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SONHO IMPOSSÍVEL

SONHO IMPOSSÍVEL

por Jorge Pedro Almeida Lima

Não tinha mais de vinte anos de idade. Usava uma boina preta que escondia seus cabelos curtos e negros, um casaco cinza sobre um vestido vermelho curto e justo. Usava sapatos fechados de salto alto e carregava uma bolsa a tiracolo. Entrou no restaurante fugindo do sereno e da aragem fria com a qual aquela madrugada de julho castigava os notívagos. Sentou-se a uma mesa e pediu um café a um garçom conhecido seu. Esfregava as mãos e apertava os nós dos dedos enquanto seu café não vinha, ouvindo a música que tocava. O restaurante não estava cheio àquela hora, mas a música lhe chamou a atenção. Olhou a moça que cantava bossa nova tocando um violão, e a moça lhe respondeu com um sorriso e um leve aceno com a cabeça.

Pousou os olhos sobre a artista, enquanto bebia seu café requentado. Seus dedos acompanhavam a melodia no ar. Viu-se uma adolescente estudando canto e violão, que sonhava ser cantora, subir em um palco, receber aplausos sob a luz de um holofote, ser notada, respeitada, ter admiradores.

Adorava bossa nova e seus acordes dissonantes, o jeito pausado de cantar, como se estivesse distraído com outra coisa. Gravara uma fita demo com duas amigas aos dezoito anos com músicas de bossa e samba. Naquela época antevia seu nome em cartazes: "Alina. A cantora".

A cantora começou outra música, "Wave", de Tom Jobim, e piscou para ela dando um sorriso. Nascia entre elas uma amizade sem que ambas percebessem. Enquanto a jovem cantarolava e bebia seu café, a Praça Floriano, no centro da cidade, parecia-lhe vazia e deserta. Só existia a jovem cantora e sua música encantadora que a levava para outro tempo, outra realidade.

A cantora fez uma pausa na sua apresentação e aproximou-se de Alina. Cumprimentou-a e entregou-lhe seu violão dizendo que poderia ficar com ele enquanto ela tomava um suco para refrescar a garganta e descansar um pouco. Teria que continuar tocando pelo resto da madrugada.  "É o contrato", resmungou ela.

A jovem começou com seus dedos tímidos passeando em território desconhecido. Fez um acorde simples e muito baixinho, tão baixinho que ninguém ouviu. E depois outro, e outro, e outro ainda, e como uma brisa, formava-se uma melodia naquele violão que aos poucos, como a brisa crescia em vento, o vento em ventarola e a ventarola em uma ventania que batia as portas, sacudia árvores, agigantava-se.

Naquele momento o recinto revestiu-se da música com que a jovem tímida o enchia. Os poucos clientes se aproximaram, formando um círculo ao seu redor e ela esquecera-se por completo do café requentado, do frio que fazia lá fora e até mesmo dos motivos que a levaram até ali.  Seu mundo era o violão. E nada mais existia. Terminou a pequena canção apenas para assustar-se com o barulho de aplausos e pedidos de mais uma, vindo de todos os clientes que se sentavam em torno de sua mesinha, voltados para ela. A jovem cantora abraçou-a e pediu que tocasse mais.

Sua face ficou da cor do pimentão.  Tateou as cordas e começou de novo a explorar o instrumento que por tanto tempo fora seu amigo inseparável e agora parecia reconhecer sua velha companheira do passado. Parecia mais dócil, colaborava com ela para dar o melhor som para seus acordes.  Absorta no reencontro com sua arte, a moça começava a cantar sem perceber que a seu lado juntava gente. Um homem fora trazido pela jovem cantora e fotografava a jovem Alina, que permanecia alheia.

Alguns minutos depois, alguém dizia ao telefone ter finalmente encontrado a voz que procurava e aproximou o celular do violão.

Os acordes da bossa nova e a brandura de sua voz preencheram o ar do recinto com uma música suave e, um rapaz, encantado com sua voz, chamou-a de musa. A moça sequer notou sua presença.

Os clientes batiam palmas e acompanhavam com ela a música que cantava. Outros batucavam na mesa. Outros tiravam as poucas mulheres que ali havia para dançar. Outros retornavam a seus lugares, desistindo de ir embora, e pediam outra garrafa de cerveja.

Nem bem terminara a canção e seu celular tocou. Era a realidade que a chamava com cruel urgência.  A jovem ignorou o toque do celular e continuou cantando. O celular tocou mais uma vez e ela ignorou seu chamado. Mas a realidade, teimosa, insistiu e poucos minutos depois tocou novamente o aparelho que zumbia e vibrava impaciente.

 Alina deixou o violão e atendeu ao chamado do aparelho. Ouviu palavrões e gritos do outro lado. Sacudiu a cabeça, como quem desperta de um sono profundo, retocou a maquiagem, tirou o casaco, entregando-o ao garçom conhecido seu. Ajeitou-se como pôde em seu vestido vermelho curto e tão justo que parecia que ia cuspi-la. Colocou no ombro a pequena bolsinha a tiracolo, enxugou uma lágrima e saiu do estabelecimento, deixando sobre a mesa a pequena xícara de café requentado e olhares desapontados.

Do lado de fora um carro piscou a lanterna três vezes. Um homem abriu a porta e com mãos brutais, agarrou-a pelos cabelos e puxou-a para dentro do veículo. O ronco do motor soou na madrugada. Partiram ambos, acelerando o carro, e o que se ouvia era uma mistura de ronco de motor, palavrões e gritos.

No estabelecimento, o violão voltou para as mãos da sua dona,

 "É o contrato", resmungou.  

Sobre a mesa, a xícara de café de Alina ainda fumegava, esquecida.

Jorge Pedro Almeida Lima

Meu nome é Jorge Almeida, residente no Rio de Janeiro capital e formado em Engenharia Civil. Trabalho há 17 anos como Engenheiro Civil na área de Gestão de Projetos para obras de infraestrutura  e saneamento básico para áreas carentes do município do Rio de Janeiro. Leitor voraz de romances e literatura clássica, descobri na Escrita Criativa um novo prazer.