por Antonio Pedro da Costa
Tempos atrás, comecei a ter muitos problemas para controlar o comportamento do meu filho. Ele tinha uns nove anos e não fazia nada do que eu e minha mulher mandávamos, pedíamos ou até implorávamos. Uma amiga, vendo nossa angústia, nos indicou um psicólogo especializado em crianças.
O Dr. Afonsim. Fiquei em dúvida se o haviam batizado assim em homenagem ao presidente argentino. Mas, enfim, o Dr. Afonsim nos fez uma série de perguntas, levou um tempão falando e concluiu o de sempre:
— Criança precisa de limites e vocês não são capazes de colocar esses limites. Aparece aqui nos testes. A mãe é omissa e o pai é ausente. A criança não pode se sentir responsável por si mesma. Eu, por exemplo, também tenho um filho de nove anos e nunca precisei dar uma bronca nele. Eu conheço o meu filho de verdade. Só com o meu olhar ele já sabe como se comportar.
Fiquei bastante impressionado com o poder do olhar do Dr. Afonsim. E morrendo de inveja. Nem o olhar de Raio X do Super-Homem me parecia mais desejável. Aquele olhar de quem conhecia o filho de verdade! Talvez, com um olhar como esse, meu filho me obedecesse.
De qualquer modo, mesmo sem olhar de super-herói, minha mulher e eu procuramos com persistência transmitir valores de obediência e respeito aos pais. Mas sem muito resultado. Tentamos de tudo: terapias, incentivos, recompensas, castigos, mesmo uns safanões de vez em quando. Procurei até desenvolver um olhar firme, de grande autoridade, que mostrasse a meu filho que eu o conhecia de verdade. Mas não deu muito certo.
Na adolescência, o comportamento dele degringolou de vez. Deu para beber. Brigava na rua. Quase não parava em casa. Minha mulher lutava todo santo dia para ele se levantar e ir para a escola. Ele a xingava, mas acabava indo, sempre atrasado. Foi reprovado um par de vezes.
E nos desafiava. Um dia, chegou em casa completamente bêbado e começou a brigar e a xingar a mãe. Eu comecei a olhar bem feio e autoritário para ele, mas ele devolveu o olhar e falou:
— Qual o problema, velho? Por que você está me olhando assim?
— Isso é jeito de chegar em casa?
— Chego como eu quiser e não vem dar palpite na minha vida.
— Isso não pode continuar assim!
— Não? E o que você vai fazer?
E o que eu poderia fazer? A última barreira da minha autoridade já havia sido vencida. Não dava mais conta dele fisicamente, e ele sabia muito bem disso.
Foram tempos de grande angústia. Quando já tinha uns dezessete anos, começou a chamar a turma bandalha dele para dentro de casa. Dava festas que duravam a madrugada toda. Bebiam, fumavam maconha, ouviam funk no último volume. Os vizinhos ameaçavam chamar a polícia e, no fundo, eu desejava até que fizessem isso por nós.
Um dia, acordei para ir trabalhar e vi que um dos "convidados" estava por ali. Provavelmente bêbado demais até para chamar um Uber. Perguntei para o meu filho:
— Quem é esse?
— É o K.
— K? Você não sabe o nome de verdade dele?
Ele chamou o K para a conversa.
— K, qual é o seu nome todo?
— Cássio Augustus, mas todo mundo me chama só de K.
Imagino a razão, pensei comigo. E falei para o Cássio Augustus, num tom meio brincalhão:
— Seu pai devia ter grandes expectativas a seu respeito.
— Acho que sim. Ele é meio careta, ligado nessas coisas de poder. É psiquiatra, ou psicólogo, sei lá.
— Como ele se chama?
— Afonsim.
Antonio Pedro da Costa nasceu em São Paulo, em 1949, mas agora vive em São José dos Campos. É advogado e trabalhou no mercado financeiro muitos anos. Gosta de ler e escrever desde a infância, mas só agora tem a oportunidade de se dedicar à escrita, principalmente de contos. Participa do Curso Online de Formação de Escritores.