por Carlos Macedo
O dia começara perfeito. Tomavam café da manhã. Depois de anos, o sorriso dela ainda o fazia feliz. Para completar a cena, ao fundo, B. B. King cantava:
You're the greatest thing in my life, baby...
Por um momento, desviou o olhar em direção ao quadro da gralha azul pendurado na parede atrás dela. Compraram no dia da mudança. O pássaro havia se tornado um símbolo de seu relacionamento.
— Adoro essas bolachinhas — disse ela. Mesmo tendo ouvido aquele comentário quase todos os dias de sua vida a dois, ainda era especial. A banalidade sumia da frase quando dita por ela.
— Pode comer à vontade. Ainda tem um monte.
Precisava daquele ritual. Muitos amigos reclamavam da rotina. Era o fim de tudo. Ele, por outro lado, precisava dela. O café da manhã dos dois recarregava suas baterias. Seria impossível continuar o dia sem dividir sua primeira refeição com aquela mulher.
"...impediria a imersão total..."
A frase veio repentina. A voz e o rosto eram familiares. O homem branco e careca parecia o Patrick Stewart. Havia algo escrito na camiseta dele.
— Que foi? — Ela se levantou e foi para o outro lado da mesa. — Aquela tontura de novo?
— Sim. Acho que vou no médico ver o que é isso.
Nunca deixaram de cuidar um do outro. Talvez esse fosse o segredo.
— Eu disse que tu precisava ir no médico. Faz dias que tu tá tendo essas tonturas.
— Não deve ser nada grave, mas eu vou marcar uma consulta. Vamos terminar o café primeiro.
Perguntava-se quem era aquele homem. Queria saber a frase inteira. Tinha a impressão de ser algo importante.
Ao tentar agendar a consulta, deparou-se com uma mensagem de erro. Talvez fosse o site do plano de saúde, mas podia ser sua conexão. Mesmo com tanta tecnologia, alguns problemas pareciam persistir. Arriscou a velha chamada telefônica. Ouviu apenas um ruído forte na linha.
— Conseguiu?
— Não. Parece que não querem me atender.
— Como assim?
— Fui agendar a consulta pelo site e não deu. Peguei o telefone e essa merda não tá funcionando. Parece que tudo dá errado.
— A gente tenta de novo depois. Eu já avisei a operadora que a nossa linha não tá funcionando direito, lembra?
Ela sempre conseguia acalmá-lo.
"...o sistema, por muito tempo, impediria a imersão total. Seria como..."
A imagem veio um pouco mais nítida. Ele conseguiu ler a camiseta do homem: The Survivors. Também viu uma prateleira com muitos livros ao fundo.
— Fala comigo!
— Hã?
— Acho que tu teve outra tontura, mas dessa vez, tu meio que apagou.
— Como assim?
— Tu parou de me responder. Achei que tu ia desmaiar.
— Tá tudo bem. Eu vou tentar marcar o médico de novo.
A manhã seguinte começou parecida com as demais. B. B. King fazia a trilha sonora enquanto a gralha azul os observava. Para ele, tudo estava normal, mas ao invés de sorrir, ela tinha um ar de preocupação.
— Quem sabe a gente vai direto no hospital?
— Não precisa. Eu não tive mais tontura desde ontem.
— Mas a de ontem foi horrível. Eu fiquei assustada.
— Não deve ser n...
"...ter cuidado. Utilizar o sistema por muito tempo, impediria a imersão total. Seria como um sonho consciente. A ilusão..."
Dessa vez, a imagem veio com uma grande riqueza de detalhes. Conseguiu ler o nome de Philip K. Dick em um dos livros na prateleira.
Quando percebeu, ela estava ao lado dele. Apavorada, chamava seu nome insistentemente.
— Calma. Eu tô bem. Eu juro. Eu? — Parou. Percebeu algo. Triste, manteve os olhos fixos nela.
"...como um sonho consciente. A ilusão se quebraria."
Sentiu-se mal. Talvez tivesse cruzado o limite. Prometera ser cuidadoso, mas a tentação era muito grande.
Abraçou-a enquanto B. B. King dizia:
After all the lies I've told you
Just like giving you the stars
Tudo começou a se desfazer ao redor deles. A casa sumiu em um grande borrão. Logo em seguida, ela também.
Abriu os olhos no escuro. Sentiu algo em sua cabeça. Um capacete. Parte do equipamento de simulação. Após removê-lo, pensou em quanto tempo fazia desde a morte dela. Olhando para o quadro da gralha azul, cantarolou:
— I believe I'd lose my mind...
Texto originalmente publicado no episódio 9 da segunda temporada da Faísca, a antiga newsletter da revista Mafagafo.
Carlos Macedo é roteirista de quadrinhos e escritor de contos.
Escreveu HQs como Zona de Transferência (desenhada por Mari Couto) e Bem-vinda ao Setor Industrial (desenhada por Luan Zuchi), essa também publicada na Itália pela revista Skorpio.
Participou de coletâneas literarias como Pequenas Histórias de Porto Alegre, Diálogos e Planeta Fantástico 2.
Foi vencedor da edição de novembro de 2023 do concurso de ficção relâmpago do site Fantástico Guia com o texto Entre a luz e a escuridão.
Graduado em letras pelo IPA e especialista em histórias em quadrinhos pela EST, também é egresso do curso de Formação de Escritores da Metamorfose e fez oficinas na Roteiraria e no Narratologia. Além disso, participou de dois grupos de desenvolvimento de roteiro do Marieta.
Atua como professor de inglês e português em cursos livres e na educação básica e faz traduções como freelancer.