciava meu lado mais peculiar. Fazia incontáveis perguntas sempre que eu começava a discorrer sobre a lente usada em determinada cena, o propósito desta ou daquela iluminação, ou a maneira como certos ângulos eram capazes de contar uma história diferente. Era a única que realmente se interessava quando eu começava a tagarelar. Imagine minha surpresa quando, dias depois de uma dessas conversas sobre técnicas de filmagem, ela me abordou de repente curiosa para saber como eram filmadas as cenas com espelhos.

—Helena era o nome da sua esposa? —Elias fitou por um tempo o fundo da sua xícara de café antes de respondê-la.

—Sim, este era o nome dela — Elias levantou-se para pegar o pote de manteiga.

Costumava guardar os itens mais essenciais na prateleira mais baixa para que a mulher tivesse acesso sem precisar de um banco, porém não encontrou o pote lá.

"Ela deve ter esquecido novamente de colocá-lo aqui. Deve ser sua doença novamente..."

A senhora então levantou-se e foi em direção ao armário que ficava acima do fogão, levantando-se sob a ponta dos pés para alcançar o item que procurava. Voltou à mesa com o pote de manteiga.

Ela havia adivinhado a intenção de Elias, então entregou para ele o pote.

—Poderia me contar mais sobre ela? — a senhora perguntou, sentando-se novamente à mesa.

—Perdão? 

—Sobre a sua esposa. Desculpe se estou sendo impertinente, fiquei curiosa sobre a relação de vocês dois — a senhora parecia nervosa quando tocou novamente no assunto da esposa, então começou novamente a alisar seu dedo anelar onde deveria estar sua aliança.

—Ah, claro. Eu adoraria, por isso trouxe isto aqui comigo — apontou para o diário — Você me fez lembrar algo que aconteceu há muito tempo entre nós. Deixe-me procurar... —Elias folheou o diário até pousar o dedo em uma página com algumas marcas murchas redondas — Aqui está...

Elias acomodou sua cadeira junto à janela, tentando capturar os últimos vestígios de sol. Aos poucos, porém, a luz esparsa que ele insistia em colher foi sufocada pela noite e por uma densa nuvem negra que começava a devorar o céu.

"

23 de março de 1968,

Estou há quatro dias sem escrever neste diário, um evento sem precedentes. Nunca pensei que a falta de continuidade de meros quatro dias na contagem destes registros pudessem causar dor física.

Como já bem registrei, Helena e eu noivamos há pouco tempo. Recebemos a benção dos seus pais, que cederam após a intercessão enérgica do sr. Heitor — que os céus abençoem aquele homem mais uma vez.

Como também já falei, a resistência deles é plenamente justificada. Devem estar preocupados com o tipo de futuro que um mero universitário em uma instituição de quinta categoria pode oferecer à sua filha. Confesso que compartilho com eles esta preocupação.

Por isso mesmo, tenho dedicado toda a minha energia para economizar o suficiente para que pudéssemos nos casar. O primeiro passo, obviamente, seria a compra das alianças.

Helena nunca foi uma mulher exigente. Ela sempre enfatizou que meu amor era tudo que precisava. Entretanto, ela era incapaz de esconder seu fascínio por um par específico à mostra em uma vitrine da elegante L.G. Castelo, uma joalheria vizinha ao cinema do seu avô. Não há maneira fácil de dizer que o preço daquele par estava bem acima do nosso orçamento, contudo Helena nunca me constrangeu com o pedido.

Porém, eu não conseguia tirar da cabeça a visão do seu desejo. Para mim aquele par tornou-se uma questão que feria minha dignidade como provedor, ou pelo menos com a espécie de homem que eu gostaria de ser para ela.

Neste assunto, tive mais uma vez a ajuda do sr. Heitor. Ele me recomendou a um de seus fornecedores que me ofereceu um trabalho de fretamento. Éramos um grupo de cinco pessoas, entre eles o motorista. Durante a semana, o trabalho iniciava às 6 da manhã e continuava até o anoitecer, por volta das 18, com uma pausa de 50 minutos para o almoço. Depois disso, eu seguia diretamente para a universidade. Aproveitava o banheiro comunitário para tomar banho e trocar as roupas antes de seguir para minhas aulas noturnas. Retornava para casa por volta das 23 e deitava para dormir uma hora depois. Trabalhava também aos fins de semana, nesses casos, minhas tarefas seguiam até às 20.

Devo admitir que meu corpo estava totalmente desadaptado para o trabalho braçal. Sofria com dores terríveis durante as primeiras semanas. Tenho certeza de que muitos outros enfrentam realidades piores, mas aquele foi meu próprio inferno. Sempre imaginei que seria minha mente a ganhar meu sustento e não meus braços.

Apesar disso, no final tudo valeu a pena. Depois de sete longos meses fui capaz de economizar o bastante para comprar o par de alianças que Helena tanto desejava. Fiquei sonhando acordado durante meses imaginando o brilho que seus olhos teriam ao ver elas à sua frente.

E de fato nunca a vi tão feliz como no dia que a entreguei as alianças. Naquele momento, cada gota de suor valeu seu peso em ouro. Eu seria capaz de passar horas observando-a admirar as pedras brilhando em seu dedo, o encantamento brilhando em seus olhos.

Aquela aliança também foi um ponto de virada importante na relação com meus sogros, que apesar de não aprovarem totalmente nosso casamento, passaram a reservar pelo menos um silêncio respeitoso para ele.

Casamo-nos com todas as cerimônias disponíveis devido ao dinheiro que eu havia economizado.

Era de fato um final feliz e tudo poderia ter terminado bem, se eu não tivesse sido tão estúpido...

Segundo minha sogra me contou — e como eu próprio já notara —, de tanto admirar a aliança, Helena passara a girá-la no dedo por hábito. Ela não parecia notar o gesto, e eu não tinha intenção de incomodá-la por isso, já que me parecia uma mania inofensiva.

Mas eu estava errado.

Certa manhã, Helena foi à feira com sua mãe. Quando as duas pararam para assistir um espetáculo de mágica acontecendo no centro do mercado, Helena ficou tão absorta nos truques que não reparou a aliança cair no chão enquanto a girava. Sua mãe a ajudou a procurar e até mesmo algumas pessoas se compadeceram da sua evidente aflição e se juntaram à busca, mas é claro, sem sucesso.

É aí que vem a pior parte... Quando ela me contou que havia perdido, fiquei furioso:

"Você tem noção de quanto suor eu derramei pra comprar aquilo? Eu fiz isso por causa de você. De você, Helena! E olha como você trata, como se fosse um brinquedo!"

Helena devia estar bastante triste de perder seu precioso presente, mas estava com ainda mais medo da minha reação. Seus braços franzinos estavam totalmente recolhidos quando se aproximou de mim. A mesma delicadeza que eu havia reparado no cinema estava novamente diante de mim, mas preferi ceder a minha fúria.

Quanta coragem ela precisou para vir até mim... E em vez de consolá-la, eu apenas dei razão ao seu medo! Idiota!

Gostaria agora de me esconder em algum lugar e nunca mais aparecer.

Já faz quatro dias que não nos falamos. Depois do que eu disse, ela não pronunciou mais uma só palavra; apenas pediu desculpas, desatou a chorar e foi embora para a casa dos pais.

Nunca senti tanto medo como agora, acho que posso tê-la perdido para sempre...

"

Quando Elias ergueu o olhar, notou que a senhora chorava silenciosamente. Elias parecia preocupado e fez menção a levantar-se, mas a senhora o acalmou com um aceno.

—Não é nada... — ela tentou forçar um sorriso entre as lágrimas — É apenas que me tornei uma velha chorona. Acho que o tempo me deixou sensível demais.

Elias soltou um suspiro longo.

—É um capítulo vergonhoso da minha história. Sinto muito por obrigá-la a escutá-lo.

—É preciso muita coragem para expor seus defeitos assim. O senhor deveria estar orgulhoso — ela disse, e o encorajou com um aceno de cabeça. — Mas o que aconteceu depois? Como vocês dois reataram?

—Depois de alguns dias eu não consegui mais ficar longe dela. Fui até a casa dos seus pais e pedi a sua mãe para que lhe desse o recado para me encontrar no cinema do seu avô. Eu não tinha certeza se ela apareceria, mas na hora marcada lá estava ela. Meu coração bateu da mesma forma de quando a vi pela primeira vez. Quando consegui falar, tudo ficou mais fácil. Implorei pelo seu perdão. Depois disso, foi como se a nuvem negra que pairava sobre nós finalmente se dissipasse.

—Silêncios assim são assustadores — comentou ela, pensativa. — O que o senhor acha que teria acontecido se não tivesse encontrado sua "voz", como aconteceu com o soldado da história? Se nunca tivesse pedido desculpas, acha que teriam permanecido juntos?

—Eu não sei? sinto que ficamos mais próximos depois disso. E quando aconteceu outra vez, senti a mesma coisa. Para o casal que eu e Helena nos tornamos depois de tantos anos, esse certamente seria um evento irrelevante, mas é diferente para quem éramos naquela época. Estávamos em um momento bem mais delicado, qualquer erro poderia nos fragmentar para sempre. Por mais que gostássemos um do outro, é difícil confiar em alguém cujo pior lado você ainda não conheceu.

Seguiu-se um silêncio que não era exatamente desconfortável; era o tipo de quietude que surge após uma confissão honesta. O breve silêncio que serve de interlúdio entre dois assuntos quando um dos dois tem seu conteúdo esgotado.

Ouviu-se, aproximando-se, o ruído de sapatos de borracha. Uma figura feminina vestida em um uniforme rosa surgiu no vão da porta, por trás de Elias.

—Dona Clara! — a voz de uma enfermeira chamava a mulher à frente de Elias. Porém foi ele que, espantado, primeiro se levantou.

—Pode vir comigo um momento? — continuou a moça.

Elias assistiu, imóvel, enquanto a enfermeira ajudava a mulher a se erguer.

—Como você entrou aqui, jovenzinha? Tenho certeza de que tranquei a porta.

—Senhor Elias, um minuto e já falo com o senhor. Está na hora da medicação da Dona Clara.

—Medicação? Deve haver um equívoco. Não há nenhuma Clara aqui — ele insistiu, tentando manter a compostura. — Se me permite, eu a conduzirei até a saída. Está acompanhada?

A enfermeira inclinou-se e sussurrou no ouvido da senhora: — Dona Clara, detesto pedir ajuda, mas pode falar com ele?

A senhora ofereceu a Elias um sorriso doce e complacente.

—O que está acontecendo, Helena? — ele murmurou — Não me diga que não se lembra... que acredita nela?

—Elias, sinto muito. Eu conheço a Helena, mas não sou ela — respondeu a senhora com uma voz calma. — Preciso ir com esta mocinha agora. Como de costume, conversaremos amanhã.

Ele buscou o olhar da enfermeira, tentando desmascarar aquele absurdo, mas a jovem mantinha os olhos fixos no chão. Também notou que o sorriso da senhora começou a se dissolver em uma expressão condescendente.

Decidiu então apenas agir de acordo, era melhor evitar o constrangimento agora. Endireitou a postura e forçou o melhor sorriso que conseguiu.

—Perdão, fui bastante impertinente. Muito obrigado por ajudar ela, jovenzinha.

—Sem problemas, Sr. Elias. Seu filho, o Sr. Tiago, pediu para avisar que vai se atrasar. Precisou levar os gêmeos ao hospital, mas deve chegar às 19h para buscá-lo.

Elias assentiu, sustentando a máscara de cortesia até que as duas cruzassem o portal. Sozinho, desabou na cadeira. Suas mãos, agora trêmulas, folhearam o diário com urgência. Não precisou ler muito para que os nomes estranhos que a enfermeira havia citado ganhassem significado.

Parou na última entrada, de poucos meses atrás. A página estava preenchida com uma caligrafia errante, além de incontáveis marcas circulares de água:

"

12 de outubro de 2025,

Hoje faz 60 anos que vi Helena pela primeira vez.

Dia após dia tenho travado uma intensa batalha contra o tempo e este caderno tem sido a minha arma mais poderosa.

Estou feliz que comecei a cultivar esses importantes registros da minha vida com Helena tão cedo, pois assim posso lembrar como ela era por essas páginas.

Já há um tempo, a vida parece ter parado para mim. Sinto que o dia que ela se foi nunca terminou.

Tenho resistido como pude, sustento minha rotina de maneira sistemática. De alguma forma, a repetição tem me protegido de perder totalmente a sanidade.

Contudo, às vezes perco o rastro de um par de sapatos ou me atrapalho com o nó da gravata. Nesses dias, Clara, minha cunhada, faz a gentileza de me socorrer. Ela sofre do mesmo mal que eu, embora com uma severidade menor.

Devo dizer que entre todas as inconveniências que minha doença tem causado a mim e aos outros ao meu redor, a pior delas me ocorreu nas últimas semanas. Eu não consigo mais lembrar do rosto do meu anjinho, estou esquecendo como era a face da minha Helena.

Por causa disso, sempre carrego a foto do nosso casamento na minha carteira..."

Elias parou de ler. Vasculhou seu bolso à procura da carteira. Como estava escrito no diário, a fotografia estava mesmo lá guardada. Um pouco desgastada, mas era uma boa foto. E o mais importante, o rosto de Helena era visível. Não queria acreditar no que havia acabado de ler, mas também não queria parar ali. Resolveu continuar.

"

Nosso filho, Tiago, veio me visitar na semana passada. Ele conversou com o meu médico e disse que minha situação é grave, a medicação não está mais ajudando. Por isso, todas as noites durmo sem saber se vou acordar sendo a mesma pessoa

Mas nem tudo são más notícias, Tiago me falou que sua esposa está esperando gêmeos.  Dá pra acreditar? Gêmeos!

Deus, fico pensando que cara Helena teria feito se recebesse a notícia que seria avó.

Não é justo, não é justo mesmo... Ela queria tanto isso. Deus sabe o quanto queria.

Se apenas tivesse acontecido alguns meses mais cedo... Ela poderia ter estado aqui e então seus olhos brilhariam como naquela vez que eu mostrei nossas alianças. Como eu queria ver seus olhinhos brilharem daquele jeito!

Por que, Deus? Por que fez isso com ela? Por que não me levou junto?!

Por que me deixou aqui sozinho? Por favor, me responda!

Me diga! Nunca atendeu minhas orações quando ela estava doente, mas não vou permitir que fique mudo desta vez. Exijo uma resposta!

Ou não responda... apenas traga ela de volta. Eu estou disposto a aceitar esse acordo.

O Senhor não poderia trazê-la de volta? Eu imploro, com todas as minhas forças, prometo rezar para você até o fim da minha vida... Até que meus joelhos se esfolem, até que minha voz acabe, até que eu caia morto. Apenas traga ela de volta, é tudo que lhe peço.

Então tudo bem, se eu não tenho o suficiente para barganhar, apenas me diga que ela está bem. Me diga, com todas as letras, que está cuidando dela aí em cima.

Mas dessa vez, somente desta vez, eu vou ser abusado com o Senhor... porque eu gostaria mesmo que me deixasse falar mais uma vez com ela. Para isso, eu ofereço tudo que eu tenho. Se isso não for possível, apenas permita que eu a veja por um segundo, ou uma fração de segundo, por favor.

Por favor...

Por favor...

Por favor, escute minhas súplicas, meu Pai, alguém, qualquer um... Por que somente eu escuto minha voz? Por que não há ninguém para me consolar? Por que não posso me queixar para minha pequena Helena como sempre fiz?

Minha súplicas são inúteis... nenhuma está adiantando.

Talvez estas palavras não sejam boas o bastante.

Ou talvez eu deva parar de escrever. Afinal, por mais que eu escreva, estas palavras nunca vão chegar a ela, nunca mais... Como eu queria lhe falar o que estou sentindo. Como dói o que eu sinto.

E mesmo que não faça tanto que ela partiu, já há tanto que eu queria lhe falar!

Eu queria que estivesse aqui, que brigasse comigo.

E se ela só pudesse estar comigo por um instante, eu pediria que gritasse, que exibisse sua presença o mais forte que conseguisse.

Intenso o bastante para deixar uma boa impressão.

Forte o bastante para que ficasse gravado, poderoso o bastante para que eu nunca esquecesse...

Guardaria essa fração dela na minha alma o mais fundo que conseguisse e nunca a deixaria ir.

Amaria essa memória como a amei a vida inteira.

Seria o meu tesouro mais precioso.

Adeus,

Minha pequena Helena.

"

Havia uma grande descontinuidade após aquela entrada, mas Elias não sentiu necessidade de preencher o restante dos registros.

Ele notou que no canto da folha havia uma pequena contagem feita com vários blocos de quatro traços verticais e um horizontal, exatamente como nos filmes em que prisioneiros marcam os dias de cárcere.

Ao olhar para aqueles riscos, ele soube que não era a primeira vez que relia aquela página, quão desgraçado era seu destino.

Teve vontade de arrancar a página, de amassá-la com violência, reduzi-la a pó depois de fatiá-la incontáveis vezes, seria capaz até mesmo de mordê-la se fosse preciso para aliviar sua frustração...

No entanto, ao encarar novamente a fotografia de Helena, mudou de ideia. Deliciou-se mais uma vez com o sorriso dela, que mesmo por um instante, foi capaz de derreter sua fúria. O impulso violento foi dando lugar a um enorme vazio em seu peito, que o sufocou até que as primeiras lágrimas caíssem.

Alisou a página com carinho e — antes de fechar o diário — Elias adicionou a ela mais um traço.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Matheus Costa

Bacharel em Física e servidor público, sou cearense radicado em Brasília. Tenho interesse em diversas áreas indo desde jogos de RPG, violão e arte; até ciências, matemática, idiomas e filosofia. Sou também leitor em formação contínua, tenho me dedicado aos clássicos como forma de ampliar repertório. Grande fã de Kazuo Ishiguro e dos épicos de Homero, cultivo há algum tempo o hábito de colecionar poemas.