por Branca Lopes Boson
*vencedor concurso textos anônimos do FLAL 2026
Largado em um banco azul sinto a brisa vinda de algum lugar misterioso e que mexe com minhas páginas. O som ambiente é o de muitas vozes misturadas. De tempos em tempos, uma delas se sobrepõe em avisos. Humanos se sentam e se levantam, inquietos, nos bancos ao meu redor, mas nenhum se atreve a me tocar. Uma mulher me fita insistentemente. Aproxima-se e decide me envolver em suas mãos e me colocar com pressa em uma bolsa, onde vou me misturando a frascos e batons nos pulos da sua corrida. Fico ali até que aquelas mãos me procuram e me retiram da bolsa. Posso perceber que estou dentro de um avião. Os seus gestos não são delicados, minhas páginas são viradas com impaciência. A leitura é desatenta. Demora-se um pouco mais naquela parte que sempre comove as mulheres. É incrível como provoca exatamente o mesmo efeito, independentemente de quem me lê, desde que seja uma mulher. Ela me fecha bruscamente. Sinto gotas molhando minha capa. Então, me coloca no compartimento do banco à sua frente e acabo por cochilar com o som monocórdio do jato. A batida das rodas no chão me desperta. Ouço os sons da aeronave se esvaziando: malas sendo retiradas dos compartimentos, reclamações, recados no alto-falante, que ninguém presta atenção. Logo, silêncio. Fui esquecido novamente. Barulho de aspiradores ao longe, mãos resolutas me encontram e me giram para todos os lados, numa avaliação apressada, e me guardam no bolso de um casaco felpudo. Desço as escadas e viajo às cegas pelo solo daquele novo lugar. Sinto as unhas grandes tamborilando em minha capa, checando minha presença. É outra mulher quem se interessa por mim. Ela me tem mais carinho, talvez pela falta do receio de que alguém reclame a propriedade. Pela temperatura das suas mãos, sei que está frio lá fora, mas estou bem acomodado naquele agasalho que caminha, a passos firmes, para um quarto de hotel não muito longe do aeroporto. Entra. Ouço o trânsito pesado de uma grande cidade lá fora. Na TV ligada, falam uma língua que não entendo e me distraio tentando decifrá-la. Estou em qualquer lugar em que nunca estive. O chuveiro liga e desliga em poucos minutos, e o brilho suave da luz de cabeceira ilumina minhas páginas. Deitada na cama, com a toalha enrolada na cabeça, ela pousa em mim impressionantes olhos azuis. Começo a tarefa que mais adoro: listar as sutis alterações que acontecem no rosto de quem me folheia. E os humanos acreditam que só as suas bocas falam. Nas pequenas vibrações da pálpebra, no leve tremor da íris, nos movimentos de abrir e fechar da pupila são contadas histórias admiráveis, e que nenhum livro encerra. Posso passar muitas e muitas horas lendo nos olhos de alguém o que leem em mim e, ainda assim, me assombrar com a potência da narrativa. Cada pessoa é uma nova tecitura, tão complexa quanto a transformação dos símbolos impressos em minhas folhas em pensamentos. Esta mulher me deixa deitar em seu peito e sentir a batida suave de seu coração. O ressonar nina o meu sono satisfeito. Acordo no silêncio absoluto de um móvel duro. Onde estão meus olhos azuis? Nenhum som além do trânsito lá fora, junto ao de jatos, que estão ainda mais intensos. Fui deixado novamente. A porta se abre. Alguém cantarola naquela mesma língua misteriosa e me joga na gaveta escura do móvel em que estava. Fico ali, ressentido, até que em uma noite qualquer sou descoberto por um homem, que me abre no meio. Quem pode começar uma história assim? Ele parece procurar em minhas páginas o que anseia há muito tempo. Quando, afinal, fica convencido a me ler, seus olhos parecem me compreender mais do que qualquer outra pessoa que conheci até então. Seus lábios falam comigo sem emitir qualquer som – ele tem o hábito cada vez mais raro (e adorável) de mexê-los enquanto lê. Aliás, nunca vi lábios iguais. Ora se apertam, ora se abrem e ficam assim até a língua ser obrigada a molhá-los. Os dedos, volta e meia, chegam aos dentes, que os mordiscam em aflição para depois se mostrarem em risos altos e satisfeitos. Lê até o sono chegar, o que se percebe pela demora nas piscadas. Resiste a dormir. Passa minhas páginas lutando contra os próprios limites. Até que cede, mais ou menos no ponto em que me abriu quando nos conhecemos, me fecha e pousa, com carinho, no móvel da minha já esquecida prisão. Acaricia a minha capa, agradecido. E sou eu que lhe diria obrigado, se pudesse. Apaga a luz. Assim que o sol atravessa a janela aberta, e me ilumina, sou segurado pelas mãos desse meu novo dono, que me dá um beijo de bom dia e me coloca dentro da mala. Passo um tempo bom entre macias camisas e fofas meias, sem medo de ser esquecido mais uma vez. Quando me encontro de novo com o seu olhar amoroso, estamos na praia. Posso ouvir o som ritmado das ondas e o cheiro que, confesso, me dá arrepios. É maresia. A música, ao longe, harmoniza com o mar. Ele traz à boca, de tempos em tempos, o copo com um pavoroso enfeite que esconde seu rosto enquanto sorve pelo canudo um líquido azul. Parece mais feliz, e eu também ficaria se ele tirasse os óculos escuros. Queria ver melhor seus olhos expressivos. Não me lê da mesma forma que na noite passada porque outras coisas competem com a sua atenção. Ora uma batida que balança seu corpo e o meu. Ora a contemplação do mar ou de alguém que passa. Não tem problema. Há páginas o bastante para mais tarde. Quando me leva para o quarto, afinal, me preparo para uma noite como a primeira, mas sou deixado em um ambiente escuro e silencioso. Espero ansioso até que volte, só que não está sozinho. Uma mulher também me toca, depois de longos minutos de gemidos e farfalhar de lençóis. Falam sobre mim, e o pior acontece. Sou oferecido a ela, como garantia de que voltarão a se encontrar, e levado para longe dele. Antes de conseguir me recuperar do baque da separação, me vejo em uma sala espaçosa, ao lado de uma poltrona iluminada por um abajur de pé. Os sons abafados de uma avenida frustram as minhas esperanças de que não tenha ido para tão longe. Em nada me lembra o barulho do mar. As vozes, desta vez, dizem coisas familiares, mas isso não me consola. Preciso me dar por satisfeito por estar à vista, em uma sala, e não escondido no quarto. Guardo a esperança de que serei facilmente encontrado, se ele vier. Atento-me para os sons à minha volta: a voz de uma criança e, depois, de um homem, mas não. Não é ele. Será que nunca mais vou ver meu querido leitor? Mais tarde, quando o silêncio domina a casa, ela vem se sentar e me pega nas mãos. Tem lindos olhos castanhos, com algumas partes esverdeadas, unhas curtas e mãos macias. Começa pelas primeiras páginas, lendo inclusive os meus dados catalográficos. Nem parece aquela de quem ouvi tantas frases obscenas. Elegante, calma, sinto ganas de tirá-la daquele controle. Mas a sua disciplina me aquieta e sua fidelidade me conquista, pois todos os dias, à mesma hora, ela me dedica uma hora e nem um minuto a mais. Não deixo de sentir falta da intensidade do seu amante - do nosso amante – mas a constância também pode ser sedutora. A casa, organizada como ela, mantém rotinas que acabam por domar minha ansiedade. Todos os dias depois do almoço, que acompanha a algazarra da criança e a conversa polida do casal, assim que se despede, até da cozinheira, o silêncio reina e ela se senta na poltrona, acende a luz da luminária e me pega. Eu fito aqueles olhos de cor mutante, a pele impecável, o cabelo bem preso, atento a um sinal qualquer que denote a emoção que sei causar. Nem naquela parte. Não entendo como consegue se conter tanto assim, sabendo, como sei, da sua capacidade de se deixar levar pelas sensações. Gira levemente a cabeça, ao ler a página da esquerda. As narinas tremem discretamente, sem relação alguma com partes dos meus textos. As pupilas se retraem e se expandem no ritmo da luz tênue da janela, que muda com o esvoaçar das cortinas. Tento entender como ela pode ser a mesma mulher da noite quente no quarto do meu querido leitor. Talvez, não seja. Quem sabe, talvez, essa mulher ainda esteja lá, com ele, se deitando em gemidos ao som do mar. O que aconteceu é que naquele dia ela aceitou o presente e me levou até seu quarto, mas me repassou a outra pessoa, uma amiga, que ficou sozinha depois do encontro arrebatador que mudou seus planos. Eu fui um presente de consolação para diminuir a sua culpa. Então, eu fui colocada na mala dessa esposa, mãe dedicada e amiga traída, que voltou para casa sozinha. Crio essa história para pôr fim à ambiguidade e enterrar de vez minhas esperanças. E me acalma a verdade inventada. Até que em um dia como outro qualquer, depois da casa silenciada, ela não vem para a poltrona. Muda de direção porque a campainha toca. Estranho a ansiedade que toma conta dos seus passos desde lá de dentro até chegar à entrada. E o que se segue depois da porta aberta é a confirmação de que sou melhor em guardar enredos do que em criá-los. É ele! Cumpre o prometido. Aqueles cabelos sempre presos em impecável coque são libertos em ávidos puxões, ao mesmo tempo em que a figura composta e retraída se desprende em arrebatamento. Agora a reconheço em seus gritos abafados e frases entrecortadas de paixão. A partir desse dia, as tardes tranquilas da casa ordeira se transformam na noite daquele hotel de praia. A cena reveladora se repete, com menor ou maior intensidade, na sala ou em outro cômodo da casa, em intervalos regulares de tempo. O arrastar de móveis e a queda de objetos acompanham sessões cada vez mais imprudentes de encontros. Ela mata a saudade enquanto espero paciente pela minha vez. Quando ele virá reivindicar a minha posse? A demora em ser notado me coloca em um estado a que me resignei: esquecimento. Fecho-me a tudo ao redor e, por isso, demoro um pouco a perceber quando os sons mudaram, de paixão para luta. Os dois homens se encontraram, aquele que mora e aquele que visita. O escândalo, que tinha começado no quarto, se espalha pelo apartamento e se aproxima de mim. Berros, golpes secos, ameaças. Chegam. Sou empunhado. E se juntam a força da mão humana e a aresta afiada da minha capa dura em um voo até uma têmpora. Como é frágil. Eu não sofro nenhum dano, mas é evidente a gravidade do que causei. Um silêncio horrível explode, pondo fim a toda a cacofonia. Sou devolvido para a mesinha em um movimento tão lento, que parece o desejo de que tudo congele, volte e termine diferente. Fui usado como arma. Fui a vítima inanimada de uma violência. Sinto em minha capa a umidade quente do sangue de alguém.
Em todas as minhas andanças pelo mundo, passei por muitas mãos, ouvi muitas línguas e sons, senti diferentes brisas. Conheci diversas maneiras de compreender as mensagens em mim, ao me ler espelhado em olhos de todas as cores e formatos. Risos e lágrimas, por vezes em trechos diferentes, outras vezes nos mesmos, apreciados lentamente ou com voracidade. Páginas puladas, relidas, dobradas nas pontas, recitadas em voz alta e em diversas traduções. Folhas que provocaram indignação por invadir e, até mesmo, se apossar de universos cognitivos. Por outros, lidas com mansidão. Partes de mim escancaradas, partes presas em grossos marcadores até serem assimiladas. A capacidade de emular infinitas cosmovisões a partir de um limitado conjunto de palavras, por mais que sejam as mesmas - ou pareçam ser as mesmas - me coloca na posição privilegiada de ler o mundo. Palavras que penetram o íntimo de cada ser humano e modelam o inefável. Mais que isso: alteram, ampliam e o modificam. Não conheço humanos que consigam fazer isso, a não ser que tenham em suas mãos um livro. E mesmo assim, não pude antecipar esse meu uso indigno.
Ganho camadas de poeira sobre a mancha vergonhosa, em cima do móvel da casa, que perdurou silenciosa até começar a ter seus móveis retirados. Eu me junto a outros livros, que nem imaginava que existiam naquele lugar. E assim ferido, percebo o quanto fui feliz em toda aquela minha vida livre, ímpar, viajando de mão em mão, conhecendo uma diversidade de humanos neste grande planeta. Seres que o tempo e as experiências envelhecem. Nunca imaginei que isso aconteceria aos livros também.
Passo a viver com as minhas capas indecentemente coladas às de outros livros, dividindo a espera triste de ser escolhido e voltar a sentir o calor de mãos. Eu, que amei meus leitores, fui usado injustamente para ferir e me tornei um decadente condenado nas prateleiras de um sebo qualquer.
Branca Boson é especialista em Comunicação, e sempre foi amante das ideias. Trabalha com mentoria em expressão, ghostwriting e redação. Caçula de pais professores e intelectuais, mãe da Letícia, uma bela médica em começo de carreira. Escreve para tirar o extraordinário do ordinário, provocar emoção em quem passa batido, fazer pensar e dar significado. Branca acredita que tudo tem história para contar, sejam produtos, empresas ou pessoas. E que o ser humano conta histórias para (sobre)viver, se relacionar e evoluir.